Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

NOTÍCIAS, FOTOS E VÍDEOS

Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Sophia em Terça Set 14, 2010 8:00 pm

Gostaria se possível de obter algumas informações sobre o estilo ou estilo arquitectónicos que estiveram por trás da edificação da cidade de Nova Lisboa até 1975.
Já procurei imenso e apenas encontrei este link

Grata desde já pela ajuda.
Sophia
Membro kamussel
 
Mensagens: 10
Registado: Terça Set 14, 2010 6:52 pm

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Vitor Oliveira em Quarta Set 15, 2010 10:01 am

Olá Sopfia

Para já também me despertas-te a curiosidade e vou tentar também descobrir algo sobre este tema.
Para já aqui vou postar algo sobre a cidade de Nova Lisboa


Nova Lisboa foi o nome com que a rebatizou o coronel Vicente Ferreira, ao decidir que a capital de Angola devia situar-se nesse ponto estratégico do Planalto Central. A lei ou portaria com a transferência de nome e da capital surgiu no Boletim Oficial no dia 21 de Setembro de 1927. Desde aí, esta data tornou-se o dia da cidade que só foi capital no papel, mas sempre foi cidade, porque nasceu cidade, a 12 de Agosto de 1912, por decisão do Alto Comissário da República Portuguesa, general Norton de Matos.

Acabava de chegar ao lugar o que seria o grande impulsor do progresso da região, o Caminho de Ferro de Benguela. Para celebrar o acontecimento, o general deslocou-se ao Huambo a fim de anunciar, pessoalmente, in loco, a fundação da nova cidade. Ele mesmo, de pé, sobre a tarimba montada frente ao barracão pompoamente designado gare ferroviária, leu o auto fundacional, na presença dos primeiros habitantes europeus da cidade, dois homens e uma mulher. Logo a seguir e ali mesmo, o Alto Comissário lhes entregou, em mão, o rascunho da planta da nova urbe, tratado pelo seu próprio punho.

Dados geográficos, orográficos e hidrográficos de notavel precisão documentavam o projecto. A cidade seria implantada a sul da ferrovia, alcandorada sobre a linha divisória de águas da região. Não registava nenhum povoado nesse lugar e apenas dava conta da existência de uma incipiente mina de diamantes. As sanzalas importantes, pertencentes ao forte sobado do Huambo, estavam anotadas e dispersas pelos arredores. Havia a embala do soba grande da Kissala, a duas léguas a ocidente, a do sobeta Sanjepele, três léguas ao norte e a do Sumi, a umas cinco léguas a sul.
Avatar do utilizador
Vitor Oliveira
Administrador do fórum
 
Mensagens: 5484
Registado: Sexta Abr 24, 2009 2:14 pm
Localização: Alferrarede - Abrantes - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor tozé em Quarta Set 15, 2010 11:13 am

Olá Sophia
aqui vão umas construções coloniais que ainda se encontram de pé no Huambo, antiga Nova Lisboa

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem
Avatar do utilizador
tozé
Moderador de sala
 
Mensagens: 1400
Registado: Segunda Maio 11, 2009 7:19 pm
Localização: Faro - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor tozé em Quarta Set 15, 2010 11:17 am

História

Durante a construção da linha da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela, concebido para drenar os minérios da rica região do Catanga para a costa do Atlântico, estando o acampamento do empreiteiro Pauling estabelecido cerca do km 370, começou a ser aí recebida correspondência, vinda de Inglaterra, endereçada a "Pauling Town - Angola". É necessário referir que este acampamento era, na altura, o único aglomerado populacional digno desse nome que então existia na região do Huambo. O General Norton de Matos, ao chegar a Luanda para ocupar o mais alto cargo da então Colónia de Angola, teve conhecimento dessa ocorrência e, para marcar bem o domínio português na Província do Huambo, deu ordem aos Correios para devolverem, com a indicação de "destino desconhecido", toda a correspondência com a direcção "Pauling Town".

Norton de Matos procurou, nos pobres mapas de então, qualquer coisa que lhe sugerisse um nome; só encontrou a referência a um pequeno Forte do Huambo (Cabral Moncada, criado por Portaria nº 431,de 20/09/1903), onde se tinham praticado feitos heróicos; este forte situava-se próximo do km 365, do lado esquerdo da linha, a cerca de 2 quilómetros desta. Essa representação foi o bastante para lhe indicar a magnífica posição geográfica, política económica e militar do futuro Centro Ferroviário, a que deu o nome de Cidade do Huambo, por Diploma Legislativo de 8 de Agosto de 1912, que se viria a criar ao km 426.

Logo a seguir à criação da cidade do Huambo, a Portaria Provincial 1086 de 21 de Agosto de 1912, proibiu a construção de casas de adobe, pa*-a-pique ou outros materiais semelhantes na cidade de Huambo. Em 1927, o então governador Vicente Ferreira mudou-lhe o nome para Nova Lisboa e fez publicar em boletim oficial a designação da cidade como nova capital de Angola. Contudo, tal nunca passou do papel.

O CFB deu à estação da Caála o nome de Robert Williams, para prestar uma merecida homenagem ao homem que concebeu e realizou todo o empreendimento que tornou possível a drenagem dos minérios do rico Catanga para o oceano Atlântico, o que só aconteceu depois de 1929, em data que não é possível precisar. O mesmo sucedeu com a estação de Calenguer, que passou a chamar-se Guerra Junqueiro por, do lado direito da linha férrea, existir um morro que parecia a estátua jacente desse poeta português.


http://pt.wikipedia.org/wiki/Huambo
Avatar do utilizador
tozé
Moderador de sala
 
Mensagens: 1400
Registado: Segunda Maio 11, 2009 7:19 pm
Localização: Faro - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor tozé em Quarta Set 15, 2010 11:30 am

Uma ideia em vídeo do que foi Nova Lisboa

Avatar do utilizador
tozé
Moderador de sala
 
Mensagens: 1400
Registado: Segunda Maio 11, 2009 7:19 pm
Localização: Faro - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Sophia em Quarta Set 15, 2010 11:49 am

Obrigado desde já aos dois pela ajuda.

O que tenho encontrado para descrever a arquitectura angola pré 1975 tem sido sempre a palavra modernidade ou modernismo tropical.

O modernismo está no substrato da criação de cidades como Brasília, e é um estilo típico da primeira metade do séc. XIX e que se traduz em edifícios limpos, económicos e acima de tudo úteis.

Não obstante todas as descrições ou designações que se possam atribuir à arquitectura de Nova Lisboa, nomeadamente à dos edifícios públicos, que reflectem claramente esta corrente, o meu interesse vai um pouco para além disso.

Queria saber, conhecer como se organizavam os projectos dos bairros, como e porque dos materiais usados em determinadas construções o porquê da organização da cidade de determinada forma e acima de tudo o que enformava em termos arquitectónicos o crescimento subsequente de toda uma população em torno deste pólo citadino.

Já me apercebi que alguns projectos eram concebidos de raiz para permanecerem inalterados ou sofrerem poucas alterações, e pelo que li o Bairro de Fátima, onde a minha mãe morou nos últimos três ou quatro anos em que esteve em Angola, começou por ser um projecto desse tipo, casas construídas todas com a mesma planta base. No entanto perguntei-lhe (à minha mãe) se era mesma assim e ela disse-me que não, que as casas não eram todas iguais, mas que eram todas moradias.

Então é esse pedaço da história de Nova Lisboa que me interessa, para além das fundamentações ou opções de cariz político, o que estava por trás da arquitectura popular desta cidade.

Aliás para ser sincera interessa-me quase tudo de Nova Lisboa, este é mais um pedacinho que gostaria de desvendar.

Os meus agradecimentos ao Vitor e ao Tozé que já deram uma grande ajuda.
Sophia
Membro kamussel
 
Mensagens: 10
Registado: Terça Set 14, 2010 6:52 pm

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor tozé em Quarta Set 15, 2010 6:12 pm

Olá Sophia.
Lamento que até agora não tenhas evoluido muito no teu ojectivo, mas continuaremos a busca até encontrar algo interessante.
Eu pessoalmente também estou curioso com o resultado venha a alcançar.
Hoje descobri mais isto:

Vasco Vieira da Costa (Aveiro, 1911-1982) foi um arquitecto português, naturalizado angolano.
Licencido em Arquitectura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, em 1945, Vasco Vieira da Costa foi o precursor do movimento moderno em Angola[1], autor do célebre Mercado do Kinaxixe (1950-1952)[2] — recentemente demolido[3] —, do Edifício da Anangola (década de 1950) e do Bloco da Mutamba (década de 1960), todos em Luanda.[4]
A sua linha foi influenciada pelo mestre franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), com quem trabalhou em Paris, operou em Angola durante 30 anos sendo o criador da Faculdade de Arquitectura daquele país.


Em Nova Lisboa, (entre outros progetos) atribue-se-lhe O HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DO HUAMBO

Imagem
O HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DO HUAMBO

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

Imagem

até breve
Avatar do utilizador
tozé
Moderador de sala
 
Mensagens: 1400
Registado: Segunda Maio 11, 2009 7:19 pm
Localização: Faro - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Sophia em Quarta Set 15, 2010 8:35 pm

Obrigado Tozé . Hoje dei a noticia à minha mãe que o mercado tinha sido demolido. foi triste ouvi-la falar que o mercado era uma coisa linda, grande arejado e limpo, onde se podia encontrar de tudo. Enfim
aproveito e deixo aqui outro artigo, que para mim continua a saber-me a pouco, mas mesmo sendo pouco já é bom. \":)\"


Arquitectura
Arquitectos em liberdade tropical
09.12.2009 - Alexandra Prado Coelho
diminuiraumentar


Nos anos 50 e 60 uma geração de arquitectos que estudara em Portugal partia para África e construía edifícios aplicando os princípios do modernismo mas adaptando-os ao clima tropical. A arquitecta Ana Magalhães e a fotógrafa Inês Gonçalves foram ver como é resistiram esses blocos de habitação e glamourosas cine-esplanadas

Um menino negro anda de skate no terraço de um prédio em Luanda. Por trás dele há roupa colorida a secar e, mais atrás, um edifício coberto com uma grelha rendilhada.

Noutra imagem uma menina de bata branca, fita no cabelo, mala cor-de-rosa a tiracolo, pousa para a fotografia junto a uma abertura, como se fosse uma janela sem vidro numa parede também rendilhada do Liceu do Lobito.

Noutra ainda uma rapariga faz trancinhas no cabelo de uma amiga num dos corredores-galerias do Edifício da Universal, no Lobito.

"Moderno Tropical - Arquitectura em Angola e Moçambique em 1948-1975" não é (só) um livro sobre arquitectura. A arquitecta Ana Magalhães e a fotógrafa Inês Gonçalves viajaram por quatro cidades - Luanda e Lobito, em Angola, Maputo e Beira, em Moçambique - à procura do que resta dos edifícios construídos nas décadas de 50 e 60 por arquitectos portugueses ou que tinham estudado em Portugal, e que em África construíram, inspirados pelo Movimento Moderno, mas com uma liberdade que não podiam ter na metrópole.

Encontraram de tudo, desde edifícios em mau estado, a outros relativamente bem conservados (a estação de caminho-de-ferro da Beira, de Paulo Melo Sampaio, João Garizo do Carmo e Francisco Castro, está bem conservada, mas recebe um comboio por dia), edifícios semi-abandonados, outros cheios de vida. Quando convidou Inês Gonçalves para a acompanhar nesta viagem (ponto de partida para a tese de doutoramento em que trabalha), Ana Magalhães sabia o que queria: "Perceber como é que os edifícios sobrevivem ao tempo e como é que se relacionam com as pessoas", explica ao Ípsilon. A primeira reacção da fotógrafa foi de hesitação. "A fotografia de arquitectura é uma coisa muito específica. Tem uma especificidade técnica que tem a ver com as máquinas, as perspectivas", diz Inês Gonçalves. Mas percebeu que o que Ana queria era que "o livro fosse também documental, sobre como aqueles edifícios são vividos neste momento, às vezes até com uma função diferente daquela para a qual foram concebidos".

É o caso do Cine-Flamingo, no Lobito, obra de Francisco Castro Rodrigues, de 1963. A fotografia da capa do livro mostra um edifício em mau estado, o cimento quebrado, os ferros a aparecerem por baixo, tábuas de madeira partidas, as letras da palavra Flamingo enferrujadas. Mas à frente dele passa um grupo de meninas, também elas de batas brancas e mochilas às costas, cabelos cheios de trancinhas.

O Flamingo já não é cinema, é hoje uma escola. Ana e Inês foram encontrar uma turma da primária, sentada nas cadeiras, ouvindo uma lição. Ao lado o velho anfiteatro está vazio e o ecrã já só reflecte as sombras que o sol vai deslocando ao longo do dia. Mas Ana Magalhães não tem um olhar nostálgico sobre estes espaços. "Claro que associamos estes cinemas ao glamour dos anos 50 e 60, e gostamos de imaginar como seriam na altura. Mas a arquitectura e as cidades são coisas evolutivas e é, de certa forma, um privilégio para estes miúdos estarem aqui. É um recreio natural, entre os mangais e o mar. Não está abandonado. Está degradado mas tem vida".

Varandas, caixas, cores

Tal como têm vida muitos outros edifícios desta época e deste grupo de arquitectos. O Liceu do Lobito (1966), de Francisco Castro Rodrigues, continua a ser um liceu, a Rádio Nacional de Angola (1963), de Fernão Simões de Carvalho e José Pinto da Cunha, está em óptimo estado, o Edifício dos Coqueiros em Luanda (1969), de João Garcia de Castilho, está bastante bem conservado, o Cine-Miramar (1964, João e Luís Garcia de Castilho), e o Cine-Atlântico, ambos em Luanda, continuam a funcionar como grandes cinemas ao ar livre.

No edifício da Universal, outra obra de Francisco Castro Rodrigues no Lobito (1961), há crianças a brincar pelas escadas enquanto as mulheres lavam a roupa em tanques na lavandaria a céu aberto. "Há edifícios que têm lavandarias no último andar, foram projectados assim e continuam a ser usados assim", conta Inês Gonçalves. "Outros têm grandes varandas e as pessoas fazem imensa vida nessas varandas".

Inês tinha passado muitas vezes por várias destas obras, conhecia-as, já tinha reparado "naqueles edifícios tão particulares". São "presenças muito fortes nas cidades, tanto em Luanda como em Maputo". Mas confessa que até fazer este trabalho "não tinha a noção da qualidade e da inteligência desta arquitectura".

É sobre essa inteligência que Ana Magalhães escreve no livro: "Um dos traços da especificidade da arquitectura nestes territórios é a expressão de liberdade. O impulso de liberdade está presente na singularidade das obras construídas nestes países africanos desde o início da década de 50". É visível na criatividade de edifícios como a Padaria Saipal de Maputo (1954), ou outros de Pacho Guedes (embora este arquitecto, com o seu Stilo Guedes, seja um caso particular, sublinha a autora), na forma como são tratadas as fachadas, com varandas, caixas e outro tipo de saliências, e na decoração colorida.

"O mosaico de pastilha vidrada, na sua profusão cromática, alegra muitas fachadas das ruas de Luanda: o azul-turquesa do Cuca, ex-líbris de Luanda, as cores fortes dos blocos salientes que animavam a fachada do mercado do Kinaxixe, o desenho padronizado e geométrico do edifício do 'Livro'; há pastilhas cor-de-rosa, cor-de-laranja, brancas e todas as variações de azul", escreve.

Mas quem são, afinal, os arquitectos por trás destas obras? Ana Magalhães destaca oito nomes: Vasco Vieira da Costa (Aveiro, 1911-1982), Francisco Castro Rodrigues (Lisboa, 1920), Fernão Simões de Carvalho (Luanda, 1929), Pancho Miranda Guedes (Lisboa, 1925), João José Tinoco (Coimbra, 1924 -1983), João Garizo do Carmo (Beira, 1917-1974), Paulo Melo Sampaio (Cascais, 1926), Francisco Castro (Lisboa, 1923). É uma geração que, formada "nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto, entre o final da década de 40 e o início da década de 50, parte para África, afirmando uma modernidade já distante dos modelos arquitectónicos oficiais veiculados pelo Estado Novo."

Têm idades diferentes, vão para África por razões diferentes, mas conhecem as premissas do Movimento Moderno, do trabalho de Le Corbusier, e também - facto relevante para o estudo que Ana Magalhães está a fazer - da forma como esse Movimento Moderno foi apropriado e de alguma maneira reinventado no Brasil.

A demolição do Kinaxixe

Vasco Vieira da Costa, por exemplo, estagiou com Le Corbusier em Paris; e Francisco Castro Rodrigues traduziu a versão integral da Carta de Atenas, o manifesto saído do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna. A primeira obra de Vieira da Costa em Luanda data de 1950-52 e hoje já não existe. O Mercado do Kinaxixe foi dos primeiros edifícios que Ana e Inês visitaram e fotografaram.

"Já sabíamos que a demolição estava iminente", recorda Ana. "E os técnicos da empresa de demolição já lá estavam e tinham iniciado os trabalhos mais pequenos". Pediram autorização para entrar, e a câmara de Inês registou esses últimos momentos do velho mercado que foi um edifício emblemático da capital angolana, mas que, por se situar numa zona de alta especulação imobiliária, teve que dar lugar a um centro comercial.

"Ainda conseguimos ter a percepção de como o espaço funcionava", conta a arquitecta. "Havia dois pátios, os enormes espaços das bancas de venda, e as maravilhosas grelhas rendilhadas que davam para os pátios, enquanto para o exterior havia brise-solei verticais". Este era, segundo Ana Magalhães, um dos edifícios que c*mpria as regras do Movimento Moderno, já adaptado às condições climáticas do país: "Levantado do chão, com uma galeria em continuidade com a rua, a cobertura em terraço, as grelhas que permitiam a ventilação natural.

Ainda houve resistência, da parte de arquitectos e de alguma elite intelectual de Luanda, mas o Kinaxixe veio abaixo. O escritor angolano José Eduardo Agualusa, que, juntamente com a arquitecta Ana Tostões, apresentou o livro "Moderno Tropical" numa sessão no Museu do Design e da Moda, em Lisboa, não se surpreende. "Existe uma grande ignorância em relação àqueles espaços, incluindo da parte dos responsáveis políticos. Só isso explica o abandono a que foram sujeitos". A crítica não visa só os responsáveis angolanos. "Ninguém ligou nunca. Não houve o menor esforço para proteger os edifícios. Portugal também tem responsabilidades, porque é um património comum. Mas os portugueses ficam com o complexo do colonizador e acabam por não fazer nada".

Apesar de tudo houve recentemente sinais positivos, embora em relação a edifícios de um período anterior. Agualusa recorda o caso do setecentista Palácio de Dona Ana Joaquina, que foi derrubado. "Houve alguns protestos e o Governo acabou por fazer uma cópia em betão que não tem nada a ver com o que era".

Noutros casos conseguiu-se manter o edifício original - como o do Palácio de Ferro, da escola de Gustave Eiffel, que foi restaurado por uma construtora brasileira, ou o Elinga Teatro. "Pela primeira vez um movimento cívico teve sucesso e terá impedido que o edifício fosse derrubado, o que é extraordinário porque a pressão imobiliária ali é muito grande". Agualusa está só moderadamente optimista: "Vamos esperar que seja possível salvar o que ainda resta e o que ainda possa ser salvo, que já não é muito".

Descobrir territórios novos

Ana Magalhães acredita que assistimos a um aumento do interesse de estudiosos portugueses sobre este período e o trabalho destes arquitectos. "O que é mais entusiasmante é estudar o séc. XX e em Portugal o trabalho já está praticamente todo feito. Há que descobrir territórios novos". Mas não é tarefa fácil.

Há trabalhos anteriores - nomeadamente "Geração Africana - Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique 1925-1975", do arquitecto José Manuel Fernandes, publicado em 2002 e que acaba de ser lançado numa segunda edição; a investigação de António Albuquerque sobre Moçambique; ou a tese de Margarida Quintã sobre a obra de Vasco Vieira da Costa - mas, diz Ana Magalhães, "levantam-se muitos problemas, até porque alguns dos arquitectos já morreram, os espólios não existem, muitos arquivos, sobretudo em Angola, terão sido destruídos ou estarão desorganizados". O livro inclui uma cronologia, um guia das obras fotografadas e pequenas biografias dos oito arquitectos, elementos que "podem funcionar como um guião" para quem queira aprofundar a investigação.

Longe de Lisboa, em cidades que precisavam de crescer e tinham espaço para isso, os arquitectos dessa "geração africana" construíram muito. Usaram os ensinamentos de Le Corbusier, namoraram o modernismo tropical brasileiro - veja-se a Igreja do Alto da Manga (1955) de João Garizo do Carmo, com as suas formas curvas e ondulantes (o "Diário de Moçambique" em 1956 chega a interpelar o arquitecto sobre a "semelhança com a Igreja da Pampulha, do [arquitecto brasileiro] Oscar Niemeyer", ao que Garizo do Carmo responde que "já muito antes de Niemeyer a forma parabólica foi imensamente empregada").

E tentaram que os edifícios fossem obras completas, integrando a arquitectura e a arte - painéis de azulejos, murais em pastilha vidrada, painéis cerâmicos, murais em mármore gravado, murais de seixos embutidos, desenhos figurativos e abstractos, formas geométricas, cores. Em pleno Estado Novo, fizeram uma arquitectura livre. Moderna e tropical.

e ainda em especifico sobre o mercado

KINAXIXE, EXEMPLO MAIOR DA ARQUITECTURA TROPICAL
O Kinaxixe, para além do valor patrimonial enquanto obra arquitectónica, é um dos últimos grandes exercícios de arquitectura tropical produzidos no País e que traduz, de forma indelével, o pensamento que deve estar subjacente à cultura construtiva em países tropicais. Se no caso do edifício do D. Ana Joaquina havia, fundamentalmente, a carga da sua história, no caso do Kinaxixe não! E um edifício com nobreza, referenciado nos livros de arquitectura universal como uma referência conceptual e construtiva. "Para além de ser o único edifício de Angola referenciado no livro "Arquitecturas do Mundo", ele representa sob o ponto de vista da arquitectura tropical, a essência do pensamento sobre a ventilação cruzada e a forma como o betão deve ser usado em regiões tropicais , sendo a sua estrutura formal e compósita , um ponto de partida para se analisar o que se pode ou se deve fazer, em regiões tropicais. O edifício reflecte os elementos base do pensamento sobre arquitectura tropical, ou seja a ventilação cruzada, o recurso ao grande pé direito, a luminosidade controlada, as protecções a poente no percurso da incidência solar, as relações espaço/ventilação, humidade/conforto térmico. Não é por acaso que vem referenciado no livro das arquitecturas do Mundo!

Por ANDRÉ MINGAS* arq.Angolano

fonte:http://www.casadeangola.org/LUANDA/salvarluanda.htm
Sophia
Membro kamussel
 
Mensagens: 10
Registado: Terça Set 14, 2010 6:52 pm

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Vitor Oliveira em Quinta Set 16, 2010 8:25 am

A Cidade que nasceu para ser capital de Angola

No dia 8 de Agosto de 1912, deixou de ser uma vila de ferroviários, e passou a ser o grande centro do Planalto Central que o seu fundador, Norton de Matos, concebeu para ser a capital de Angola. O então alto-comissário da colónia assinou a portaria da nova cidade a 21 de Setembro.
Segundo o historiador da cidade, Festo Sapalo, a cidade do Huambo tem dois momentos dignos de registo. Em primeiro lugar, diz o especialista, o dia 8 de Agosto de 1912 que marca a fundação da cidade e o 21 de Setembro, do mesmo ano, data da portaria de Norton de Matos que oficializa a existência da capital do Planalto Central.
Em 1928, o projectista do Huambo, o engenheiro Vicente Ferreira, foi nomeado governador-geral da então colónia de Angola e atribui à cidade o nome de Nova Lisboa. Retomava o antigo projecto de Norton de Matos que consistia em deslocar a capital para o Planalto Central.
A data coincide também com a chegada do primeiro comboio à região. A linha do caminho-de-ferro entre o Lobito e o Planalto Central ficou concluída em 1912 e a chegada do primeiro comboio foi testemunhada pelo alto-comissário Norton de Matos, que inaugurou a nova estação ferroviária, oficinas e armazéns.


Centro de comércio
Segundo o historiador Festo Sapalo, o nascimento do Huambo surge muito antes de 1912, com o fim das campanhas militares. As tropas ficaram do Forte da Quissala e os civis concentraram-se no Huambo onde criaram um importante entreposto comercial.
Os primeiros comerciantes instalaram-se naquela que é hoje a Rua do Comércio, onde surgiu também a primeira igreja. Depois os comerciantes e homens de negócios espalharam-se para todos os pontos da região, sobretudo para o Bailundo e terras do Bié.
Norton de Matos substituiu Cabral Moncada no cargo de governador-geral de Angola, em 1909, quando projectou a cidade do Huambo. O alto-comissário aboliu a construção de casas de madeira cobertas a capim e impôs aos moradores a construção de casas definitivas, em alvenaria. Foi assim que aos poucos surgiu a nova vila do Huambo, que por sua vez passou a ser cidade no 21 de Setembro de 1912, mais por razões políticas do que pela sua grandiosidade. Na verdade continuava a ser uma pequena vila mas o “visionário” Norton de Matos queria desenvolver a região e colocar ali a capital da então colónia.


Vicente Ferreira e a nova cidade
A futura cidade foi dotada com indústrias cerâmicas de tijolo e telhas, que revolucionaram a construção das primeiras estruturas definitivas na Rua do Comércio e das primeiras igrejas, nas localidades do Bailundo, Catchiungo, Tchipeyo e outras, na província.
“Quando se verificou que já havia um nível de desenvolvimento na vila, surgiu a ideia da criação da cidade. Norton de Matos convidou o engenheiro Vicente Ferreira, seu colaborador nas Obras Públicas, em Luanda, que fez o projecto da cidade, definiu as áreas de expansão urbana, as áreas de comércio e os terrenos para o canal e estruturas do Caminho-de-Ferro de Benguela”, realçou o historiador. Foi também o engenheiro Vicente Ferreira que definiu todas as ruas, o palácio, o edifício do banco, os correios e outros serviços sociais que hoje compõem a cidade do Huambo e cujos edifícios originais ainda estão de pé, apesar das destruições da guerra. Alguns foram reconstruídos depois da paz.
O esboço da cidade estava quase concluído em 1911 e em 1912 foi fundado o Huambo como cidade. Nesta época foram redigidos os decretos e portarias publicados no mês seguinte. A inauguração da cidade tem uma acta que oficializa o acto e que nomeia Manuel Justino Patacho como o seu primeiro administrador.

Festo Sapalo disse que depois da inauguração da cidade, a actual biblioteca Constantino Kamoli, foi uma das primeiras estruturas definitivas a ser concebidas em 1912, na parte alta da cidade. O Museu do Huambo, que foi a casa de passagem dos trabalhadores dos Correios, e a actual Clínica da Polícia Nacional são edifícios da época da fundação.
Surgiu o primeiro bispado, e em frente ao Registo do Huambo, onde ainda existe uma residência antiga, foi a primeira escola primária da cidade.
O historiador recordou que o Rádio Clube do Huambo funcionava na Rua do Comércio e o Hospital Central funcionava por trás do actual edifício da Angola Telecom, antes de serem instalados nos actuais lugares.
A primeira fábrica de sabão nasceu no bairro Benfica. Mas o berço da cidade, de acordo com Festo Sapalo, é a região da Quissala, onde estavam concentradas as tropas de ocupação portuguesa.


Avatar do utilizador
Vitor Oliveira
Administrador do fórum
 
Mensagens: 5484
Registado: Sexta Abr 24, 2009 2:14 pm
Localização: Alferrarede - Abrantes - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor LILI em Sexta Set 17, 2010 10:05 am

Olá Sophia, espero contribuir para este tema. Um beijo
Imagem
Avatar do utilizador
LILI
Top membros
 
Mensagens: 682
Registado: Quinta Maio 21, 2009 12:05 pm
Localização: Leiria - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor LILI em Sexta Set 17, 2010 10:08 am

VISTA GERAL DA CIDADE DE NOVA LISBOA - HUAMBO NOS ANOS 1965/70
Imagem
Avatar do utilizador
LILI
Top membros
 
Mensagens: 682
Registado: Quinta Maio 21, 2009 12:05 pm
Localização: Leiria - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor LILI em Sexta Set 17, 2010 10:09 am

Imagem
Avatar do utilizador
LILI
Top membros
 
Mensagens: 682
Registado: Quinta Maio 21, 2009 12:05 pm
Localização: Leiria - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor LILI em Sexta Set 17, 2010 10:10 am

Imagem
Avatar do utilizador
LILI
Top membros
 
Mensagens: 682
Registado: Quinta Maio 21, 2009 12:05 pm
Localização: Leiria - Portugal

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor Sophia em Sexta Set 17, 2010 9:27 pm

Obrigado Lilly! :)

As fotos que deixaste aí vem ainda mais reforçar a perspectiva do modernismo tropical a cidade foi construída com avenidas e ruas largas e rectas também por causa disso, e as fotos dos edifícios ainda mais carregam nessa tendência.

Muito obrigado uma vez mais.
Sophia
Membro kamussel
 
Mensagens: 10
Registado: Terça Set 14, 2010 6:52 pm

Re: Arquitectura de Nova Lisboa - Huambo

Mensagempor António Kalunga em Segunda Nov 29, 2010 8:34 pm

O HUAMBO, FUNDAÇÃO...E DESENVOLVIMENTO

O Huambo não começou como as outras urbes estabelecidas em Angola pelos portugueses. Desde que foi fundado em 1912, não evoluiu como as congéneres mais velhas: primeiro lugar, depois povoação, a seguir vila, etc. De acordo com a disposição legislativa de criação e se o paradoxo é permitido, começou logo pelo fim: sem passar por esse itinerário de categorias intermédias, nasceu cidade desde o início.

O seu fundador, General José Mendes Ribeiro Norton de Matos, então Governador-Geral, relata com pormenor como tudo sucedeu.

O Caminho de Ferro de Benguela avançava decididamente do litoral para o interior. Mr. Pauling era na altura o empreiteiro das obras na região. Com alguma regularidade, recebia correspondência da Inglaterra, endereçada a Pauling Town, nome atribuído ao perímetro onde ele se encarregava da construção em curso.

Norton de Matos não gostou de saber isso, que constituía um desrespeito pela soberania nacional. Deu ordem imediata aos Correios da Colónia para a devolução de quaisquer cartas com tal endereço postal, indicando que se tratava de destino desconhecido. Conforme escreverá anos mais tarde, pôs-se depois a «estudar a fundo o caso do Huambo».

O lugar era assinalado nos mapas rudimentares da época pela existência do pequeno forte da Quissala, onde alguns feitos dignos de registo tinham ocorrido no passado. Se a documentação cartográfica não referia nada mais de notável, revelava logo a importância estratégica do local, dos pontos de vista político, económico e militar.

A Imprensa de Angola achou original essa «forma simples e fácil de criar cidades no sertão africano», pelo que comentou, criticou e até troçou da decisão. Desempenhou o seu papel, mas ganhou pouco com isso.

Norton de Matos reconhecerá daí a um mês, a 21 de Setembro, que os jornalistas tinham razão. Quando saltou do comboio para inaugurar a cidade que impusera por via legal, olhou à volta a planura imensa. O que viu nesse momento? Ele próprio responde: pouco mais do que a «ultra modesta casinha destinada à estação do CFB» e a habitação de madeira adquirida para abrigar o Administrador e a família, que serviria ainda como sede da Circunscrição e funcionamento de certos serviços da Comissão Municipal. Ao longe, as paredes em derrocada de uma missão religiosa que mudara para outro sítio. Era de facto pouco, mesmo muito pouco.

Mas alguns meses mais tarde, o Huambo revelava já a sua pressa incon-tida de crescer: levantados agora em tijolo, construíram-se os edifícios (se é que mereciam tal qualificativo) para a Administração, os Serviços de Saúde, a Fazenda, os Correios e Telégrafos. Estabeleceram-se na mesma altura casas de comércio, que vinham comprovar como os seus proprietários confiavam no futuro. Norton de Matos concluirá as memórias guardadas desse tempo acrescentando que a «urbanização nunca mais parou».
António Kalunga
Top membros
 
Mensagens: 203
Registado: Quarta Out 14, 2009 5:36 pm
---------

Próximo

Voltar para SALA DO HUAMBO

Quem está ligado

Utilizadores a navegar neste fórum: Nenhum utilizador registado e 0 visitantes

cron