Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

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Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor Tundavala em Quarta Set 30, 2009 11:31 pm

Pois é...
Imaginem um grupo de rapaziada (na casa dos 16 a 18) que, vindos de todos os pontos de Angola, "cai de pára-quedas" em Sá da Bandeira.
Bem, aquilo que "sonhámos" como férias, era afinal um curso de Comandantes de Castelo da Mocidade Portuguesa. O regime estava a transportar para Angola (e em força!) não só os militares, mas também o sistema político e social que em Portugal tinha permitido a pacificação da República... (Na altura não percebíamos nada de política e agora também não me vou meter por esses labirintos... Livra!)
Pois bem, aquilo era uma autêntica recruta com instrução militar e tudo. E tínhamos uma série de aulas de que já não me lembro. Mas recordo bem as de sobrevivência, primeiros socorros, sinais de bandeiras e outras que também se aprendem nos Escuteiros, ou seja, alguma coisa de útil aprendi...
Mas o que agora interessa não é nada disso!
Estávamos alojados num liceu e tenho uma vaga ideia que ficava no caminho para a Senhora do Monte (falta-me o nome - Anabela: dê aqui um HELP ao velhote!).
Depois de uma semana de aulas intensivas e de instrução militar intensa, dávam-nos dispensa ao Sábado depois do almoço e ao Domingo. Ah! Isso é que era. Estão a ver uma quantidade de rapazes na idade parva a "invadir" a pacatez da então sossegada Sá da Bandeira? Só visto! Foi um desatino de namoricos, de passeios à Senhora do Monte, ao Cristo Rei e sei lá que mais! Constou-se até que o pároco lá do sítio foi falar com as autoridades "militares" para nos cortar as saídas!!!
Isso é que era bom!!! Não cortaram, mas sugeriram que fossemos à missinha no domingo de manhã e, é claro, dissémos que sim senhor, mas acho que ninguem lá pôs os pés! Ora essa! Era muito melhor esperá-las à saída...
Devo confessar que timidamente (palerma!), não arranjei nenhuma namorada. Cheguei a fazer amizade com algumas pequenas mas, fui sempre muito cauteloso na questão, pois sabia que só lá estaríamos por um mês. Além de que tinha uma apaixonada em Luanda... Chega de indiscrições!
O meu forte na altura era a natação que praticava no Nun'Álvares em Luanda. As minhas amigas apresentaram-me um nadador de lá e fomos fazer a travessia dequele magnífico lago da Senhora do Monte.
Aquilo foi "canja"... Tinha feito à pouco tempo a travessia da Baia de Luanda que começava perto do porto e acabava no Nun'Álvares, dando a volta sempre junto à marginal... e apanhando com todos os esgotos de Luanda... Que bom! Eram 3 km terríveis! Naquele tempo ainda não se tinham inventado as ETAR!
E, para rimar com ETAR, vou-me DEITAR!
Amanhã há mais!
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Mensagempor Tundavala em Quinta Out 01, 2009 7:00 pm

(Continuação)

O tal curso para-militar incluiu uma caminhada (eles chamavam-lhe marcha...) de Sá da Bandeira até às cascatas da Huíla.
A caminhada foi um verdadeiro sufoco! Era longe, estava um calor daqueles, mais a poeira, mais as malvadas botas que me esfolaram um pé, mais a sede. Ah! Que sede!
Eu não tenho a certeza, mas se não foi na casa que vou juntar a seguir (e que copiei das "fotos recentes da Huíla") foi numa muito parecida que o espírito de entreajuda que lá era norma veio, uma vez mais em nosso socorro.
CASA_HUILA.JPEG

Pois as pessoas desta casa, principalmente mulheres e crianças, penso que os homens deviam estar a trabalhar, vieram para junto do caminho e colocaram à nossa disposição água, sumos e fruta! Foi uma festa! Os "comandantes" bem queriam que a gente andasse, mas nós íamos dizendo que sim, pois claro, mas não arredámos pé dali por um bom pedaço. Jamais esquecerei a ternura e a simpatia como fomos tratados!
Chegada à Cascata! Que maravilha! Montámos o acampamento à pressa para ir logo "provar a água"! Eu nunca tinha visto nem "provado" uma coisa assim. Aquela água fresquinha a bater-nos no corpo era uma massagem natural e era um prazer difícil de descrever!
Estivemos ali uma semana. Da actividade tipo "tropa", francamente, já não me lembro de nada. Mas dos passeios pelos arredores, de encontrar caçadores com os seus arcos e flechas e as raparigas com os seu adornos maravilhosos e seus seios à mostra, não é coisa que se esqueça!
Há fotos do que estou a contar nesta sala e, por isso, não vou trazer para aqui mais - só fiz questão de mostrar a casa como uma tardia mas comovida homenagem a quem ali vivia!
De um modo geral, as recordações mais vivas que me ficaram de Sá da Bandeira e dos seus arredores, foram as pessoas e as paisagens, as primeiras de uma simpatia sem limites, as segundas de uma beleza que nos "esmaga". Isso é que fica marcado na alma para todo o sempre!
(continua)
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Re: Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor anabela em Quinta Out 01, 2009 8:42 pm

Olá Armando Tundavala
Tenho seguido as suas postagens com interesse. Lamento não lhe poder ser útil. Eu da Huíla o que conheço é da net. Fui uma vez a Sá da Bandeira, deveria ter 6 anos de idade. Tenho uma noção da Serra da Leba e pouco mais.
Eu sou da Zona Centro. Nasci na Cela, (K. Sul) e vivi no Huambo e em Dalatando (Salazar) mas como sou "cibernauta :roll: " talvez venha a descobrir essa sua curiosidade.
Felicidades
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Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor Tundavala em Terça Out 06, 2009 8:05 am

Amiga Anabela

Todos os "auxiliares de memória" são bem vindos. Obrigado!

E sabe a melhor? Pensando um pouco mais sobre o assunto acho agora que não estivemos alojados no Liceu... É que havia "dormitórios" ou "camaratas", como se lhes queira chamar... Ora um Liceu, não tem disso. Então acho que estivemos, isso sim, num "seminário", uma escola de padres, na altura todos em férias... Será isso?

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Mensagempor Tundavala em Sábado Out 10, 2009 10:03 pm

(Continuação)

Como referi antes, estivémos em Sá da Bendeira (Lubango) durante um mês, com passagens pelos arredores, e que arredores: tantos e tão maravilhosos!
Um dia recebemos a indicação de que deveríamos ter tudo arrumado para seguirmos depois do almoço, de comboio até Moçamedes (Namibe) donde partiríamos de barco para Luanda. Dá para imaginar o que é um grupo de jovens a receber uma notícia destas? Foi aquela festa!
À hora marcada lá fomos até a estação do CF. O comboio já lá estava, apinhado de gente, cabras e galinhas, mais uma quantidade enorme de vagões de carga.
Sempre adorei máquinas em geral e as dos combóios em especial. Ainda por cima aquela era um espectáculo: a sua pintura preta reluzente, donde sobressaiam as rodas, os números e as letras CFM a vermelho vivo. E as tubagens? Brilhavam como ouro! Uma maravilha!
A máquina já resfolegava, bem abastecida de carvão e o fumo seguia para o alto em grossos novelos. De vez em quando, uma forte apitadela seguida de outra nuvem, agora de uma brancura extrema, dizia a todos que a máquina estava impaciente e desejosa de se pôr ao caminho... E lá partimos. Eu iria pela terceira ou quarta carruagem a contar da frente.
Com a carruagem apinhada, resolvi pendurar-me à janela. Apanhava ar fresco e apreciava a paisagem. Só que comecei a ficar com problemas nos olhos por causa da poeria, do fumo e da fuligem que vinha lá da frente...
Pedi ao Faria que me emprestasse os óculos de sol (Ele e outros do nosso grupo iam a jogar às cartas...). Percorremos alguns quilómetros entre matas com árvores enormes, com aquele verde que tanto me impressionou. A dada altura começaram a aparecer enormes paredes em pedra de montanhas que haviam sido cortadas quase a pique. Um trabalho impressionante! Mais adiante começámos a ver que, do outro lado, lá muito em baixo e a perder de vista, uma enorme extensão de terra! Era um primeiro vislumbre que nos era oferecido do deserto do Namibe!
A dada altura, porém, tudo desaparece para dar lugar a núvens tão densas que apenas se via a pequena faixa de pedras junto à linha! É que o combóio seguia por um trilho cortado na montanha! Do lado esquerdo tínhamos a sensação de ser esmagados por uma parede de pedra! Do outro lado, nuvens densas cobriam toda a paisagem, como se fosse uma manta de algodão e o comboio seguisse suavemente por cima delas.
Da minha mente nunca mais saiu a ideia do COMBÓIO VOADOR!!!
(continua)
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Re: Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor joana gonçalves em Sábado Out 10, 2009 10:15 pm

Tundavala
pela energia que coloca nas suas recordações os meus parabéns.
Ao lêr esta sua aventura deu-me vontade de entrar nessa locomotiva com o cheiro caraterístico de angola, inclusivé do cheiro a "catinga" que emanava dos nossos corpos. Continue com as belas histórias com que nos tem motivado a engradecer este este pequeno mas já grande forum.
Joana
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Re: Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor Tundavala em Domingo Out 11, 2009 12:04 am

Cara Joana

É saboroso ler isso!
E "afaga-nos o ego"! (Não me recordo de quem usou esta expressão tão cheia de ternura)

Sabe?
Quando me dizem que gostam do que escrevo, gosto e agradeço, mas respondo sempre o mérito não é meu. É das coisas que me foram acontecendo... e da força com que essas recorações estão por aqui gravadas, como essa do Combóio Voador, ou da "faquinha" do Lobito, ou da avaria na Gabela, ou da paragem forçada na Guiné...

Não sou escritor nem nunca serei. O escritor é um inventor. E eu não invento nada... Os dedos limitam-se a obedecer ao que o cérebro lhes transmite... Antigamente, dizia-se "o que o coração manda..." agora somos mais tecnocratas...

E há um detalhe curioso: quando usava o papel e a caneta, nunca fui capaz de escrever nada de jeito... O esforço a que o desenho de letrinhas obriga fazia com que o pensamento, aborrecido, se fosse embora! Agora não: é como se pensamento e teclado fossem um só...

E, às vezes, como agora, vão andando, vão andando, ou voando, nem eu sei... como também não sei bem como nem onde é que isto vai parar!

Um grande abraço
Tundavala
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Re: Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor Tundavala em Segunda Nov 02, 2009 1:24 am

Já contei aí numa sala de Luanda que, em 1970, comprei o meu primeiro carro novo: era uma espécie de Mini japonês (o Colt, da Mitsubishi, passe a publicidade...).

O que é certo é que era uma pequena maravilha. Não era nada feio, andava bem, gastava pouco e, imaginem, foi o primeiro carro em que o rádio não era extra. Só com esta simples manobra comercial, o carrito foi um sucesso de vendas!

Mas o que queria mesmo era falar do casamento e não de carros... Mas como o carro fez parte das compras de casamento, achei que devia começar a falar dele... Sabem como é: Homens e carros são um par inseparável... Se, além do mais, estiver no banco ao lado uma pessoa muito especial, nós associamos esses dois amores e é assim que ficam retidos na memória...

Já sei que as minhas queridas amigas estão a abanar as cabecinhas e a pensar: "Ai os homens! São todos iguais!..."
Pois são. Mas o que é certo é que, por mais que se lamentem e voltas que dêem, ainda não descobriram uma alternativa credível...
Cuidado Armando! Vê lá que terreno pantanoso estás a pisar! Cuidado!!!
Adiante que é melhor!

Sempre gostei de ser imaginativo, ou do contra, depende do ponto de vista... Por isso acabo sempre a fazer as coisas ao contrário do “toda-a-gente-faz-assim”...

Vivíamos em Luanda mas fomos casar àquela igrejinha simpática de Viana. O copo de água foi também em Viana, na sede de uma colectividade local, onde acharam um piadão à minha ideia e ficaram a ganhar uns trocos com o negócio...

Uns dias antes, pergunta a futura sogra, cheia de curiosidade, ou talvez por sugestão da Gabriela a quem eu não tinha dito nada, pois queria que fosse surpresa: “Então e onde estão a pensar ir?”

- Bem – respondo – era para ser surpresa mas é melhor contar já. Assim sabem por onde andamos e não estranham a falta de notícias.

Vai ser assim: Saímos de Viana e vamos passar a noite no Dondo. Tem lá uma pousada muito boa junto ao rio Quanza. A paisagem é de sonho e também vamos visitar a barragem de Cambambe.

Tentativa de objecção da futura sogra (estava a começar cedo...) – Mas, Armando, tanto quanto sei o normal é o casal passar a noite em Luanda e seguir depois viagem no dia seguinte... E outra coisa. De Viana ao Dondo não é muito longe?

E eu, cheio de paciência, lá vou explicando: Olhe, sempre gostei de fazer as coisas ao meu jeito e não me apetece nada ficar aqui num hotel. De Luanda estamos fartos... Vamos ter um dia cansativo e ambos gostamos de passear. A viagem até vai ser boa para conversar, rir e descontrair. A distância não importa nada. Não se preocupe que vai correr tudo bem.

Nova pergunta, parecendo resignada: E depois? Para onde vão?
Bem, depois seguimos calmamente até Nova Lisboa (Huambo) onde passamos uns dias. Há por ali muito que ver. Mas o nosso destino é Sá da Bandeira (Lubango) e aí ficaremos uma semana ou mais porque os arredores são muitos e a Pousada da Senhora do Monte é confortável. Ah! Também passamos um dia em Moçâmedes (Namibe) para ver o deserto e ir à praia.

- Ai Jesus, tantos Quilómetros... – suspira a ainda não sogra, sem se atrever a mais contestações...

Depois, voltamos a Sá da Bandeira, vamos pelo Cubal até Benguela, Lobito e Novo Redondo (Sumbe). Fazemos aí dois dias de praia e seguimos para a Gabela, Quibala e Dondo. Está o círculo fechado e só falta voltar a Luanda. Gabriela: O que achas?

A Gabriela, olhando para a mãe pelo canto do olho, penso que ainda com algum receio dos comentários, sorria e lá foi dizendo um sauve “acho muito bem...”

E foi! Quinze dias de passeios. Conhecer gente simpática. Ainda hoje não sei como é que essas coisas se vêem... Mas penso que toda a gente percebia que éramos recém-casados. O que é certo é que éramos tratados com uma atenção e uma ternura que fica gravada para sempre. Várias vezes a Gabriela sugeriu voltar a dar a mesma volta... Foi pena, porque isso nunca mais se proporcionou...

Já contei aí para trás alguns porquês de me ter apaixonado pela Tundavala. E notem que o nome “Tundavala” representa, para mim, toda aquela região!

Com aquela viagem, a Gabriela também ficou apaixonada por tudo aquilo que viu e pelas pessoas que conheceu.

Imaginem então os serões que passámos depois com a família dela, principalmente os 4 irmãos mais pequenos que, de roda dela, pediam: Oh Belita, conta lá outra vez a descida da serra para o deserto! Conta lá!!!

E ela, suspirando e olhando para mim, começava:

Sabem? Estava a chover muito! Tanto que as ruas mal se viam. E o Armando perguntou: Já que não dá para passear em Sá da Bandeira, vamos até Moçamedes? Com esta chuva! És doido! – Sou, só um bocadinho...Mas é que, saindo daqui e começando a descer a serra, pára logo de chover! – e os pequenos: Oh Armando como é que sabias isso? – e eu, fazendo um ar de “feiticeiro-que-tudo-sabe...”: Então vocês não ouviram já dizer que naquele deserto só chove de longe em longe?
Eles, inocentes, acreditavam... E a Gabriela continuava.
Pois é, passados uns quilómetros, já chovia muito menos. Aí, andando a pé pela estrada, ia um casal. O Armando parou o carro e foi falar com eles. Confesso que fiquei um pouco receosa... Deixei-me ficar à janela do carro.
Ele trazia um arco e uma sacola com flechas. Ela tinha o cabelo todo entrançado e as tranças cheias de missangas nas pontas. Também tinha muitos colares à volta do pescoço e à volta do tronco. Mas não tinha nada a tapar o peito!
Aí, haviam sempre um dos miúdos que interrompia: Oh Bélita, ela tinha mesmo as maminhas de fora? Gargalhada geral!
E ela lá explicava: De fora, não. Isso só se diz se estiverem fora da roupa... Mas como ela não tinha roupa... Mais burburinho: Não tinha roupa? Estava nua??? Nova gargalhada geral!
Não, não estava nua, mas vestia só uma tanga que me pareceu de pele, pelo menos a cor dava essa ideia. E junto aos pés também tinha mais colares de missangas. E era muito bonita, aliás eram os dois muito bonitos e muito elegantes. Nunca deixaram de sorrir enquanto o Armando falou com eles. Com alguma dificuldade lá percebemos que viviam ali perto. O Armando ainda se ofereceu para os levar. Eles agradeceram e disseram “Onde nós mora, carro não passa! Carro não passa mesmo!”
E aqui para nós que ninguém nos ouve, ainda bem que não aceitaram! – Porquê mana, porquê? – Perguntava um, mais ansioso. É que, primeiro, estavam descalços e cheios de lama, pois deviam vir de longe e, debaixo de chuva, imaginem. Depois, sentia-se um cheiro estranho, enjoativo, que não sabia de onde vinha. Quando o Armando arrancou com o carro e falei disso é que ele explicou: Primeiro, é o cheiro natural das pessoas, depois as peles, para mais molhadas da chuva e, principalmente os produtos que elas usam para fazer aqueles penteados tão bonitos. Há quem diga que usam banha de cobra e, na falta desta, usam banha de cabra... Daí estes cheiros que, para nós, são um bocado fortes, digamos assim...

A Cristina, a mais pequena, muito loura e que sempre foi vaidosa: Oh Bélita, fazes um penteado desses a mim? Fazes? Com muitas missangas e com a banha da coba e tudo, tá bém?

Mais gargalhadas! Vá lá, já chega! Toca a deitar – era a irmã mais velha a impor a sua autoridade...

E o coro: Mas ainda não chegámos ao deserto!!!
Amanhã! Amanhã chegam ao deserto. Agora, vá! Xixi, cama!!!

É... eu também vou obedecer... Xixi, cama, Armando!

(continua)
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Re: Como me fui apaixonar pela TUNDAVALA?

Mensagempor maria João Carinhas em Quarta Fev 16, 2011 10:12 pm

Amigo.

É tão bom poder recordar o que é sem dúvida a nossa história.
Lia atentamente tua narrativa e te parabeniso porque és muito clero na maneira come escreves.
Nasci em Sá da Bandeira, sou da família Pontes de Sousa, sobrinha do grande caçador Mário Marcelino
de Sousa. Me criei no Kuito e morei no Huambo e Lobito.
Continua que eu vou aparecendo para ler.
Um abraço angolano
Maria João
maria João Carinhas
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