ETNIAS DE ANGOLA

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GUERRAS: COLONIAL E CIVIL - INDEPENDÊNCIA - ETNIAS HISTÓRIA - O 25 DE ABRIL E A DESCOLONIZAÇÃO

ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Domingo Jul 19, 2009 9:00 pm


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A Origem dos Ovimbundu: Outras Contribuições

obra de Hambly, Wilfrid Dyson," The Ovimbundu of Angola", escrita em 1934.


Os Ovimbundu de Angola

O objectivo deste capítulo é o de sistematizar a literatura sobre Angola datada do ano 1500 depois de Cristo até aos nossos dias. Tais obras falam de movimentos tribais que poderão dar alguma luz, quer sobre a origem dos Ovimbundu, quer sobre a data das suas migrações desde os planaltos de Benguela. De acordo com a tradição, existe uma unanimidade no que diz respeito ao facto de este grupo étnico ter vindo do Nordeste, tendo como referência o local onde se encontram. No entanto, é uma ideia que ainda carece de mais justificações históricas. A palavra Ovimbundu (pessoas das névoas ou do nevoeiro)[1] talvez se justifique pelo facto de o planalto de Benguela se cobrir, durante as madrugadas, por névoas muito densas o que, provavelmente, concordaria com o termo Ovimbundu.

Se há uma evidência histórica a favor da ideia de os Ovimbundu serem originários da região norte e nordeste de Angola, o que corresponde às condições etnológicas destas áreas, importa então saber quando foi que os Ovimbundu se separaram da matriz dos grupos étnicos angolanos que habitam mais a Norte de Angola. Por outras palavras, que elementos culturais terão vindo com os Ovimbundu aquando da sua chegada aos planaltos de Benguela (...)?

Os contactos entre os Ovimbundu e os portugueses constituem um aspecto de suma importância como parte desta investigação histórica. Quando e onde se processou o contacto entre os portugueses e os Ovimbundu e que resultados teve esse contacto para a cultura indígena?

(...) É pertinente perguntar até que ponto as observações etnológicas de viajantes e os exploradores confirmam ou contradizem as informações anotadas por mim, ou seja, as minhas observações pessoais. Provavelmente, as notas etnológicas obtidas de fontes históricas servirão não só para confirmar meu trabalho de campo, mas também para entender o local onde ocorreram os aspectos culturais importantes que eu notei em 1929.

A literatura que descreve a história e os costumes angolanos é aqui apresentada sob a forma de uma bibliografia cronológica para enfatizar os aspectos que afectam o propósito desta análise histórica. A apresentação fragmentada dos dados poderá ser uma consequência inevitável da natureza da bibliografia utilizada. Foram feitas observações, não durante um espaço de tempo regular, mas sim com intervalos de tempo muito irregulares. Em consequência, as obras da maioria de observadores não foi feita com um fim especificamente etnológico. Os exploradores mais recentes tiveram inicialmente a propensão de misturar os aspectos históricos e etnológicos, sendo, as suas notas constituídas, como tal, por um grande material descritivo relativo a incidentes de viagem, à vida animal, e a observações meteorológicas.

(...) Os portugueses entraram no Congo em 1482 sob a liderança de Diogo Cão (E. G. Ravenstein, As Viagens de Diogo Cão, Geog. Journ., 1900, pp. 625-649) tendo, a partir daí, crescido a sua influência política e religiosa ao longo da costa do Congo. Gradualmente, os portugueses estabeleceram-se na costa de Angola. Paulo Dias fundou Loanda em 1576, e, aproximadamente, onze anos depois construiu o forte de Benguela.

No ano de 1590, os portugueses, para penetrarem no interior de Angola, guerrearam com os Jagas, uma tribo do norte que colocara Andrew Battell em cativeiro, tendo-o convertido, inclusivamente, num honrado prisioneiro usado para liderar o combate contra os portugueses. Todos os nativos do Norte de Angola foram importunados, e mesmo explorados, pelos Jagas.

Em 1645, foi enviada uma expedição portuguesa, com fins punitivos, para o interior do Bailundo que, na altura, era o maior centro de onde partiam caravanas de comerciantes Umbundu[2] e traficantes de escravos para a África Central.

Caconda, no Sudoeste de Angola, foi fundado em 1682 e, um século depois, a cidade litoral de Moçâmedes tornou-se num ponto de partida para a exploração do Rio Cunene. (Para os detalhes da penetração portuguesa em Angola veja Bibliografia: T. E. Bowditch; R. F. Burton; E. G. Ravenstein; T. Lewis.)

Quando os portugueses chegaram ao Congo, no fim do século V, entraram em contacto com o rei de Congo, que governava com grande pompa e circunstância em Ambassa, a 150 milhas no interior, localidade que passou, a partir daí, a ter a mesma importância para os portugueses como São Salvador.

O antigo reino do Congo era composto por seis clãs fortes, que rivalizavam entre si, procurando tirar partido da presença dos portugueses para fortalecer a posição política e comercial de cada um. O tráfico de escravos foi considerado tão nobre quanto lucrativo, e não há nenhuma dúvida de que a Igreja tenha participado activamente nesse tráfico (o T. Lewis, O Velho Reino de Kongo, Geog. Journ., 1908, pp. 598-600).

A Influência política dos portugueses através dos padres Jesuítas, permitiu criar facções no Império de Congo, e as perturbações resultantes causaram movimentações de populações que afectaram todo o Norte de Angola e os povos do planalto de Benguela.

A penetração portuguesa no interior de Angola, especialmente de Loanda para o Bié, visava dominar as tribos nativas, o estabelecimento de postos comerciais, assim como estimular o tráfico de escravos (S. Marquardsen, Angola, 1928, pp. 6-10).

A importância dos portugueses como aliados das caravanas dos Umbundu do Bié" era para providenciar armas e pólvora aos nativos os quais retribuíam através de uma ajuda que ia para mais além da militar. Para responderem a demanda portuguesa, no que toca aos escravos e ao marfim, as caravanas dos "Umbundu" viajaram durante um longo período de tempo pela bacia do Congo, Rodésia, Sul e Sudoeste de Angola e, possivelmente, noutros pontos da África como o Lago Tanganica e Niassa. As armas obtidas através da troca de marfim e escravos ajudaram os Ovimbundu nas suas incursões predatórias. Assim, os Ovimbundu, depois de um contacto com os portugueses que durou séculos, foram encorajados a construir a sua sociedade na base dos recursos de que dispunham.

Os portugueses nunca foram suficientemente fortes para dominar completamente o Norte de Angola. De modo que tenham privilegiado, nas relações com os nativos, especialmente na região dos Ovimbundu do Bié, alianças assentes numa base comercial. O resultado político disto era a aliança dos portugueses com as tribos mais fortes para a exploração das mais fracas.

A etnologia histórica do Congo do Sudoeste é tão complexa que os elementos são difíceis de serem analisados. O número de tribos afectadas é grande, e os seus movimentos não são fáceis seguir; mas uma deslocação gradual das pessoas do Congo para o Sudoeste, em direcção à Lunda e aos planaltos de Benguela (1600-1800), parece ser a consequência de todo esses conflitos.

Eu considero os Ovimbundu como uma dessas vagas de pessoas, que através de uma forte disciplina, conseguiu fazer do Centro de Angola o seu ninho, apesar da mais recente oposição dos portugueses.

Fonte:

HAMBLY, W.D. (1934). The Ovimbundu of Angola. USA. Chicago Museum Press.

[1] O autor deveria estar a referir-se ao sufixo Mbundu que significa neblina ou nevoeiro, uma vez que o prefixo Ovi se refere ao povo ou pessoa. Literalmente, Ovimbundu traduz-se por: " povo das névoas ou da neblina".

[2] Deve entender-se por Ovimbundu, uma vez que, o que o autor confunde, Umbundu é a língua deste povo.
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quinta Jul 23, 2009 6:06 am

KUVALE (MUKUBAL) E HIMBA (MUIMBA)

Os Kuvale (Mukubais) e os Himba (Muimba) pertencem ao grupo étnico dos Herero, assim como os Ndombe, os Hakahona e os Dimba. Os Herero teriam chegado ao atual território de Angola por volta do século XV, fazendo parte de uma expansão Bantu de cultura pastoril, iniciada muitos séculos antes a partir do Leste do continente. Eles ocupam cerca de metade da província do Namibe e continuam a manter traços culturais bastante característicos, como a criação de gado, a limagem dos dentes, a recusa de comer peixe, o sistema das classes de idade (”kula’s ”) etc.

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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quinta Jul 23, 2009 6:07 am

NYANEKA-NKUMBI (MUÍLA)

Os Nyaneka-Nkumbi vivem no planalto do Sudoeste de Angola, com uma unidade étnica e uma coesão lingüística bem definidas. Dez ‘tribos” compõem este grupo étnico, sendo os Nyaneka (que se subdividem em Muíla e Ngambwe), os Nkumbi e os Ndongona as principais. A região que ocupam é de uma densidade demográfica bastante fraca. Os povos Nyaneka-Nkumbi são muito apegados às suas tradições e lugar de origem, o que explica o fato de terem sido os últimos na região a entrar em contato e a adaptar-se à vida urbana.
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Sexta Jul 31, 2009 4:10 pm

Os povos que hoje habitam o território nacional formaram-se a partir de migrações em diferentes épocas, mas não foi só as migrações que levaram à adopção de línguas e instituições de uns por outros.
A influência do comércio atlântico (tráfico de escravos), da colonização e do Cristianismo, mais cedo ou mais tarde, conforme os casos, provocaram adaptações e mudanças, mas muitos aspectos culturais continuam até hoje presentes na prática social.
A maior parte da população é descendente dos povos Bantu que não constituem uma raça específica, mas um conjunto de grupos que representam uma comunidade cultural, com uma civilização comum e uma linguagem similar assente nas mesmas raízes.
Do ponto de vista etnolinguístico o povo angolano é maioritariamente Ambundu (Língua Kimbundu), Ovimbundu (Língua Umbundu) e Bakongo (Língua Kikongo). Todos estes são grupos Bantu, apesar de haver os ‘não Bantu’ como os Kung e os Angolanos de origem europeia. É um subgrupo do negro africano. Identificam-se basicamente pela afinidade linguística. Um exemplo disso é o radical “ntu”, que designa “pessoas”, usado por todos. À parte deste grupo principal, encontram-se ainda os bosquimanes, mestiços e brancos.
O idioma utilizado é o português e mais de 42 Línguas, sendo os principais o Umbundo, o Kimbundo e o Kicongo. Consideráveis faixas urbanas da população, localizadas essencialmente no litoral e com menos de 40 anos, consideram o português como a sua língua materna.
Os grupos étnicos mais importantes são os Ovimbundos, Kimbundos e Bacongos que representam 75% da população.
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Sexta Jul 31, 2009 4:11 pm

Etnias de Angola:
Bakongo (Quiconcos)
Ambundu (Quimbundos)
Ovimbundu (Umbundos)
Nyanyeka (Lunhanecas)
Herero (Xihereros)
Ambo (Xicuanhamas)
Tchindonga ((Xindongas)
Koisan
Ngangela (Ganguelas)
Tchokwe-Lunda (Quiocos)
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Sexta Jul 31, 2009 4:52 pm

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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Ago 05, 2009 11:46 am

Grupos étnicos e línguas nacionais

A esmagadora maioria dos angolanos – perto de 90% – é de origem bantu.

O principal grupo étnico bantu é o dos ovimbundo que se concentra no centro-sul de Angola e se expressa tradicionalmente em umbundo, a língua nacional com maior número de falantes em Angola.

Por seu lado, os ambundo, falando quimbundo (ou kimbundu), a segunda língua nacional com mais falantes, estabelecem-se maioritariamente na zona centro-norte, no eixo Luanda-Malanje e no Quanza-Sul. O quimbundo é uma língua com grande relevância, por ser a língua tradicional da capital e do antigo reino dos N'gola. Legou muitas palavras à língua portuguesa e importou desta, também, muitos vocábulos.

No norte (Uíge e Zaire) concentram-se os bacongos de língua quicongo (ou kikongo) que tem diversos dialectos. Era a língua do antigo Reino do Congo.

Os quiocos (tchokwe) ocupam o leste, desde a Lunda Norte ao Moxico, e expressam-se tradicionalmente em chocué (ou tchokwe), língua que se tem vindo a sobrepor a outras da zona leste do país.

Cuanhama (kwanyama ou oxikwanyama), nhaneca (ou nyaneka) e mbunda são outras línguas de origem bantu faladas em Angola.

O sul de Angola é também habitado por bosquímanos, povos não bantus que falam línguas do grupo khoisan.

Por último, cerca de 3% da população actual é branca (maioritariamente de origem portuguesa) ou mestiça, população que concentra-se primariamente nas cidades e tem o português por língua materna. De referir, ainda, a existência ainda de um número considerável de falantes das línguas francesa e lingala, explicada pelas migrações relacionadas com o período da luta de libertação e pelas afinidades com as vizinhas República do Congo e República Democrática do Congo.

[editar] Promoção das línguas nacionais

Durante o período colonial, o uso das línguas nacionais estava praticamente circunscrito ao ensino do catolicismo. Contudo, a língua portuguesa não conseguiu fixar-se em todo o território devido à limitada utilização que as populações africanas dela faziam, principalmente nas zonas rurais, permanecendo as línguas nacionais relativamente intactas.

Com a independência do país, essas línguas adquirem o estatuto de línguas nacionais, coexistindo com a língua portuguesa como veículos de comunicação e expressão, teoricamente em pé de igualdade.

Com vista à valorização, utilização e promoção das línguas locais, o Instituto de Línguas Nacionais de Angola fixou normas ortográficas dos idiomas chocué, quicongo, quimbundo, gangela, cuanhama e umbundo, estudando os aspectos fonéticos, fonológicos, morfossintácticos, lexicais e semânticos. Os resultados deste trabalho de investigação serviram de base à elaboração de material didáctico para a futura introdução destas línguas no ensino primário, em paralelo com o português.

Nos media as línguas africanas são também utilizadas, por exemplo, pela emissora de rádio Ngola Yetu (Nossa Angola, na língua quimbundo), que emite diariamente programas e notícias em sete línguas nacionais.

[editar] Situação do português

A adopção da língua do antigo colonizador como língua oficial foi um processo comum à grande maioria dos países africanos. No entanto, em Angola deu-se o facto pouco comum de uma intensa disseminação do português entre a população angolana, a ponto de haver uma expressiva parcela da população que tem como sua única língua aquela herdada do colonizador.

São vários os motivos que explicam esse fenómeno. O principal foi a implantação, pelo regime colonial português, de uma política assimiladora que visava a adopção, pelos angolanos, de hábitos e valores portugueses, considerados "civilizados", entre os quais se encontrava o domínio da língua portuguesa. Por outro lado, há que ter em conta também a presença de um elevado número de colonos portugueses, espalhados por todo o território, bem como dos sucessivos contingentes militares portugueses que, durante o longo período da Guerra Colonial, se fixaram no interior do país.

Apesar de ser um processo impositivo, a adopção do português como língua de comunicação corrente em Angola propiciou também a veiculação de ideias de emancipação em certos sectores da sociedade angolana. Principalmente a partir de meados do século XX, a língua portuguesa facilitou a comunicação entre pessoas de diferentes origens étnicas. O período da guerra colonial foi o momento fundamental da expansão da consciência nacional angolana. De instrumento de dominação e clivagem entre colonizador e colonizado, o português adquiriu um carácter unificador entre os diferentes povos de Angola.

Com a independência em 1975, o alastramento da guerra civil, nas décadas subsequentes, teve também um efeito de expansão da língua portuguesa, nomeadamente pela fuga de populações rurais para as cidades -- particularmente Luanda -- levando ao seu desenraizamento cultural e forçando a rápida adopção do português.

A própria implantação do novo Estado nacional reforçou a presença do português, usado no exército, no sistema administrativo, no sistema escolar, nos meios de comunicação, etc.

Embora, oficialmente, o governo angolano declarasse defender as línguas nacionais, na prática, tendeu sempre a valorizar exclusivamente aspectos que contribuíssem para a unificação do país -- o português como a única língua unificadora -- em detrimento de tudo o que pudesse contribuir para a diferenciação dos grupos e a tribalização -- a miríade de línguas e dialectos regionais e étnicos.

Embora as línguas nacionais ainda sejam as línguas maternas da maioria da população, o português é já a primeira língua de 30% da população angolana -- proporção que se apresenta muito superior na capital do país -- e 60% dos angolanos afirmam usá-la como primeira ou segunda língua.

Língua oficial e do ensino e um dos factores de unificação e integração social, o português encontra-se aqui em permanente transformação. As interferências linguísticas resultantes do seu contacto com as línguas nacionais, a criação de novas palavras e expressões forjadas pelo génio inventivo popular, bem como certos desvios à norma padrão de Portugal, imprimem-lhe uma nova força, vinculando-a e adaptando-a cada vez mais à realidade angolana. Alguns dos muitos exemplos são as palavras: "camba", "cota", "caçula" ou "bazar", que provêm de vocábulos quimbundo, di-kamba (amigo), dikota (mais velho), kasule (o filho mais novo) e kubaza (fugir), respectivamente. Para além dos já plenamente dicionarizados na língua portuguesa batuque, bobó, bunda, cambolar, capanga, catinga, curinga, dendê, gingar, jimbolo, jingo, jinguba, machimbombo, maxim, minhoca, missanga, mocambo, mocotó, moleque, munda, mupanda, mutula, muzungo, pupu, quibuca, quilombo, quitanda, samba, sibongo, tacula, tamargueira, tanga, tarrafe, tesse, ulojanja, umbala, xingar e muitos outros.

A língua literária em Angola distinguiu-se sempre pela presença das línguas locais, expressamente em diálogos ou interferindo fortemente nas estruturas do português. Embora quase exclusivamente em língua portuguesa, a literatura angolana conta também com algumas obras em quimbundo e umbundo.

[editar] Bibliografia

* FERNANDES, João, e NTONDO, Zavoni (2002). Angola: Povos e Línguas, Luanda, Editorial Nzila.
* HENDERSON, Lawrence W. (1990). A igreja em Angola. Lisboa, Editorial Além-Mar.
* LUKOMBO, João Baptista (1997). "Comunidades e instituições comunitárias em Angola na perspectiva do pós-guerra: o caso das populações de origem Bakongo regressados da ex-República do Zaire e fixadas no tecido periurbano luandense". Ngola: Revista de Estudos Sociais. Vol.I, n.º1. Luanda, Associação dos Antropólogos e Sociólogos de Angola, pp. 251-278.
* MARQUES, Irene Guerra (1985). Algumas Considerações sobre a Problemática Linguística em Angola, Luanda, INALD.
* PEREIRA, Luena Nascimento Nunes (1999). Os regressados na cidade de Luanda: um estudo sobre identidade étnica e nacional em Angola. Dissertação de mestrado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
* PEREIRA, Luena Nascimento Nunes (2004). Os Bakongo de Angola: religião, política e parentesco num bairro de Luanda. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
* REDINHA, José (1984). Distribuição Étnica de Angola, 8.ª ed., Luanda, Centro de Informação e Turismo de Angola.
* UNICEF (2001). Um futuro de esperança para as crianças de Angola: Uma análise da situação da criança. Luanda, Unicef / República de Angola.
* VIEGAS, Fátima (1999). Angola e as religiões. Luanda.
 
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Ago 05, 2009 11:47 am

Promoção das línguas nacionais

Durante o período colonial, o uso das línguas nacionais estava praticamente circunscrito ao ensino do catolicismo. Contudo, a língua portuguesa não conseguiu fixar-se em todo o território devido à limitada utilização que as populações africanas dela faziam, principalmente nas zonas rurais, permanecendo as línguas nacionais relativamente intactas.

Com a independência do país, essas línguas adquirem o estatuto de línguas nacionais, coexistindo com a língua portuguesa como veículos de comunicação e expressão, teoricamente em pé de igualdade.

Com vista à valorização, utilização e promoção das línguas locais, o Instituto de Línguas Nacionais de Angola fixou normas ortográficas dos idiomas chocué, quicongo, quimbundo, gangela, cuanhama e umbundo, estudando os aspectos fonéticos, fonológicos, morfossintácticos, lexicais e semânticos. Os resultados deste trabalho de investigação serviram de base à elaboração de material didáctico para a futura introdução destas línguas no ensino primário, em paralelo com o português.

Nos media as línguas africanas são também utilizadas, por exemplo, pela emissora de rádio Ngola Yetu (Nossa Angola, na língua quimbundo), que emite diariamente programas e notícias em sete línguas nacionais.

[editar] Situação do português

A adopção da língua do antigo colonizador como língua oficial foi um processo comum à grande maioria dos países africanos. No entanto, em Angola deu-se o facto pouco comum de uma intensa disseminação do português entre a população angolana, a ponto de haver uma expressiva parcela da população que tem como sua única língua aquela herdada do colonizador.

São vários os motivos que explicam esse fenómeno. O principal foi a implantação, pelo regime colonial português, de uma política assimiladora que visava a adopção, pelos angolanos, de hábitos e valores portugueses, considerados "civilizados", entre os quais se encontrava o domínio da língua portuguesa. Por outro lado, há que ter em conta também a presença de um elevado número de colonos portugueses, espalhados por todo o território, bem como dos sucessivos contingentes militares portugueses que, durante o longo período da Guerra Colonial, se fixaram no interior do país.

Apesar de ser um processo impositivo, a adopção do português como língua de comunicação corrente em Angola propiciou também a veiculação de ideias de emancipação em certos sectores da sociedade angolana. Principalmente a partir de meados do século XX, a língua portuguesa facilitou a comunicação entre pessoas de diferentes origens étnicas. O período da guerra colonial foi o momento fundamental da expansão da consciência nacional angolana. De instrumento de dominação e clivagem entre colonizador e colonizado, o português adquiriu um carácter unificador entre os diferentes povos de Angola.

Com a independência em 1975, o alastramento da guerra civil, nas décadas subsequentes, teve também um efeito de expansão da língua portuguesa, nomeadamente pela fuga de populações rurais para as cidades -- particularmente Luanda -- levando ao seu desenraizamento cultural e forçando a rápida adopção do português.

A própria implantação do novo Estado nacional reforçou a presença do português, usado no exército, no sistema administrativo, no sistema escolar, nos meios de comunicação, etc.

Embora, oficialmente, o governo angolano declarasse defender as línguas nacionais, na prática, tendeu sempre a valorizar exclusivamente aspectos que contribuíssem para a unificação do país -- o português como a única língua unificadora -- em detrimento de tudo o que pudesse contribuir para a diferenciação dos grupos e a tribalização -- a miríade de línguas e dialectos regionais e étnicos.

Embora as línguas nacionais ainda sejam as línguas maternas da maioria da população, o português é já a primeira língua de 30% da população angolana -- proporção que se apresenta muito superior na capital do país -- e 60% dos angolanos afirmam usá-la como primeira ou segunda língua.

Língua oficial e do ensino e um dos factores de unificação e integração social, o português encontra-se aqui em permanente transformação. As interferências linguísticas resultantes do seu contacto com as línguas nacionais, a criação de novas palavras e expressões forjadas pelo génio inventivo popular, bem como certos desvios à norma padrão de Portugal, imprimem-lhe uma nova força, vinculando-a e adaptando-a cada vez mais à realidade angolana. Alguns dos muitos exemplos são as palavras: "camba", "cota", "caçula" ou "bazar", que provêm de vocábulos quimbundo, di-kamba (amigo), dikota (mais velho), kasule (o filho mais novo) e kubaza (fugir), respectivamente. Para além dos já plenamente dicionarizados na língua portuguesa batuque, bobó, bunda, cambolar, capanga, catinga, curinga, dendê, gingar, jimbolo, jingo, jinguba, machimbombo, maxim, minhoca, missanga, mocambo, mocotó, moleque, munda, mupanda, mutula, muzungo, pupu, quibuca, quilombo, quitanda, samba, sibongo, tacula, tamargueira, tanga, tarrafe, tesse, ulojanja, umbala, xingar e muitos outros.

A língua literária em Angola distinguiu-se sempre pela presença das línguas locais, expressamente em diálogos ou interferindo fortemente nas estruturas do português. Embora quase exclusivamente em língua portuguesa, a literatura angolana conta também com algumas obras em quimbundo e umbundo.

[editar] Bibliografia

* FERNANDES, João, e NTONDO, Zavoni (2002). Angola: Povos e Línguas, Luanda, Editorial Nzila.
* HENDERSON, Lawrence W. (1990). A igreja em Angola. Lisboa, Editorial Além-Mar.
* LUKOMBO, João Baptista (1997). "Comunidades e instituições comunitárias em Angola na perspectiva do pós-guerra: o caso das populações de origem Bakongo regressados da ex-República do Zaire e fixadas no tecido periurbano luandense". Ngola: Revista de Estudos Sociais. Vol.I, n.º1. Luanda, Associação dos Antropólogos e Sociólogos de Angola, pp. 251-278.
* MARQUES, Irene Guerra (1985). Algumas Considerações sobre a Problemática Linguística em Angola, Luanda, INALD.
* PEREIRA, Luena Nascimento Nunes (1999). Os regressados na cidade de Luanda: um estudo sobre identidade étnica e nacional em Angola. Dissertação de mestrado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
* PEREIRA, Luena Nascimento Nunes (2004). Os Bakongo de Angola: religião, política e parentesco num bairro de Luanda. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
* REDINHA, José (1984). Distribuição Étnica de Angola, 8.ª ed., Luanda, Centro de Informação e Turismo de Angola.
* UNICEF (2001). Um futuro de esperança para as crianças de Angola: Uma análise da situação da criança. Luanda, Unicef / República de Angola.
* VIEGAS, Fátima (1999). Angola e as religiões. Luanda.
 
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Ago 05, 2009 11:51 am

© Alberto Oliveira Pinto
Introdução ao Kimbundu
1 – O Kimbundu e os grupos linguísticos africanos; o grupo Bantu, inserido na família Congo-Cordofaniana

A grande maioria dos linguistas está de acordo em como, no Continente Africano, as línguas se dividem por quatro grandes famílias: a Afroasiática (inclui as línguas Berberes do Norte de África, as Cu****as da Etiópia e da Somália e ainda as semitas, abrangendo o hebreu, o árabe e o aramaico), a Nilo-Sahariana (constituída pelo Sudanês, o Sahariano e o Songhai), a Niger-Congo ou Congo-Cordofaniana (inclui numerosos grupos predominantes para sul do Sahara, de que destacamos os Bantu, para sul do Equador) e Khoisan (línguas dos Pigmeus da floresta tropical do Congo Democrático e línguas faladas “com estalinhos” pelos povos !Kung, vulgarmente conhecidos como Hotentotes, Bosquímanos ou, em Angola, Mucancalas)[1]. O Kimbundu é uma língua do grupo Bantu, pertencendo à família linguística Niger-Congo ou Congo-Cordofaniana. é plural de muntu, radical comum a quase todas as línguas do grupo. Muntu quer dizer indivíduo, pessoa, ser humano, significando, portanto, bantu, indivíduos, pessoas ou seres humanos. Em Kimbundu, a palavra mutu significa pessoa, sendo o seu plural, atu, pessoas, gente. Pelos exemplos acima indicados, podemos desde já concluir que a principal característica das línguas Bantu é o facto da flexão – isto é, a formação do género, feminino ou masculino, e do número, singular ou plural – se fazer por meio de prefixos.
2 – Nações Bantu de Angola; diferenças dialectais nos subgrupos mbundu; o kimbundu de Ambaka

O território de Angola situa-se quase exclusivamente dentro da área de difusão das línguas bantu. São nove as nações bantu de Angola, correspondendo a cada uma delas uma língua diferente:


Nação Idioma
Bakongo Kikongo
Mbundu (ou Ambundu) Kimbundu
Lunda-Tchokwe Tutchokwe
Ovimbundu Umbundu
Ganguela Tchiganguela
Nhaneka-Humbe Lunhaneka
Herero Tchiherero
Ovambo Ambo
Donga Xindonga

De todas estas nações, só os territórios dos Mbundu, dos Ovimbundu e dos Nhaneka-Humbe se circunscrevem ao espaço angolano. Os das outras são todos atravessados pelas fronteiras políticas delineadas após a Conferência de Berlim de 1885. Os Bakongo, por exemplo, repartem-se pelos estados de Angola, Congo Democrático e Congo Popular, os Lunda-Tchokwe, cujo território é atravessado pelo rio Kassai, dividem-se entre Angola e o Congo Democrático, na província do Katanga (ex-Shaba), os Ganguela entre Angola e a Zâmbia e, finalmente, os Herero, os Ambo e os Donga, entre Angola e a Namíbia.

Cada uma destas nações é dividida por diversos subgrupos, a cada um dos quais corresponde uma variante dialectal. A nação Mbundu reparte-se por 11 subgrupos (ou etnias), disseminados pelas províncias de Luanda, Bengo, Malanje, Kuanza Norte e ainda pequenas bolsas no Uíge e no Kuanza Sul. São, portanto, 11 as variantes do Kimbundu, consoante a difusão geográfica dos 11 povos que constituem esta nação: Ngolas, Dembos, Jingas, Bondos, Bângalas, Songos, Ibacos, Luandas, Quibalas, Libolos e Quissamas.

O Kimbundu, à semelhança das outras línguas bantu, não tem tradição escrita. Os primeiros a escrevê-la e a estudar-lhe as regras gramaticais foram os missionários capuchinhos e jesuítas de Ambaka. Fizeram-no com o fim de ensinar a língua portuguesa e o catecismo aos africanos. Foram eles que introduziram os princípios ortográficos ainda hoje vigentes.Nos séculos XIX e XX surgem estudiosos do Kimbundu, de onde destacamos Héli Chatelain, Cordeiro da Matta, António de Assis Júnior e Óscar Ribas[2].
3 – Ortografia e fonologia

O Kimbundu deve sempre grafar-se com escrita sónica. As cinco vogais, a, e, i, o, u, são todas abertas. Antes de outra vogal, ie u funcionam como semi-vogais.

mbcomo em mbambi, “gazela”, “frio”

nvcomo em nvula, “chuva”nd como em ndandu, “parente”

ngcomo em ngiji, “rio”

nj como em njila, “pássaro”, “caminho”

h como em hima, “macaco”, distinto de ima, “coisas”[3]

O m e o n servem para nasalar, daí que tenham surgido, por exemplo, vocábulos como Angola derivado de ngola (rei) ou embondeiro derivado de mbondo (árvore).

O h é sempre aspirado, como em henda (graça, misericórdia).

O r é sempre brando e pode ser trocado por d ou, menos frequentemente, por l. Por exemplo, kitari ou kitadi (dinheiro), ditadi ou ritari (pedra); kudia ou kuria (comer); kolombolo ou koromboro (galo).

O k substitui sempre o q da língua portuguesa, bem como o c antes de a, o e u.

O g nunca tem o valor de j, mesmo antes de e ou i. Ndenge (mais novo) e ngindu (trança) lêm-se ndengue e nguindu.

O som nh deve, em nosso entender, escrever-se como em português, embora haja quem escreva ni ou ny. Por exemplo, dikanha, dikania ou dikanya (tabaco).

Não vemos, de resto, necessidade do emprego do y em Kimbundu, embora certos autores o usem enquanto prefixo para fazer o plural de ki. Em tal caso sugerimos a grafia i (V. Infra).
4 - Classes nominais e concordâncias

Nas línguas bantu, os nomes substantivos ordenam-se em classes ou grupos consoante os pares de prefixos que definem os singulares e os plurais. O Kimbundu tem 10 classes nominais[4][4]:
CLASSES SINGULAR PLURAL EXEMPLO
1ª mu a mutu, atu – pessoa(s)
2ª mu mi mutue, mitue – cabeça(s)
3ª ki i kima, ima – coisa(s)
4ª ri ma ritari, matari – pedra(s)
5ª u mau uta, mauta – arma(s)
6ª lu malu lumbu, malumbu – muro(s)
7ª tu matu tubia, matubia – fogo(s)
8ª ku maku kuria, makuria – comida(s)
9ª -- ji mbiji jimbiji – peixe(s)
10ª ka tu mona tuana – criança(s)

Estes prefixos absolutos, que designam a classe a que o nome pertence e o número em que se encontra, distinguem-se dos prefixos concordantes, que enumeraremos consoante as classes e o número a que correspondem.
CLASSE SINGULAR PLURAL
1ª ua a
2ª ua ia
3ª kia ia
4ª ria ma
5ª ua ma
6ª lua ma
7ª tua ma
8ª kua ma
9ª ia --
10ª ka tua

A concordância faz-se, em kimbundu, através do prefixo do substantivo que inicia a frase e lhe serve de sujeito.

Exemplifiquemos:

Mubika uami uakala umoxi / Abik’ami akala atatu

O meu escravo era um / Os meus escravos eram três

Mukolo uami uakala umoxi / Mikolo iami iakala itatu

A minha corda era uma / As minhas cordas eram três
Kialu kiami kiakala kimoxi / Ialu iami ikala itatu

A minha cadeira era uma / As minhas cadeiras eram três

Rilonga riami riakala rimoxi / Malonga mami makala matatu

O meu prato era um / Os meus pratos eram três
Uta uami uakala umoxi / Mauta mami makala matatu

A minha arma era uma / As minhas armas eram três
Lumbu luami luakala lumoxi / Malumbu mami makala matatu

O meu muro era um / Os meus muros eram três
Tubia tuami tuakala tumoxi / Matubia mami makala matatu

O meu fogo era um / Os meus fogos eram três

Kuria kuami kuakala kumoxi / Makuria mami makala matatu

A minha comida era uma / As minhas comidas eram três
Mbiji iami iakala imoxi / Jimbiji jami jakala jitatu

O meu peixe era um / Os meus peixes eram três

Kamona kami kakala kamoxi / Tuana tuami tuakala tutatu

A minha criança era uma / As minhas crianças eram três[5]

[1]
Para mais desenvolvimentos consultar: J.H. Greenberg, The Languages of Africa, 1963, The Hague; David W. Phillipson, African Archaelogy, Cambridge University Press, 1998, pp. 5-8; Mário António F. Oliveira, Reler África, Coimbra, Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, 1990, pp. 69-122.
[2] V. bibliografia.
[3] Exemplo retirado de Mário António F. Oliveira, ob. cit., p. 113.
[4] P. Domingos Vieira Baião, O Kimbundu sem Mestre, Porto, Imprensa Moderna, 1946, p. 22.
[5] Idem, p. 26.
 
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Ago 05, 2009 11:56 am

Criação do Mundo Segundo a Tradição Bantu

Segundo a história tradicional contada pêlos mais idosos e categorizados Nganga (sacerdotes) de tribo bantu (Angola), que todos os povos negros descenderiam dos Bungu e estes diretamente do Nzambi (Deus Supremo da mitologia bantu).
Eis a história tal qual foi contada, da criação do Mundo e a ascendência divina destes povos.
Nzambi, a quem também chamam Ndala Karitanga (Deus criador de si próprio), Nzambi ia Kalunga (Deus Supremo e Infinito) e Nzambi Ampungu (Deus Poderoso), depois de ter criado o Mundo e tudo quanto nele existe , criou uma mulher para que fosse sua esposa e para que, por seu intermédio, pudesse ter descendência humana, a fim de que esta povoasse a Terra e dominasse todos os animais selvagens, por ele criado.
Disse a sua esposa que passaria a chamar-se Ná Kalunga, em virtude da filha que iria dar a luz, se chamar Kalunga.
Com efeito, tal como Nzambi tinha anunciado, passados nove meses, nasceu sua filha.
Esta foi crescendo como qualquer criança normal, junto de seus divinos pais, na Sanzala dia Nzambi (aldeia de Deus).
Logo que sua filha atingiu a puberdade, Nzambi, informou Ná Kalunga, sua esposa, que tencionava mostrar para Kalunga, sua filha, tudo que havia criado e que após três meses retornaria.
Esta resolução não agradou à divina esposa que tentou opor-se a que sua filha o acompanhasse. Porém Nzambi lembrou-lhe que ela tinha sido por ele criada para lhe obedecer, visto que, além de seu marido, era também seu Deus.
Contrariada, mas impotente para obrigar Nzambi a desistir do seu intento, limitou-se a deixar ir à filha com o pai, enquanto ela ficou a chorar amargamente.
Logo que anoiteceu, Nzambi, instantaneamente, construiu uma Kuabata (palhoça), na qual instalou uma só cama. Ao ver único leito, a filha recusou-se a dormir com o pai e saiu, a chorar da cabana.
Ao ver a recusa da filha e não podendo convencê-la de outra forma, disse-lhe que se não viesse imediatamente para junto dele, seria devorada pelas feras que infestavam a floresta.
Transitada de medo pelo que acabava de ouvir, Kalunga entrou novamente na cabana, deitou-se junto de seu pai e com ele dormiu não só naquela noite, mas durante todo o tempo que durou a viagem.
Finda esta, regressaram a casa e, Ná Kalunga, tal como tinha previsto, verificou que a filha estava grávida do próprio pai. Enraivecida pelo fato e pelo desgosto, no meio das maiores blasfêmias, enforcou-se numa árvore, perante os olhos atônitos da filha e de Nzambi, que nada fez para evitar tal suicídio.
Desgostoso pela atitude da mulher, que não compreendeu os seus desígnios para povoar o Mundo que ele tinha criado, mostrando ser indigna de continuar a ser esposa daquele que lhe tinha dado o ser, em vez de lhe dar vida, novamente, a amaldiçoou e transformou-a num espírito maligno, a quem deu o nome de Mulungi Mujimo (ventre ruim da primeira mãe que existiu na Terra).
A partir dessa altura, Nzambi passou então a viver maritalmente com sua filha Kalunga, a qual depois da morte da mãe, passou a chamar-se também Ndala Karitanga e a ser a segunda divindade.
Algum tempo depois da morte de sua mãe, durante um sonho, teve uma visão que a deixou apavorada.
Viu a mãe com a cabeça apoiada nas mãos, a olhá-la com rancor e a insultá-la, dizendo que ainda ia devorá-la, enquanto ela envergonhada, pedia perdão a mãe e dizia que de nada era culpada, posto que, seu pai a tal a tinha obrigado. No meio desta aflição, acordou e contou ao pai o pesadelo.
Este a sossegou, dizendo-lhe que nada receasse daquela que tinha sido sua mãe e que agora era espírito mal, pois nenhum mal lhe poderia fazer, mas apenas lhe pedir comida. Portanto, disse Nzambi, vamos dar-lhe.
Levantaram-se ambos e Nzambi preparou um pequeno montículo de terra, junto da porta casa simulando uma sepultura.
Disse ele então a filha, que fosse buscar carne e outra comida e a pusesse sobre aquela sepultura, proferindo, ao mesmo tempo, as seguintes palavras: Mam’é nzanga ua-ku-kurila.Halapuila kanda uiza kuri yami nawa: ny ngu-na-ku mono nawa, ngu n’eza ny ku ku cheha (minha mãe acabo de vir chorar-te; agora, não voltes a ter comigo outra vez, porque se volto a ver-te, venho matar-te). Nzambi(aldeia de Deus).
Logo que sua filha atingiu a puberdade, Nzambi, informou Ná Kalunga, sua esposa, que tencionava mostrar para Kalunga, sua filha, tudo que havia criado e que após três meses retornaria.
Esta resolução não agradou à divina esposa que tentou opor-se a que sua filha o acompanhasse. Porém Nzambi lembrou-lhe que ela tinha sido por ele criada para lhe obedecer, visto que, além de seu marido, era também seu Deus.
Chegado que foi o tempo, Kalunga deu à luz um filho ao qual Nzambi deu também, o nome de Ndala Karitanga, passando este a ser a terceira divindade.
Logo que o seu filho-neto cresceu e atingiu a adolescência, Nzambi ordenou-lhe que casasse com sua mãe Kalunga, para que esta concebesse dele muitos filhos de ambos os sexos, a fim de povoarem a Terra e dominarem todos os animais.
***prindo as ordens de Nzambi, sua filha e seu filho-neto casaram e tiveram um filho e uma filha. Quando estes chegaram à maioridade, Nzambi ordenou, então, que o primeiro casasse com sua mãe e a filha casasse com seu pai, dizendo que já não se justificava a primeira união que ele tinha ordenado, informando-os, ainda que depois daquelas uniões, as seguintes se fizessem sós entre primos.
Por fim, depois de lhes ter ensinado tudo o que deveriam fazer, para a que sua descendência crescesse e multiplicasse, para que lutasse contra as doenças e os feitiços que um dos descendentes do sexo feminino, viria a possuir, porque ele lhes legaria.
Disse, também, que viriam outros descendentes divinos e que após deixarem a vida terrena, cada um dentro de sua atribuição, iria supervisionar o mundo que ele havia criado.
Nzambi despediu-se de todos, chamando depois, o seu cão, que sempre o acompanhava, dirigiu-se para à Sanzala Kasembe diá Nzambi (Aldeia Encantada de Deus), e dali subiu para o espaço, levando consigo o cão.
Naquela altura as rochas estavam moles, por terem sido formadas a pouco tempo. Ainda hoje se podem observar as pegadas esculpidas, numa rocha ali existente, especialmente do pé direito de Nzambi, assim como da pata dianteira do seu cão, estas pegadas existem também em diversas outras rochas espalhadas por toda a África, incluindo Angola.(vide pré - história da Lunda do autor).
Foi, pois, dali, que o Nzambi subiu à TCHEUNDA TCHA NZAMBI (aldeia de deus), ou céu como nós lhe chamamos, onde se conserva, através dos séculos, para recompensar os bons e castigar os maus.
A pergunta feita a diferentes sacerdotes bantu, como é e quem foi que criou Nzambi, eles responderam que, sendo ele Ndala Karitanga, se deve ter criado a si mesmo e que tudo o mais é mistério que jamais alguém conseguiu ou conseguirá desvendar.
A resumida lenda que acabamos de expor, foi contada por dois velhos naturais da região do Sombo, conselho de Camissombo. Um chamava-se Tchinjamba Sá Fuca e o outro Sá Hongo, ambos já falecidos. O primeiro morreu no Luaco, o segundo faleceu na sua terra natal com cerca de 90 anos em 1994.
Comprovação feita pela Seção de Arqueologia e pré-história do Museu do Dundo-Angola, de que são originais e não forjadas por mãos humanas. Segundo as indicações dos nativos, a Sanzala Kasembe diá Nzambi, situa-se entre os rios Luembe e Kasai, junto da nascente do Mbanze. Dão-lhe estes nomes, por estar perto do Meue (estrangulamento) do Kasai.
Neste ponto, o rio tem apenas cerca de quatro metros de largura. Segundo a tradição oral, foi junto à nascente do Mbanze que se estabeleceram, primeiramente, os chefes e autoridades divinas, Ndumba ua Tembu, Muambumba, Muaxisenge e outros, quando fugiram à soberania do Muatianvua.
Foi naquele mesmo ponto que mais tarde, reuniram-se novamente, e ali planearam a separação e distribuição de terras que cada um deveria ocupar.
* Lenda é a narração escrita ou oral de caráter maravilhoso, na qual os fatos históricos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética *.
* Nzambi s.m. – Deus Criador. Autor da existência e de suas características dominantes - o bem e mal.
Conquanto seja o Ente supremo, não rege diretamente os destinos do Universo. No tocante ao nosso planeta, serve-se de intermediários a entidade espiritual. Em face das atribuições de que se revestem, assumem o caráter de semideuses. Por efeito desse privilégio, é a elas, pois, a quem os crentes se dirigem em suas emergências. Decorrentemente, a quem prestam culto.

Enquanto as entidades espirituais permanecem nas profundezas do globo. Nzambi paira em toda parte, sem lugar determinado. Pelo alheamento a que votou os problemas mundanos, só são invocados em última instância. Tal como noutros povos, também existem sinônimos para designá-lo, Kalunga, Lumbi lua Suku, etc.
Kalungangombe, o juiz dos mortos, tem o poder de suprimir a existência. Mas, se Nzambi não concordar com a decisão, o mortal continuará subsistindo. Portanto, intervém quando necessário.

Do Livro: Crenças, Adivinhação e Medicina Tradicionais dos TCHOKWE do Norte de Angola
 
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ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Set 30, 2009 10:07 pm

Amigos:

Li as várias intervenções neste tema e, acreditem, valeu a pena! É um conjunto de estudos muito sérios, bem expostos e correctamente documentados. Muito útil a quem queira entender um pouco mais sobre Angola.
Estão de parabéns os autores!

Ora acontece que entrei aqui para contar uma "história levezinha"... até fiquei com receio que ela ficasse "deslocada" no meio de tanta erudição... Parece que estou a ser irónico, mas não, estou a ser muito franco, como é meu péssimo hábito!
Então, depois de meditar sobre o assunto, decidi-me... Trata-se de um conto popular genuinemente angolano e que circula ainda, bem ao jeito da ascestral tradição oral. Não há assim fundamento para as minhas preocupações iniciais. Mas vamos ao que interessa:

Confirmado por tudo o que se disse antes, aquilo a que se chama “povo angolano” não existiu nunca! O que há é um conjunto de etnias que se odeiam mutuamente e em que o diálogo é extraordinariamente difícil, para não dizer impossível. A evolução actual virá a atenuar esta realidade, certamente, mas vai demorar muito tempo. E este tempo mede-se em séculos...

Daí a famosa história popular angolana que retrata muito bem a questão das etnias e que explica muitos factos que temos dificuldade em entender.

Para título, optaria por: "Angola, vista por ela própria":

Quando Deus andava a fazer a Terra, colocou no espaço correspondente a Angola, tudo o que era bom: clima, rios, terra e recursos vegetais, animais e minerais! Tudo numa qualidade e abundância que os Anjos que o acompanhavam, estranhando, lhe perguntam: Deus, não estarás a ser injusto para com as outras terras? Ao que Deus, com um sorriso enigmático, respondeu: Esperem até ver que povos ali vou colocar!
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Terça Nov 03, 2009 9:23 am

Etnia Himba - Frontera Namibia Angola
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quarta Nov 04, 2009 7:06 pm

Vitor Oliveira Escreveu:Etnias de Angola:
Bakongo (Quiconcos)
Ambundu (Quimbundos)
Ovimbundu (Umbundos)
Nyanyeka (Lunhanecas)
Herero (Xihereros)
Ambo (Xicuanhamas)
Tchindonga ((Xindongas)
Koisan
Ngangela (Ganguelas)
Tchokwe-Lunda (Quiocos)

xibias
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quinta Nov 12, 2009 9:18 am

Mamuílas
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Re: ETNIAS DE ANGOLA

Mensagempor em Quinta Nov 12, 2009 9:21 am

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