Aventuras na Ilha de Luanda

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Aventuras na Ilha de Luanda

Mensagempor Tundavala em Sexta Out 23, 2009 10:10 pm

Pouco depois de chegarmos a Luanda (1952) fomos até à praia. A minha mãe, meu irmão e eu. E fomos para o lado da "rebentação", onde ainda havia palmeiras junto ao mar.
O mar estava um tanto agitado e o meu irmão, mais velho que eu dois anos, estava a dar um mergulhos fenomenais para a água. Não me contive e fui também. Eu tinha só 7 anitos. Resultado: Lá mergulhar, mergulhei! Mas sair? Já não fui capaz...
É uma imagem que nunca me saiu da mente! Fiquei sentado na areia, calmamente, vendo o sol lá no alto, através de uns bons dois metros de água cristalina. Com o efeito do movimento da água, o sol dançava para um e outro lado e mudava de tamanho, consoante a altura de água... E eu encantado a apreciar o espectáculo!
Às tantas, aparece um vulto. Sinto que me agarram uma perna e dou por mim, agora deitado na areia. A minha mãe gritava desesperada pensando que eu tinha morrido. Uma voz estranha que me chega de muito longe, dizia: "Easy! Easy! No problem!" E sinto uma lambada forte em cada lado da cara! Daquelas que se dão, rápidas, em movimento de vai-vem... Devo ter acordado, por que a ideia final deste episódio é a minha mãe agarrada a mim com todas as forças, quase me fazendo faltar o ar... Pouco depois, andou comigo pela praia à procura do inglês que me tinha salvo, mas nunca mais o encontrou... tinha desaparecido! Nunca soubemos quem era!

O teimoso e orgulhoso que sou não é de agora... Senti-me tão incompetente por não saber nadar, que, anos depois, fui inscrever-me nas escolas de natação do Nun'Álvares, do outro lado da Ilha. Em resultado disso fiz-me nadador e entrei em competições. Nunca fui nada de especial, salvo nas grandes distâncias. O melhor que consegui foi um 2º lugar na Travessia da Baia, que começava muito para lá do Banco de Angola e acabava junto ao Nun'Álvares... Eram 3 Km bem medidos!

O meu irmão dedicou-se à vela e comprou um Moss (um barquinho pequenino, só de uma vela). Sempre que ele me deixava, ia dar uma voltinha... Uma beleza!

Como tinha a noção de que sabia pouco daquilo, nunca me afastava muito do Clube e foi então que recebi uma lição que nunca esqueci.

Saí do mar, puxei o barco pela rampa e, quando o estava a lavar, veio ter comigo o Orlando Sena Rodrigues (grande campeão nacional de vela) e pergunta:

- Olha lá, Armando, já viraste alguma vez? – pelos vistos tinha estado a observar-me...

Eu, emocionado pelo facto do Campeão estar a falar comigo e querendo mostrar valor e sentido das responsabilidades, respondi orgulhoso: Eu? Nunca! – estava a partir do princípio que “virar o barco” era uma incompetência... Qual não é o meu espanto quando ele me diz:

- Então volta para o mar e vira! Treina-te nisso, porque, enquanto não souberes como o barco se vira e se põe novamente a navegar, não és velejador!

Não sei se estão a ver a minha reacção e a minha estupefacção. Aquilo não era um conselho: Era uma ordem!!!

No dia seguinte, Domingo, por sorte um dia de vento com rajadas, fui para lá do Naval, naquela zona mais ou menos deserta e vá de virar. Barco para cima, tirar a água, ganhar velocidade e vá de virar! Estava-me a sentir tão bem e tão divertido que fiz isto já nem sei quantas vezes!

Até que me apercebo da aproximação de uma lancha da Marinha, mas pensei que não era nada comigo... ERA!

Alguém os tinha ido avisar que havia um rapaz que não conseguia dominar o barco e estava sempre a virar...

Quando lhes expliquei que estava a fazer o que o Orlando Sena Rodrigues me tinha mandado, fizeram cara feia por acharam que estava a gozar com eles. Por mais que insistisse eles não acreditavam!

Rebocaram-me até ao Nun’Álvares como se fosse um preso condenado! Por sorte o Orlando estava lá e confirmou tudo, explicando que eu só tinha exagerado “um bocadinho” as instruções dele...

Levei um raspanete do Orlando (com cara séria mas os olhos sorriam, matreiros...) e os da Marinha a observar... "Pois é, rapaz, treinar é uma coisa, brincar com o mar é outra..."

Quando os da Marinha se foram embora, diz o Orlando: Então já vi que queres mesmo ser velejador! Parabéns e vai em frente, mas cuidado com o mar, ouviste?!!!

Se eu fosse feito de manteiga, tinha-me derretido!!!
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Por tudo isto, não resisto a transcrever o que encontrei em:

Homenagem
a Orlando Sena Rodrigues

A Associação Portuguesa da Classe Dart - catamarã vai em colaboração com o Clube Internacional da Marina de Vilamoura - CIMAV - homenagear o grande velejador e amigo Orlando Sena Rodrigues, que faleceu no passado dia 10 de Fevereiro.

Sena Rodrigues, velejador Olímpico em 1968 (JO do México) foi para além disso um grande entusiasta do Desporto da Vela. Foi treinador e um activo dirigente. Foi ainda o responsável pela iniciação à vela de uma série de miúdos. Desde então, ainda nos anos 60 em Luanda, que todos o considerávamos um amigo. Acreditou em nós e, foi com a sua ajuda que a Classe Dart foi incluída no prestigiado Torneio de Carnaval de Vilamoura.

Tal como ele era, vamos fazer uma coisa simples: A 5 min da "preparação" para a primeira regata (Torneio de Vilamoura), cada tripulação deitará à água uma flor e será feito um minuto de silêncio.

"Obrigado Orlando"

Henrique Perestrello
Presidente da Direcção
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