HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

NOTÍCIAS, FOTOS, VÍDEOS, ETC

HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

Mensagempor Vitor Oliveira em Sexta Maio 29, 2009 1:55 pm

../img/new/pag_sx.gif

CENTRO CULTURAL MOSAIKO
IDENTIDADE E TRABALHO (1997-2002)
História
Como sabeis, a história do Centro Cultural Mosaiko não pode dissociar-se da história dos Dominicanos remota e próxima, no mundo e em Angola. Desde a sua fundação no século XIII, a Ordem dos Pregadores (Dominicanos) dedica-se à Pregação da Palavra de Deus e à Promoção Integral da Pessoa Humana. Desde os começos da Ordem, esta vocação é partilhada por diferentes grupos - monjas, frades, leigos e irmãs - constituindo-se uma Família Dominicana que realiza a sua missão na complementaridade.

Ao longo da sua história, este modo de viver tem alimentado gerações na realização de um trabalho anónimo, donde, por vezes, se destacam algumas iniciativas e figuras. Refiram-se apenas alguns exemplos: no século XIII o recém-fundado Convento dos Dominicanos acaba por estar muito ligado à Universidade de Paris que também está a dar os primeiros passos; neste mesmo século destacam-se S. Alberto Magno, investigador e professor que reúne em si saberes como Filosofia, Teologia, Biologia, Física e outras ciências da natureza, e ainda S. Tomás de Aquino que dispensa comentários; no conturbado século XIV, a leiga dominicana Catarina de Sena desempenha um papel relevante na política europeia, sobretudo na reconciliação entre as cidades do território da actual Itália e conseguindo, inclusive, que o papa regresse a Roma; no século XVI, no coração do Novo Mundo, Bartolomeu de Las Casas acolhe a pregação anti-esclavagista de uma pequena comunidade dominicana, e já como dominicano inicia um combate sem tréguas em favor das populações nativas; nessa mesma época, um outro dominicano, Francisco de Vitória, ensinando na Universidade de Salamanca, lança as bases do que viria a ser o Direito Internacional; mais perto de nós, em pleno século XX, o dominicano francês Louis-François Lebret (a quem é atribuída a redacção da encíclica 'Populorum Progressio' - O progresso dos Povos) - lança o movimento 'Économie et Humanisme' dedicado à cooperação e ao desenvolvimento.

Chegados a Angola em 1982, os primeiros três frades dominicanos, isto é, os freis João Domingos, Gil Filipe e José Nunes, assumiram a orientação da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção do Waku-Kungo, numa situação de guerra efectiva. Uma vez no Waku-Kungo e no seguimento de um levantamento dos principais desafios a enfrentar, os dominicanos decidiram assumir três prioridades. Primeira: serviço da Palavra, formação e informação (chegaram a ter 34 semanas de formação das 52 do ano civil); segunda: celebração e culto; a terceira prioridade foi dada à alfabetização e às iniciativas de desenvolvimento. Havia sempre um dominicano a dar aulas na Escola do III nível e na de Formação de professores. Foram criados centros de alfabetização em toda a região. Em 1988 eram 76. Houve depois um aperfeiçoamento com a criação de 24 escolas oficiais, reconhecidas pelo Estado nas aldeias em zonas de guerra, cujos professores eram recrutados e apresentados pela Paróquia. A maior parte deles eram jovens fugidos da tropa para os quais a Paróquia tinha conseguido obter dispensa do serviço militar enquanto exercessem este serviço de professores. Infelizmente, ao cabo de cinco anos esta experiência foi brutalmente interrompida quando a tropa raptou e levou estes professores para o serviço militar numa altura em que eles freqüentavam na cidade um seminário de aperfeiçoamento.

Também foram incentivadas campanhas de condução de água canalizada para as aldeias, arruamento de casas, plantação de árvores de fruta (pedia-se que cada família plantasse, pelo menos, 5 árvores de fruta diversa) e campanhas contra as queimadas e derrube indiscriminado de árvores, abertura e manutenção de estradas. Estimulavam-se as famílias a terem duas lavras, uma destinada à subsistência e outra que pudesse servir de fonte de rendimentos e garantia de algum patrimônio. Um acontecimento marcante e edificante foi vivido a nível da solidariedade quando em 1985 o Waku-Kungo teve de acolher cerca de 60 000 pessoas fugidas de Cassongue na seqüência da sua ocupação por parte da UNITA. Houve uma mobilização geral e uma acção de resolução do problema participado a vários níveis: os cristãos repartiram os seus haveres e terrenos com os deslocados, o Estado (naquela altura representado pelo Comissário Municipal) contribuir distribuindo terras das fazendas para cultivo e para residência. O Comissariado e a Caritas paroquial conseguiram sementes, catanas e enxadas para esses deslocados. Os dominicanos, por seu lado, procuraram que os deslocados se agrupassem segundo as suas aldeias de origem com o intuito de reduzir o sofrimento e as divisões que a guerra, de per si, provocava.

Com a chegada da guerra ao território da paróquia, particularmente com a chegada da UNITA em 1991, o povo sofreu bastante, grande parte dele fugiu para outras zonas mais seguras, a cidade foi bastante destruída e mesmo a casa paroquial foi muitas vezes alvo de ataques. Mas os dominicanos e também as dominicanas, mantiveram a sua acção e presença no seio do povo e tiveram que assumir funções como: protecção das pessoas contra a perseguição e a morte, fossem elas quem fossem; acolhimento constante de deslocados, feridos e doentes; tiveram que guardar propriedades, arquivos de pessoas, de famílias, de escolas e de serviços públicos essenciais como hospital, cartório e notário.

Em 1988, fundaram uma nova comunidade em Luanda e assumiram a direcção do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), e desde então conseguiram a legalização do Curso Médio de Professores de Educação Moral e Cívica e a reabertura do Curso de Educadores Sociais, fechado pelo governo de então. Hoje, felizmente, o ICRA está em franco desenvolvimento, marcado principalmente por um considerável movimento de intelectuais, professores, investigadores, estudantes e um notável fervilhar de idéias e projectos nas aulas, nos debates e nas sessões culturais. Além dos dois cursos que funcionam em Luanda, o Curso Médio para Professores de Educação Moral e Cívica está já também a funcionar no Lubango, em Benguela e no Kuito.

Quando em 1995 foram postas no papel as linhas mestras do Mosaiko dizia-se que "a admissão de vários angolanos na Ordem dos Pregadores, alguns dos quais já vão terminando os seus estudos institucionais, torna imperativa a constituição de uma nova Comunidade Dominicana que acolha esses irmãos, e realize o projecto, há muito desejado, de um Centro Cultural que, na linha do carisma da Ordem, possa contribuir de forma concreta e contextualizada para o desenvolvimento integral e integrado da sociedade angolana". De facto, assim nasceu o Centro Cultural Mosaiko como um projecto de inspiração dominicana, onde dominicanos e outras pessoas tivessem um espaço de liberdade e de criação para responderem, criando e antecipando, aos grandes desafios da sociedade angolana. Assim, o Centro Cultural Mosaiko, cujo símbolo é o embondeiro, foi criado com o propósito de contribuir, conjugando as sete palavras-chave ou valores e seus significados (nas sete línguas principais de Angola), para que a felicidade se estabeleça na aldeia angolana:
MbeMbwa - KuzokOsa - ESunga - DikAnda - MurImu - Kisalu - EmwainasanO
[ PAZ - PALAVRA - JUSTIÇA - FAMÍLIA - DESENVOLVIMENTO - TRABALHO - HARMONIA ]
Por isso, a palavra Mosaiko quer exprimir a transformação multifacetada daquilo que em Angola é ou pode ser uma realidade ameaçadora numa oportunidade criativa ao nível político, económico, social, cultural e eclesial. Procurando partir sempre da análise da realidade angolana e de cada localidade em particular, o Centro Cultural Mosaiko pretende prestar uma gama de serviços que contribua activamente para: a consolidação da paz e da reconciliação entre os angolanos e a criação de um clima favorável à emergência de iniciativas que abram caminhos concretos para uma sociedade angolana justa e próspera. Por isso, o Centro optou colocar-se numa perspectiva cujo horizonte não se limita à 'gestão do quotidiano'. Com o intuito de promover um desenvolvimento integral, dando particular atenção aos mais desfavorecidos ou discriminados (as mulheres, os órfãos, os analfabetos, os desempregados ou subempregados, etc.) o Centro pretende perceber constantemente as principais causas das situações de desgraça em Angola e principalmente criar um espaço de reflexão e de debate sobre os caminhos concretos que permitam superar o 'caos' que tem vivido a sociedade angolana.

O Centro procura que o seu trabalho contribua para a afirmação de uma opinião pública forte e de uma sociedade civil com espírito de iniciativa. O Centro não pretende 'trabalhar para...', mas 'trabalhar com' as forças vivas da sociedade em Angola e nela em cada local em particular; não pretende substituir outras acções da sociedade civil, mas suscitar um clima favorável ao aparecimento de diversas iniciativas, acompanhando e apoiando o seu crescimento e desenvolvimento.

Sintetizando, o Centro Cultural Mosaiko tem como missão:
Produzir e difundir uma reflexão contextualizada e rigorosa para suscitar e apoiar iniciativas de desenvolvimento integral e integrado na sociedade angolana.

Para tal, o Centro Cultural Mosaiko assume como objectivos estratégicos:
- Promover a credibilidade pelo rigor na reflexão e difusão
- Atender ao contexto na reflexão e difusão
- Promover um estudo interdisciplinar sistemático
- Desenvolver o intercâmbio com organizações congêneres nacionais e estrangeiras
- Efectuar uma difusão qualificada da reflexão elaborada
- Fidelizar os colaboradores
- Maximizar o aproveitamento dos recursos disponíveis
- Prover à auto-sustentabilidade

Como está organizado
Tendo arrancado em 1997 com 2 pessoas a tempo pleno e uma a meio tempo, o Centro Cultural Mosaiko reúne hoje 14 pessoas a trabalhar a tempo pleno e 3 a meio tempo, divididas em duas grandes áreas, a saber: área de investigação e trabalho (Núcleo Justiça e Direitos Humanos, Núcleo Caminhos para o Desenvolvimento e Núcleo Promoção da Mulher) e área funcional (Biblioteca, arquivos e edições, Comunicações e secretariado, Serviços administrativos, Relações públicas e Serviços auxiliares). Esta organização obedece ao plano estratégico traçado pelo Centro e aos desafios e necessidades impostas pela dinâmica das próprias solicitações sendo, por isso, passível de mudanças e adaptações.

O que fez
No estudo que o Centro Cultural Mosaiko tem desenvolvido para compreender as causas da situação de deriva de Angola ressaltam um conjunto de factores como:
¢ Secular cultura de centralismo do poder que vai desde as suas formas tradicionais, inclusive religiosas e de domínio do saber e de técnicas aos sofisticados sistemas políticos como o fascista português, o marxista-leninista, o maoísta e o neo-liberal;
¢ Conseqüente marginalização e exclusão da maioria da população que se torna fraca e com bastantes dificuldades em desenvolver-se e ultrapassar os obstáculos e sistemas de controle impostos por esses poderes centralizados;
¢ Suporte institucional fraco e desenvolvido sobretudo ao nível dos sistemas de manutenção e controle do poder;
Estas constatações levaram o Centro Cultural Mosaiko a
¢ Tomar como enfoque e principal beneficiário do seu trabalho a população marginalizada, mesmo quando desenvolve o seu trabalho com as instituições do poder central
¢ A trabalhar com as pessoas e não para as pessoas, substituindo-as
¢ A trabalhar com as pessoas para fortalece-las e para que elas se tornem os agentes do seu próprio desenvolvimento integral e integrado
¢ A ter como enfoque um trabalho que crie processos de desenvolvimento sustentados e sustentáveis
¢ A optar por processos de desenvolvimento profundos de médio e longo prazo capazes de ser duradouros e não nas acções de curto prazo
¢ A trabalhar com as populações a nível local, envolvendo-as e envolvendo as suas lideranças
¢ A criar processos duradouros de aproximação entre as lideranças e as populações marginalizadas
Disto resulta que o principal trabalho do Centro Cultural Mosaiko acabe por ser o de reforço de capacidades das pessoas, dos seus grupos e das instituições através de acções concertadas de formação sob a forma de seminários, debates, divulgação nos meios de comunicação social, publicação de livros e materiais didácticos de suporte da formação. Por esta razão, mais de 50% do trabalho do Centro Cultural Mosaiko é desenvolvido fora de Luanda em sedes municipais e capitais provinciais, de acordo com os pedidos e as solicitações da base.

TRABALHO DESENVOLVIDO DE 1997 A 2002
Actividades desenvolvidas pelo Centro Cultural Mosaiko
¢ Publicação do livro Guia de Apoio a Cursos de Formação em Direitos Humanos, ed. Centro Cultural Mosaiko (Luanda 1999) 367 págs., com os seguintes conteúdos:
o Parte I: "A Longa Caminhada Histórica até à Declaração Universal dos Direitos Humanos" - 12 lições;
o Parte II: "Declaração Universal dos Direitos Humanos"- 30 lições (apresentação pedagógica de cada artigo da Declaração);
o Parte III: "Direitos Humanos em África e em Angola" - 10 lições
o Parte IV: "Religião e Direitos Humanos" - 8 lições
o Apêndices
" Lei Constitucional da República de Angola: Título II: "Direitos e Deveres Fundamentais"
" Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos
" Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres
" Convenção sobre os Direitos da Criança
" Glossário
Este livro esgotou em pouco mais de dois anos uma edição de 3000 exemplares.
¢ Desde 1998, publicação de mais de 30 textos em edições de cerca de 2500 exemplares para apoiar as acções de formação realizadas pelo Centro: leis, estudos, casos práticos, etc.
¢ Seminários de Formação sobre Direitos Humanos e outros temas : desde 1998 foram realizados 41 Seminários de Formação sobre Direitos Humanos, Processo Constitucional Angolano, Direitos da Criança, etc., em 10 diferentes províncias de Angola, que contaram com mais de 2 200 pessoas formadas que têm estado a desenvolver um vasto trabalho de promoção dos Direitos Humanos em 10 das 18 províncias de Angola.
¢ Publicação, em 1998, de reflexões sobre os Direitos Humanos nas quatro páginas centrais de todos os números do Jornal "O Apostolado", publicado pela CEAST, cuja distribuição chegava a todas as províncias do país.
¢ Colaboração na Formação de Guardas Prisionais de Luanda e Províncias periféricas com aulas de Educação Cívica e Direitos Humanos na Escola Nacional de Técnicos de Penitenciária: de Abril a Novembro de 1998, com 2 horas semanais.
¢ Organização da I Semana Social Nacional, realizada em Luanda de 23 a 28 de Novembro de 1999, dedicada ao tema "Educação para uma Cultura da Paz" que reuniu cerca de 200 pessoas, com representantes de todas as dioceses do país. Foi também publicado um livro com as intervenções proferidas.
¢ Em 1999, levantamento e estudo preliminar sobre a dívida externa de Angola.
¢ Desde 1999, trabalho piloto no Bairro da Estalagem - Viana, maioritariamente constituído de deslocados: levantamento geográfico, levantamento das instituições, inquérito sobre a composição demográfica do bairro, diagnóstico participativo sobre principais problemas e necessidades, realização de um projecto de saneamento público (eliminação de lixos e águas estagnadas), sessões de formação sobre tratamento da água, higiene pessoal, familiar e pública, prevenção de doenças endêmicas, etc.
¢ Colaboração na elaboração do Relatório do Desenvolvimento Humano - Angola 1999, com estudo sobre solidariedade e estratégias de sobrevivência entre os deslocados de Angola.
¢ Participação em encontros internacionais e animação de conferências: o trabalho do Centro Cultural Mosaiko tem vindo a ser cada vez mais reconhecido quer a nível nacional, quer a nível internacional . Sinal disso são os vários convites que tem recebido para participar e intervir em vários eventos ligados à construção da paz em Angola, ao seu desenvolvimento sócio-económico e à promoção dos Direitos Humanos. Obviamente, não pode aceitar todos os convites que lhe são dirigidos.
¢ Abertura ao público da Biblioteca Mosaiko desde Junho de 2002: antes usada apenas por poucas pessoas e com autorização expressa para tal, a Biblioteca Mosaiko, agora melhor apetrechada e aberta ao público 4 dias por semana (das 08h30 às 16h30) já tem dificuldade para atender o grande número de leitores que chegam. Ela está destinada a estudantes, professores e investigadores com habilitação literária mínima a 12ª classe (curso pré-universitário).
¢ Tem em avançado estado de elaboração alguns livros (manuais) para publicação, nomeadamente "Participação dos cidadãos na elaboração da Constituição e mecanismos de definição de prioridades para Angola"; "Angola: Direitos da Criança".

Actividades organizadas em parceria pelo Centro Cultural Mosaiko e outras instituições
¢ De Junho de 1998 a Março de 2001, coordenação da plataforma "Estreitando Relações... construindo parcerias", de 15 instituições civis e religiosas, nacionais e internacionais, em 4 áreas de trabalho: Terra e leis que governam a sua posse, Educação Cívica e Direitos Humanos, Formação de Quadros, Repensar filosofias e métodos de desenvolvimento.
¢ Ciclo de Conferências sobre Direitos Humanos em 1998, em Luanda, denominado Conferências em Agosto, em colaboração com a Universidade Agostinho Neto, o Departamento dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, o ICRA- Educadores Sociais e a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo.
¢ Realização de uma série de 12 programas televisivos sobre Direitos Humanos. Cada programa, com a duração de 30 minutos, inclui uma representação teatral sobre a promoção, o gozo e a protecção dos Direitos Humanos e um debate sobre o tema. Os programas foram transmitidos na Televisão Pública de Angola (TPA) e na Rádio Nacional de Angola (RNA) de Julho a Setembro de 1998 e foram gravados em cassetes vídeo que estão a ser divulgadas em todo o país. Esta serie foi produzida em parceria com a Divisão dos Direitos Humanos da MONUA, a ADRA e a Companhia de Teatro Julu.
¢ Realização de um Workshop Nacional sobre Educação Cívica e Direitos Humanos, em Outubro de 1998, em colaboração com a ADRA e a Divisão dos Direitos Humanos da MONUA. Nele participaram representantes de 10 das 18 Províncias de Angola.
¢ Realização de um workshop sobre "Evangelização e Direitos Humanos" em Novembro de 1998 em colaboração com a Arquidiocese de Luanda, a Divisão dos Direitos Humanos das Nações Unidas e a Trocaire. Neste workshop participaram representantes de todas as paróquias de Luanda e Bengo e foram lançadas as bases para a criação de Comissões Paroquiais de Direitos Humanos e constituída, a nível da Arquidiocese de Luanda, uma Comissão Central de Direitos Humanos.
¢ Realização, em Luanda, de Novembro de 1998 a Abril de 1999, de vários debates e workshops para dinamizar a sociedade civil a participar no processo de Reforma Constitucional actualmente em curso. Nestas actividades, organizadas em parceria com a ADRA e a AAD, participaram mais de 15 ONG's nacionais, Associações Religiosas e Cidadãos. Foi elaborado e assinado um documento contendo as suas contribuições para a Reforma Constitucional que foi entregue à Assembleia Nacional.
¢ De 7 a 13 de Dezembro de 1998, realização da I Feira dos Direitos Humanos, comemorativa dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: debates, teatros de rua, concursos de pintura, concursos de música, exposições de livros e material didáctico. Este trabalho foi organizado em parceria com a ADRA, a AAD, o NDI - Instituto Democrático Internacional, a Ordem dos Advogados e outras instituições.
¢ De 1999 a 2002, produção e distribuição pelo país do Calendário Didáctico para cada ano com o objectivo de divulgar a mensagem dos Direitos Humanos. Este trabalho foi realizado em colaboração com a ADRA, a IBIS e a Divisão dos Direitos Humanos das Nações Unidas.
¢ Orientação do workshop "Direitos Humanos e sua aplicação na administração da justiça" , em Fevereiro de 2000, organizado em colaboração com o Departamento dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça e a Divisão dos Direitos Humanos das Nações Unidas.
¢ Realização, em Fevereiro de 2000, em colaboração com a ADRA, de um debate sobre percepções das causas, conexões e vias de solução da guerra em Angola a partir de um trabalho de dois investigadores suecos da Universidade de Gotemburgo.
¢ De Abril a Maio de 2000, realização de um inquérito sobre o conhecimento dos Direitos Humanos na cidade de Luanda e periferia, em colaboração com a Divisão dos Direitos Humanos das Nações Unidas e o AIP - Instituto Angolano de Pesquisa Social.
¢ De Agosto a Outubro de 2000 o Centro Cultural Mosaiko elaborou uma contra-proposta de Lei de Imprensa que pôs à discussão de mais de 20 instituições civis, religiosas e organizações profissionais. Recolheu mais de 100 assinaturas e submeteu ao Governo. Desta e doutras iniciativas da sociedade civil resultou que um ante-projecto de Lei de Imprensa anti-democrático, elaborado pelo Governo, fosse anulado: primeira experiência exitosa de participação dos cidadãos na elaboração de leis.
¢ Organização de ciclos de "Conferências do Carmo", a terem lugar uma vez por mês no Centro Sócio-Cultural do Carmo, das conferências de Advento, de Quaresma e dos Cursos de Bíblia e do Pensamento Social da Igreja.
¢ Desde 2001, o um membro do Centro Cultural Mosaiko participa no Conselho Consultivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em Angola.


Síntese dos principais resultados obtidos no trabalho do Centro Cultural Mosaiko desde 1997
Embora muitos dos frutos de um trabalho do tipo deste desenvolvido pelo Centro Cultural Mosaiko só se tornem visíveis a longo prazo, sendo geralmente difícil estabelecer uma relação linear entre causa e efeito, do trabalho desenvolvido desde 1997 já são visíveis os seguintes resultados:
¢ As publicações como o livro Direitos Humanos - Guia de apoio a cursos de formação e Educação para uma cultura da Paz, o Calendário dos Direitos Humanos e os diferentes materiais de apoio têm ultrapassado sempre as expectativas e sido constantemente solicitados pelos grupos locais com os quais o Mosaiko trabalha, por outros parceiros nacionais e estrangeiros (principalmente lusófonos, mas também anglófonos e francófonos), por instituições do Estado e agremiações partidárias.
¢ Formação de mais de 2200 pessoas em Direitos Humanos, para multiplicarem a formação - e iniciarem processos criativos e sustentáveis locais de desenvolvimento em várias direcções
¢ Estabelecimento de vários grupos activos em quase todo o país: em 11 localidades, cobrindo 9 das 18 províncias de Angola (Kwanza Norte, Kwanza Sul, Kuango Kubango, Huíla, Namibe, Benguela, Lunda-Norte, Malanje e Luanda)
¢ Reunião de pessoas representativas de diferentes sectores das comunidades locais, às vezes aparentemente antagônicas devido a longos anos de guerra e de manipulações políticas.
¢ Crescimento dos laços de cooperação entre vários grupos em quase todo o país e destes com os órgãos de Estado - o que é, de facto, uma novidade no espaço público angolano, se destaca em todos os Seminários e continua na implementação do plano de acção, nomeadamente devido ao facto de os grupos ou comissões locais serem mistos, compreendendo representantes de diferentes sectores da sociedade. Os exemplos mais reveladores encontram-se na Gabela, em Ndalatando, *****bal, em Menongue, no Sumbe, no Seles, na Conda, na Boa-Entrada, na Matala, no Namibe.
¢ Reforço das instituições tanto cívicas como estatais a nível local, provincial e central do País: isto tem sido um contributo muito importante uma vez que as instituições em Angola são ainda muito fracas devido a longos anos de tradições culturais pouco democráticas, de colonialismo, marxismo-leninismo, maoismo e guerra.
¢ Reforço do sentido de confiança e de dignidade de muitas pessoas, que se tornam capazes de defender a sua dignidade e auto-estima diante de ameaças e tentativas de violação dos seus direitos. Acções significativas neste aspecto podem identificar-se na Gabela, na Matala, no Lubango, em Ndalatando, em Menongue, em Luanda,...
¢ Crescimento da capacidade de muitas pessoas e grupos para intervir e participar em todos os assuntos da vida pública, assim como crescimento da sua atenção pelo bem comum, graças à formação das bases (grassroots people). Isto vem fortalecendo as pessoas e diminuindo nelas o medo enraizado desde há muito tempo.
¢ Crescimento da capacidade de muitas pessoas e de muitos grupos para tomar diferentes tipos de iniciativas sem esperarem pelo Governo, pela sua autorização ou pela intervenção exclusiva de actores externos às dinâmicas locais, como era comumente o caso. Aliás, o excessivo paternalismo dos líderes políticos, tradicionais e também religiosos esmagou severamente a capacidade de iniciativa das pessoas, o que vai sendo recuperado com muita dificuldade ainda.
¢ Delineamento de planos de acção concretos pelas pessoas que trabalham com o Centro Cultural Mosaiko de acordo com os problemas e as características de cada comunidade
¢ Crescimento de uma forte opinião pública, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nos pequenos e nas zonas rurais, que vai expondo os seus problemas e apontando as possíveis soluções. Esta opinião pública revela-se bastante importante porque se transforma num espaço de nascimento e protecção dos líderes, dos "opinion makers", da crítica e do debate contraditório que obriga às mudanças nos centros de tomada de decisões. Isto permitiu atingir a paz da maneira como ela foi atingida em Angola: através da pressão que foi sendo feita às lideranças políticas.
¢ Crescimento em quantidade e em qualidade de debates, mesas-redondas, auscultações, seminários e outros meios de formação fora dos grandes centros urbanos. O trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Direitos Humanos do Centro Cultural Mosaiko ajudou a fazer nascer e consolidar este tipo de acções em localidades até então muito fechadas como Malanje, Cubal, Menongue, Sumbe, Namibe, Matala, Gabela e Ndalatando.
¢ Crescimento da preocupação pelos Direitos Humanos, não apenas por parte da população, mas também dos próprios representantes do Estado, que acabam assim por ser arrastados. A preocupação pelos Direitos Humanos em Angola só começou a estar no centro das atenções na última década, a partir de uma pressão sobre os órgãos de decisão vinda da base. O trabalho desenvolvido pelo Mosaiko ajudou muito na criação deste clima em todas as localidades onde foi implementado até ao ponto de serem as próprias instituições do Estado a solicitarem.
¢ Diminuição da violência tanto verbal como física e aumento do nível de tolerância, devido aos debates, acções de formação, actividades de advocacia e denúncia que as comissões locais de Direitos Humanos vão fazendo. Na Gabela, a Comissão Mista dos Direitos Humanos denunciou a captura de jovens para o exército, os roubos, a violência e as violações cometidas durante essa captura, o que provocou a destituição e o julgamento dos militares, primeiros guardiães da ordem. Na Matala, o Núcleo Local de Direitos Humanos desenvolve acções conjuntas com militares, polícias, autoridades tradicionais, representantes do Governo Local, líderes Religiosos, etc., o mesmo se verificando em Menongue, em Ndalatando, no Sumbe e em outras localidades.
¢ Estreitamento do fosso entre as elites e as populações. Isto é feito através da participação das elites nos seminários e do seu envolvimento na implementação dos planos de acção, pois uma das características da vida sócio-económica angolana é a marginalização da maioria da população por parte das pessoas e instituições com poder de decisão.
¢ Criação de sinergias e linguagem ou entendimento comum sobre problemas e pistas para a sua solução.

Perspectivas: 2003-2005
O Centro Cultural Mosaiko
¢ Trabalhar a partir dos resultados positivos alcançados pelo Centro Cultural Mosaiko e consolidar a estrutura organizacional actual em melhor funcionamento, o que poderá implicar algumas mudanças e adaptações
¢ Tornar o Mosaiko um Centro mais dinâmico, com maior capacidade de adaptação às circunstâncias e às mudanças do contexto
¢ Fortalecer e acompanhar os grupos locais em contacto com o Centro Cultural Mosaiko
¢ Rentabilizar as parceiras estratégicas nacionais e internacionais
¢ Fazer maior uso dos instrumentos de difusão para aumentar as possibilidades de conhecimento do trabalho do Centro Cultural Mosaiko pelos parceiros (boletim, página electrónica, meios de comunicação social)

CENTRO CULTURAL MOSAIKO
PROJECTO: 1995

1. Introdução
"Deus chama continuamente os homens das trevas para a luz da Boa Nova de Jesus Cristo. Sempre chamou homens e mulheres a adorá-lo e a proclamar o seu nome. Domingos de Gusmão ouviu este apelo no grito dos homens e mulheres do seu tempo e levou-lhes uma mensagem de esperança e libertação. Logo desde o início ouve quem seguisse o caminho de S. Domingos. Hoje, os Dominicanos e Dominicanas estão atentos, como S. Domingos estava, às necessidades do nosso tempo."
Desde a sua fundação no século XIII, a Ordem dos Pregadores (Dominicanos) dedica-se à Pregação da Palavra de Deus e à Promoção Integral da Pessoa Humana. As dimensões fundamentais do seu carisma - a vida em comunidade, a oração e o estudo contínuo e sistemático, tanto da Palavra de Deus como das Ciências Sociais e Humanas - estão totalmente orientadas para a pregação e a promoção da vida humana. Desde os começos da Ordem, esta vocação é partilhada por diferentes grupos - monjas, frades, leigos e irmãs - constituindo-se uma Família Dominicana que realiza a sua missão na complementaridade.
Ao longo da sua história, este modo de viver tem alimentado gerações na realização de um trabalho anónimo, donde, por vezes, se destacam algumas iniciativas e figuras. Refiram-se apenas alguns exemplos: no século XIII a primeira Universidade de Paris funciona no recém-fundado Convento dos Dominicanos; no conturbado século XIV, a leiga dominicana Catarina de Sena desempenha um papel relevante na política europeia, conseguindo que o papa regresse a Roma; no século XVI, no coração da Novo Mundo, Bartolomeu de Las Casas acolhe a pregação anti-esclavagista de uma pequena comunidade dominicana, e já como dominicano inicia um combate sem tréguas em favor das populações nativas; nessa mesma época, um outro dominicano, Francisco de Vitória, ensinando na Universidade de Salamanca, lança a bases do que viria a ser o Direito Internacional; mais perto de nós, em pleno século XX, o dominicano francês Louis-François Lebret (a quem é atribuída a redacção da encíclica 'Populorum Progressio') - lança o movimento 'Économie et Humanisme' dedicado à cooperação e ao desenvolvimento.
"S. Domingos associou mulheres à sua missão, afirmando assim o seu lugar na Igreja e na missão dela. Como seus herdeiros temos a tarefa de manifestar a igualdade e complementaridade entre 'homens e mulheres.
Estamos abertos ao mundo, celebrando a bondade da criação e somos encorajados a usar a nossa liberdade e a desenvolver os dons que Deus nos deu."

Chegados a Angola em 1982, os primeiros três frades dominicanos assumiram a orientação da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção do Waku-Kungo, numa situação de guerra efectiva, dedicando-se à evangelização e à promoção humana pela pregação, cursos a catequistas e agentes de evangelização, animação pastoral e acompanhamento dos missionários (não só na diocese do Kwanza-Sul, mas também noutras dioceses e mesmo noutros países africanos), promoção da juventude e da mulher, alfabetização, constituição de 'Centros Regionais de Evangelização e Promoção Humana', assistência humanitária em colaboração com a Caritas, formação e acompanhamento de associações agrícolas e de agentes de desenvolvimento, aulas na Escola do II e III Níveis (ensino secundário) e no Centro Básico de Formação de Professores.
Em 1988, abriram uma nova comunidade em Luanda, assumindo desde então a direcção do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), a responsabilidade do Curso de Formação de Educadores Sociais, de professores de Religião e Moral, aulas no Seminário Maior de Luanda. Nesse mesmo ano assumiram a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo em que asseguram a celebração dos sacramentos, catequese, diversos cursos, promoção da juventude, assistência a pobres e deslocados.
A admissão de vários angolanos na Ordem dos Pregadores, alguns dos quais já vão terminando os seus estudos institucionais, torna imperativa a constituição de uma nova Comunidade Dominicana que acolha esses irmãos, e realize o projecto, há muito desejado, de um Centro Cultural que, na linha do carisma da Ordem, possa contribuir de forma concreta e contextualizada para o desenvolvimento integral e integrado da sociedade angolana.

É o projecto deste Centro Cultural que nos propomos apresentar de seguida.

2. O Centro Cultural Mosaiko
2.1 Apresentação
Nas sociedades tradicionais, cada aldeia, cada costume, cada instituição tem uma história que a introduz e justifica. Na senda dessa milenar tradição, eis a história que apresenta o Centro Cultural Mosaiko:
Muntu vivia numa aldeia no meio da floresta, toda ela cheia de belas tradições. Tinha muitos filhos e vivia em plena harmonia com toda a gente.
Certo dia os homens da aldeia foram à caça e Muntu também foi com eles. Depois de um dia de sol ardente correndo atrás dos animais, armou-se uma grande confusão na repartição da carne. Daí nasceu uma guerra tal que os habitantes da aldeia tiveram que se dispersar. Uma grande parte da família de Muntu foi morta e ele mesmo teve que andar muito tempo perdido pelo mato, correndo vários perigos , passando fome e sede. Fugindo de qualquer maneira na tentativa de abandonar a floresta, foi parar muito longe, numa terra bastante árida. Depois de muito andar Muntu sentia-se tão mal que já tinha perdido as esperanças de continuar a viver. Encostou-se a um embondeiro e ficou a espera da morte, sem no entanto ter-se dado conta de que o embondeiro estava cheio de múkuas .
Quando notou que muitos pássaros vinham constantemente picar o tronco do embondeiro admirou-se bastante e até considerou aqueles pássaros tolos em comparação com os da sua aldeia. Contudo, resolveu perguntar o nome deles e eles disseram que se chamavam Kisalu porque passavam o tempo a trabalhar. Ora, isto fez com que Muntu os considerasse ainda mais tolos. Entretanto, decidiu também picar o tronco do embondeiro apenas por ironia. Mas descobrindo que podia alimentar-se das lascas que se desprendiam da árvore picotou-a e cavou-a tanto que passados três dias tinha rasgado um grande fosso no tronco da árvore. Assim recobrou as forças e julgando-se suficientemente recuperado retomou a caminhada. Mas imediatamente se perdeu e viu-se novamente sem nada para comer nem beber. Enquanto andava viu surgir inesperadamente diante dos seus olhos um pequenino charco. Muntu curvou-se e pôs-se até a remover a água do charco para poder aproveitar também a terra húmida. Infelizmente, aquela pequena esperança revelou um perigo ainda maior, pois havia ali perto um leão que ao vê-lo lançou-se para o devorar, só não o tendo alcançado por ter escorregado no charco.
'São e salvo', mas completamente perdido, cansado e cheio de fome e sede, Muntu viu ao longe o embondeiro 'salvador' em cujo tronco tinha rompido o foço. Precipitou-se para ele no intuito de poder voltar a alimentar-se do seu caule: agora já considerava os Kisalu como animais muito inteligentes. Entretanto, o fosso do embondeiro tinha-se enchido com a água que lentamente vertia do tronco. Muntu bebeu-a até ficar completamente saciado. No fim exclamou muito reconhecido ao embondeiro: 'foste a minha salvação, pois se não fosse o teu caule eu já estava morto há muito tempo.'
A água do embondeiro deu-lhe tanta força, que decidiu voltar para a aldeia. Encontrou-a deserta e destruída. Sentou-se debaixo da mulemba e pôs-se a pensar: 'Como fazer regressar os outros?' Resolveu ir consultar a velha Emwainasano que era uma pessoa cheia de experiência na vida e, por isso, dava sempre muitos conselhos a quem fosse ter com ela. Ela aconselhou-o a fazer uma grande festa - a festa do Mosaiko - para a qual convidaria todos os habitantes, só então aceitava regressar à aldeia. Muntu ficou muito feliz com a ideia e tomou a iniciativa de espalhar a notícia de que todos podiam regressar sem receios. Assim, conseguiu reunir muita gente em casa de Dikanda . Puseram-se a conversar enquanto comiam Kuzokoza . Todos se lamentavam pelo que acontecera e por terem obrigado até a mais velha Emwainasano a abandonar a aldeia. Ainda tímidos decidiram não mais provocarem uma zanga tão grande. Mal acabavam de tomar esta decisão entrou a velha que os aconselhou-os a escolherem Ndembama para ser o soba juntamente com o seu adjunto, o velho Esunga que resolvia sempre tão bem as macas de modo que ninguém se sentia prejudicado. Só por causa da gula não o quiseram consultar naquele dia da caça. Começou então o batuque da grande festa do Mosaiko. Todos cantaram e dançaram assinalando o regresso.
Ndembama voltou para a aldeia e era um soba muito bom. Por esses dias, nasceu a sua casule Murimu . Entretanto, como tudo estava destruído e não havia comida, Muntu sugeriu que se chamassem os Kisalu para lhes ensinar o canto do trabalho. Os Kisalu vieram e todos aprenderam a trabalhar. Entretanto, Murimu ia crescendo, era muito bela e todos gostavam muito de a pôr no colo. Para lhes corresponder pensou em distribuir flores a quem melhor imitasse a voz dos Kisalu. Afinal era toda a gente: porque todos cantavam muito bem e com os Kisalu tinham mesmo até aprendido a picar a terra. A velha Emwainasano não se cansava de dar conselhos sempre que eles a procuravam. Decidiram mesmo reunir-se regularmente em casa de Dikanda e fazer todos os anos a festa do Mosaiko. Aí todos se sentiam bem. Desde então tratavam-se como iguais. As mulheres já não passavam o tempo a trabalhar enquanto os homens iam beber. Descobriram que Kuzokoza era a melhor comida para dar força e que se a comessem várias vezes já não apanhavam tantas doenças.
Cada ano, reuniam-se todos para a grande festa do Mosaiko. Desde o soba Ndembama até à pequena Murimu, todos traziam o melhor que tinham e a Kuzokoza nunca faltava. Ao som do batuque cantavam o canto dos Kisalu e nessas alturas mesmo a velha Emwainasano ia pedir ao velho Esunga para dançar.

Como esta história sugere, o Centro Cultural Mosaiko, que tem como símbolo o embondeiro, quer contribuir, conjugando as sete palavras-chave (nas sete línguas principais de Angola), para que a felicidade volte à aldeia angolana:
NdeMbama - KuzokOsa - ESunga - DikAnda - MurImu - Kisalu - EmwainasanO
[ PAZ - PALAVRA - JUSTIÇA - FAMÍLIA - DESENVOLVIMENTO - TRABALHO - HARMONIA ]
A palavra Mosaiko quer exprimir a transformação multifacetada daquilo que em Angola é uma realidade ameaçadora numa oportunidade criativa ao nível político, económico, social, cultural e eclesial.

2.2 Missão
Partindo sempre da análise da realidade angolana, o Centro Cultural Mosaiko pretende prestar uma gama de serviços que contribua activamente para:
" a consolidação da paz e da reconciliação entre os angolanos;
" a criação de um clima favorável à emergência de iniciativas que abram caminhos concretos para uma sociedade angolana justa e próspera.
Para tal, o Centro Cultural Mosaiko coloca-se numa perspectiva cujo horizonte não se limita à 'gestão do quotidiano' (nesta área já existem outras instituições a trabalhar em Angola). Com o intuito de promover um desenvolvimento integral, dando particular atenção aos mais desfavorecidos ou discriminados (as mulheres, os órfãos, os analfabetos, os desempregados ou subempregados, etc.) o Centro pretende investigar as causas profundas da situação actual e principalmente criar um espaço de reflexão e de debate sobre os caminhos concretos que permitam superar o 'caos' em que vive actualmente a sociedade angolana.
Este trabalho de investigação e reflexão será difundido o mais amplamente possível, contribuindo para a afirmação de uma opinião pública forte e de uma sociedade civil com espírito de iniciativa. O Centro Cultural Mosaiko não pretende 'trabalhar para...', mas 'trabalhar com' as forças vivas da sociedade angolana; não pretende substituir outras acções da sociedade civil, mas suscitar um clima favorável ao aparecimento de diversas iniciativas (alfabetização, promoção da mulher, criação de cooperativas, formação profissional, etc.), acompanhando e apoiando o seu desenvolvimento.
Sintetizando, o Centro Cultural Mosaiko terá como missão:
Produzir e difundir uma reflexão contextualizada e rigorosa para suscitar e apoiar iniciativas de desenvolvimento integral e integrado na sociedade angolana.

2.3 Objectivos estratégicos
Tendo em conta a sua missão, num horizonte de oito anos, o Centro Cultural Mosaiko propõe-se atingir os seguintes objectivos estratégicos:
" Promover a credibilidade pelo rigor na reflexão e difusão
Para assegurar a credibilidade e a isenção do Centro, é fundamental que a reflexão produzida tenha como base uma investigação rigorosa e documentada. As exigências de clareza e acessibilidade associadas à difusão da mensagem, não podem ceder a simplismos ou lugares comuns.
" Atender ao contexto angolano na reflexão e difusão
Tanto a reflexão elaborada como a sua difusão, mesmo quando se baseia no que aconteceu noutros países, não pode deixar de ter em conta a situação concreta de Angola.
" Promover um estudo interdisciplinar sistemático
O estudo dos problemas, não se limita à perspectiva independente de cada disciplina. Pretende-se estabelecer um diálogo interdisciplinar em que, por exemplo, a abordagem económica seja interpelada pela abordagem cultural e vice-versa. Cada assunto será reflectido conjuntamente, de forma sistemática, a partir das diferentes perspectivas de análise.
" Desenvolver o intercâmbio com organizações congéneres
O intercâmbio com diferentes organizações congéneres (nacionais e estrangeiras) permite concretizar vários aspectos para que o Centro realize a sua missão: obter e difundir informação rigorosa e actualizada, partilhar experiências e promover o intercâmbio de colaboradores, participar em iniciativas conjuntas a nível nacional ou internacional, etc.
" Efectuar uma difusão qualificada da reflexão elaborada
O êxito deste projecto depende muito da capacidade para transmitir amplamente, de uma forma clara e acessível, a reflexão elaborada. A difusão tem de atender à especificidade dos meios utilizados (conferências, colóquios, rádio, revistas, folhetos, etc.), sendo assistida por técnicos que garantam uma difusão profissionalizada e qualificada, tendo como padrão, para cada um dos meios utilizados, o que de melhor se faz em Angola.
" Fidelizar dos colaboradores
Para o desenvolvimento do seu projecto o Centro necessita de contar com colaboradores fiéis e dedicados, que acreditem e se empenhem no trabalho a desenvolver, sentindo-se realizados por o efectuar. A selecção dos 'membros' (ou seja, os que realizam tanto os projectos de investigação como a difusão da reflexão elaborada) exige um tempo mínimo de dedicação.
O Centro pretende promover o desenvolvimento das aptidões de cada 'membro' e compartilhar responsabilidades, de modo que os resultados obtidos produzam satisfação e reconhecimento, fomentando uma dedicação sempre maior ao projecto assumido por todos.
Além dos 'membros' que o constituem, o Centro associará uma rede de 'conselheiros', de 'correspondentes' e de 'colaboradores' que apoiam a sua actividade como peritos, em determinadas iniciativas, ou durante determinado período.
" Desenvolver de fontes de financiamento
Principalmente nas fases de arranque e crescimento o Centro Cultural Mosaiko necessita do apoio de outras instituições para financiar a sua actividade. No entanto, pretende promover fontes de autofinanciamento através de iniciativas próprias e também uma rede de 'benfeitores' que apoiem regularmente as actividades do Centro.
Avatar do utilizador
Vitor Oliveira
Administrador do fórum
 
Mensagens: 5484
Registado: Sexta Abr 24, 2009 2:14 pm
Localização: Alferrarede - Abrantes - Portugal

Re: HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

Mensagempor ANA em Terça Jun 02, 2009 11:07 am

Waku Kungo e variações históricas


Pedro Eugando*

Se recuarmos para os tempos remotos, daremos conta de que o nome da região de Waku Kungo passou por algumas variações históricas. Entre elas a denominada Waku em que nos deteremos, por ser aí onde os colonialistas projectaram a construção da Vila de Santa Comba Dão.
Mas lembremo-nos de que, antes disso, a Santa Comba tinha sido projectada para ser construída na Vila de Freixo de Espada à Cinta, o que não veio a acontecer, porque aí nem só um único edifício existia, tendo daí sido criada, de forma efémera, provisória, no posto administrativo da Cela. Situação que de facto viria a ser ultrapassada com a criação de condições infraestruturais e organizacionais na então aldeia, já acima mencionada, e que passou pela expulsão dos seus antigos habitantes.
Com a expulsão dos autóctones daquela vasta libata/aldeia e com a criação das condições infraestruturais, foi, assim, possível a instalação da Vila de Santa Comba Dão que viria, em 1971, a evoluir para "O Concelho de Santa Comba, com sede em Santa Comba" (Boletim oficial de Angola, I Série-nº290-13 de Dezembro de 1971, p.1766 (51) ). Com esse novo figurino administrativo, o Concelho de Santa Comba passou a compreender "as áreas dos postos administrativos da Sede, da Sanga e da Cela".
A lógica seguida, de acordo com a minha análise, relativamente ao surgimento dos actuais municípios e comunas, no pós-independência resultou da transformação dos antigos Concelhos e Postos Administrativos. É por este facto, no quadro do estudo em causa, que a região em discussão deve ser enquadrada no contexto de Município, aliás como já se deu conta em várias literaturas antes citadas. É, por outro lado, que se justifica o antigo posto da Sanga denominar-se, actualmente, de Comuna da Sanga e o antigo posto da Cela de Kissanga Kungo.
Com a ascensão de Angola à independência, a 11 de Novembro de 1975, o sentimento identitário dos seus habitantes viria a afirmar-se no contexto nominal. Assim, a partir daí, precisamente pelos anos de 1976, as autoridades locais municipais, em articulação com as autoridades tradicionais, pensaram e levaram à prática a substituição do nome colonial para aquele que correspondesse à vontade dos povos da região. Logo, pelo facto de a cidade ter sido construída no espaço onde antes era aldeia, e tendo em conta que a autoridade máxima daquele tempo era Soba Kungo; por uma questão de homenagem a esta autoridade, é que ficou ligado ao Waku, passando o território ser Waku mais Kungo.
Pela rádio, televisão, imprensa escrita, internet e mesmo pela boca de muita gente lê-se ou ouve-se com frequência Waku Kungo, como sendo simples cidade ou comuna, para além de uns escreverem erradamente: Waco Kungo, Uaco-Kungo, Wako Kunda ou ainda Waku-Kungu. Outros ainda atribuem à Cela o estatuto de município. Será isto correcto?
Ao olharmos para o livro referente ao Programa de Melhoramento e Aumento da Oferta de Serviços Básicos às Populações, Biénio-2003-2004, p.209, Waku Kungo é tratado como comuna. Por outro lado, no mesmo livro, p.12, já o tratamento que se dá a ele é diferente, isto é, considera-se como sendo município. Infelizmente, nas páginas 209-211 do livro em causa rompe com as duas posições e transferência para a Cela o estatuto de município deixando Waku Kungo como simples comuna ou cidade.
No acto de inauguração da grande exposição-Feira Agro Pecuária da Cela, a 9 de Junho de 1967, entre os diferentes convidados presentes no evento figurava a entidade máxima da região: "Presidente da Câmara Municipal de Santa Comba" (Revista da Junta Provincial de Povoamento de Angola, nº5-Abril/Setembro de 1967, p.22). Porque não Presidente da Câmara Municipal da Cela? Já que se considera a Cela como Município?
No Plano Director Agrário da Província do Kwanza Sul, de 1992, p.13 deparámos com o Quadro nº4 denominado: "Sectores e Municípios, da Superfície Agrícola, Ha". Na coluna de Municípios, surge "Waku-Kungo" e não Cela. Na página 16, lê-se "Na região planáltica Waku Kungo (a antiga Sta. Comba)". A Cela é referida sim, na página 20, mas nos seguintes termos: "o antigo colonato da Cela".
Curiosamente, a Direcção Provincial da Agricultura e do Desenvolvimento Rural no quadro do Programa de Relançamento da Produção agrária, campanha agrícola 2002/2003, nos seus vários quadros que aí aparecem surge a Cela com estatuto de Município.
O mesmo pôde-se verificar nas diferentes páginas do livro "Encontro Nacional sobre a Administração Local em Angola" (do Ministério da Administração do Território, 1ª edição: Luanda, 2005). Nas páginas 120 e 206, por exemplo, o nome da região está escrita de forma incorrecta, isto é, Wako-Kungo. Mas reconhece-se como tendo a dimensão de município. O outro aspecto é que uma das comunas está erradamente designada por Quissanga-Cunjo. Esta comuna não existe. O que existe é Kissanga Kungo (antigo posto administrativo da Cela). Mas, há, ainda quem chame de Cela Velha.
Nas diversas literaturas especializadas e disponíveis consultadas e que notamos haver assinalável consistência científica aceitável, verificamos que a identidade correcta da região vem a ser município do Waku Kungo, e não município da Cela.

*Mestre em Estudos Africanos e licenciado em economia
Avatar do utilizador
ANA
Moderador de sala
 
Mensagens: 194
Registado: Sexta Abr 24, 2009 2:58 pm
Localização: Alferrarede - Abrantes - Portugal

Re: HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

Mensagempor Vitor Oliveira em Quinta Out 15, 2009 3:08 pm

A administração colonial e o colonato da Cela
Pedro Eugando -

A Cela de que nos vamos ocupar neste espaço não é aquela que se encontra situada em Portugal, isto é, nos Concelhos de Alcobaça e Chaves.
Trata-se ,sim, daquela que fez história no tempo em que Angola era considerada como província e dividida em concelhos e circunscrições agrupadas em distritos. Ou ainda, a região que nos tempos dos nossos antepassados chegou a chamar-se Cela – Liálussôke e que, ainda, nos dias de hoje, se confunde com o município do Waku Kungo. Na realidade este
território, mesmo em certo momento do passado, fazia geograficamente
parte de Santa Comba Dão, hoje Município do Waku Kungo. Aliás ainda é, embora nos tempos actuais, como resultado da independência de Angola, a Cela devia ser
comuna de Kissanga Kungo.
Lembre-se que, 25 anos antes da independência, a Cela e a Sanga, ao contrário do que sucedera no passado, eram duas parcelas geográficas com “paternidade” e “maternidade” diferentes.
Assim, a Cela já chegou a ser parte do Amboim, enquanto a Sanga parte da Quibala. Ambos os territórios já eram parte, além do Kwanza- Sul, igualmente, da actual província de Benguela.
Por aquela razão é que
se
detectam no orçamento de 1954, do Amboim e da Quibala, rubricas inerentes ao desenvolvimento das granjas administrativas da Cela e da Sanga.
Relatos de certas autoridades tradicionais por mim ouvidas acerca das respectivas regiões, referem que das granjas provinham alimentos para a subsistência dos prisioneiros.

Os responsáveis e dirigentes da administração colonizadora local também obtinham, a partir das granjas, bens vegetais e animais. Foram os prisioneiros, não poucas vezes e contra os direitos humanos, que asseguravam o seu funcionamento.
Na verdade a riqueza, efectiva e potencial, da Cela já despertava algum interesse à administração colonizadora. Apesar de algum conhecimento menos consolidado que se tinha acerca dela, e algumas vezes resultante de estudos apressados e superficiais, tal não condicionou o crescente interesse pela mesma. Compreendeu-se que a região poderia ser bastante útil, em muitos domínios, para a sobrevivência da Metrópole. Um olhar sobre o passado económico e social da então Santa Comba Dão (actual Município da Cela), pode testemunhar o facto. Foi nas terras da então Cela (hoje Kissanga Kungo) onde os dirigentes coloniais decidiram implementar o
projecto que ficou conhecido como Colonato da Cela.



Aquele projecto de grande alcance e, inicialmente, a cargo do engenheiro Francisco Boaventura nem sempre era bem compreendido. Umas vezes provocava opiniões díspares que, algumas delas, transpareciam irreconciliáveis, tendo no limite, com efeito, desembocado em fortes acusações. Assim, um dos testemunhos reside nas informações do então Gabinete do Subsecretário do Estado do Fomento, tal como seguidamente se pode constatar:
“A discussão acesa e quase sempre apaixonada que se tem travado, desde a origem, em torno do grande empreendimento que é o Colonato da Cela não contribuiu, infelizmente, para o esclarecimento das condições naturais e das circunstâncias técnicas e económicas que determinam a possibilidade da sua subsistência, desenvolvimento e prosperidade, nem tão pouco para melhor conhecimento dos problemas humanos e nomeadamente político-sociais, inerentes à manutenção e prosseguimento da obra”.Aquela é uma das realidades vividas pelo engenheiro Boaventura que tinha diante de si a preparação,
organização e instalação do Colonato da Cela.
Ele terá sido alvo de contestação, a ponto de ter sido mesmo acusado de descaminho de fundos destinados ao desenvolvimento da Cela.

Chegou-se a questionar uma das aquisições feitas por ele, nomeadamente a compra de “149 cabeças de gado, com valor bastante superior a 7.000.000$00”. Na sequência disso os críticos
acusaram-no, dizendo que o engenheiro Boaventura, “se dedica, agora, ao que parece, a negócios de gado”.
A admitir o facto, aquele valor articulado com os estudos, embora com algum defeito reconhecido pelo autor, de Elídio Gomes Barbosa, em 1950, pode representar qualquer coisa como 2.333 vacas leiteiras, ou 1.400 carroças, ou cerca de 5.833 bois de tracção.
Do primeiro exemplo, chega-se a perceber que com aquelas vacas leiteiras ele terá obtido um rendimento anual correspondente à aquisição de cerca de 7.778 charruas. Em termos de custos sociais de oportunidade, o prejuízo provocado pelo engenheiro Boaventura por não ter utilizado convenientemente, de acordo com os dados em mão, os recursos que estavam destinados à organização da reserva europeia da Cela, pode assim ser resumido:
a) Terão ficado sem receber as suas respectivas vacas leiteiras 778 colonos agricultores;
b) Terão ficado privados dos seus rendimentos anuais cerca de 206 famílias de agricultores europeus;
c) 3.889 famílias ficaram sem
beneficiar das respectivas charruas a que teriam direito.




Aquele ambiente associado a outros tantos, como ao que se traduz na “Carta Aberta ao Presidente do Conselho de Ministros de Portugal” subscrita, em 1960, pelo grupo de comerciantes e agricultores, a partir de Angola, contribuiu para o surgimento de outras situações menos abonatórias. Para o efeito atente-se no seguinte:
”Senhor Presidente: os Senhores daí não souberam conquistar a simpatia de uns milhares de portugueses de Angola –
os funcionários públicos pequenos – aqueles [que] com tanto sacrifício vão colonizando – como o pobre comerciante do mato ao mesmo tempo que arrecadando receitas para o Governo, mas este esbanjou-o todo com vencimentos chorudos aos graúdos e colonização da estafada Cela!”
Na verdade a Cela continuava a aguçar os interesses da Metrópole. E desta vez tentemos de
penetrar no interior dos decisores socorrendo-nos de algumas reuniões havidas no passado e presididas pelo Governador Geral, coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, em 1958.
Na Acta da “Sessão nº43, de 6 Janeiro de 1958, onde estiveram 19 vogais, ressalta-se a intervenção do vogal Américo Aleixo S. que com base nas abordagens da Sessão nº42, do mesmo mês e ano,
teria observado que, “se é certo que para a Cela se inscreveram nos últimos cinco anos 200 mil contos, e em seis anos se pretende multiplicar por cinco o que lá está feito”, então “esta orientação marcaria politicamente uma linha de rumo nacional, traduzida pela necessidade de colocar em Angola os excedentes demográficos metropolitanos”.
Passados seis anos, e agora por força dos “ sismos que assolaram a zona ocidental da ilha de S. Jorge [em 1964, Portugal], afectando, principalmente o concelho de Velas e parte do de Calheta, muitas famílias de agricultores viram as suas casas destruídas e gravemente perturbada a respectiva estabilidade económica assim deslocou-se a Angola uma missão que depois diligências feitas decidiu-se enviar 60 famílias de agricultores”.
Daquele contingente, embora tivesse havido duas desistências, importa referir que 20 famílias açoreanas acompanhadas por cabeças de gado, foram encaminhadas para o colonato da Cela à procura de melhores oportunidades de vida.
Em suma, a administração colonial depois de estar na posse de certos estudos e informações acerca da região terá compreendido que a Cela fazia parte das vastas regiões africanas “aptas para o povoamento europeu”, entre outros aspectos. Pelo que terá decidido que um contingente equivalente em cerca de 13,38 por cento da população total de Angola seria possível ser instalado na Cela. Esta população corresponderia à população das actuais províncias de Luanda, Namibe, e quase duas vezes
a população de Cabinda (Vide Censo de 1940 e de 1960).
Com a “expansão do Colonato, como alvo final” seria possível colocar nele “meio milhão de colonos” (Folhas 84, Ministério do Ultramar), “abrindo-se assim vasto campo de acção para tantos que, querendo e sabendo trabalhar, não encontram na cansada Europa actividade para os seus braços vigorosos”. Isto
levaria ao descongestionamento dos “excedentes demográficos”.

*Mestre em Estudos Africanos e licenciado em Economia
Avatar do utilizador
Vitor Oliveira
Administrador do fórum
 
Mensagens: 5484
Registado: Sexta Abr 24, 2009 2:14 pm
Localização: Alferrarede - Abrantes - Portugal

Re: HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

Mensagempor Bala Negra em Sábado Out 17, 2009 6:30 am

(Uma história que descobri na net)
a estação VHF rádio ficava no cimo do morro e a dos grupos geradores na base, estando as duas interligadas por meio de cabos, um para o transporte de energia e o outro das linhas telefónicas. Na estação em baixo, além do compartimento onde estavam instalados os geradores havia outro onde tinha instalado o escritório com os aparelhos electónicos para a manutenção. Frequentemente tinha de ir à estação de rádio para ver se todo o equipamento estava em ordem.

Em baixo tínhamos um telefone de serviço ligado ao equipamento para comunicação directa com os meus colegas, técnicos de Dalatando e do Huambo. Além disso, havia um sistema de alarme que nos indicava se havia alguma anomalia no sistema.

O caminho para subir até à estação de rádio era uma picada como a da Quibala mas não tão íngreme e perigosa. Naquela altura 1961-1962 havia no morro bandos de macacos cinzentos, algumas gazelas, coelhos e perdizes e até cobras cuspideiras e surucus. Enfim, havia muita vida selvagem que, com o tempo e a nossa presença diária foi desaparecendo. Nas cavidades das rochas havia muitos animais e uma espécie de esquilo do tamanho de um coelho chamado rato da pedra, muito desconfiados à nossa aproximação mas que os nativos apreciavam muito.

Tinha adquirido recentemente além de uma pistola Walter 7,65 para defesa pessoal, uma espingarda calibre 22 Hornet com mira telescópica para maior precisão de tiro à distância. Treinava frequentemente para afinar a pontaria. Um dia o Gunza (N’Gunza) chamou-me dizendo-me que estava pousada numa árvore no morro perto da estação uma ave de rapina grande. Pediu-me para matá-la porque eles apreciavam a carne destas aves. A ave estaria a mais de 60 metros, apontei e foi tiro certeiro. Ficaram todos contentes pois já tinham carne para uma refeição.

Na zona de Santa Comba na estação das chuvas, havia praticamente todos os dias trovoadas e quando a trovoada avançava direito ao morro onde estava a nossa estação era certo e sabido que cairia um raio no para-raios radioactivo instalado no topo dos mastros das antenas que tinham mais de 30 metros de altura.

Se caísse uma raio no para-raios teria de me deslocar à estação para substituição dos fusíveis não só das fontes de alimentação do equipamento como os do cabo telefónico. Uma ocasião estava eu mais o meu ajudante a fazer a rotina (leituras dos aparelhos) na estação rádio no morro e não nos apercebemos de que se estava a aproximar uma grande trovoada. Por acaso vendo que estava a escurecer embora as lâmpadas da estação estivesse acesas, apercebi-me imediatamente que a trovoada ja estava mesmo por cima da estação. Tinha lá um caixote de madeira e imediatamente subimos ambos para cima dele. Nesse mesmo instante, caiu um raio no para-raios. Dentro da estação viam-se faíscas por todo o lado e um forte cheiro a ozono. A nossa sorte foi estarmos em cima do caixote caso contrário poderia ter havido problemas. É claro que tive de substituir os fusíveis do costume para repor o funcionamento normal do equipamento.

Outra vez também vimos as coisas mal paradas. Estávamos no morro e chovia torrencialmente. Ao passar por uma parte mais baixa da picada estava toda alagada chegando a água até às portas da viatura. O que nos valeu é que o jeep era a diesel e o motor não parou mas ficámos atolados. Por sorte não caiu nenhum raio nas proximidades pois se tal acontecesse a viatura não estava isolada da terra e correríamos o risco de focar electrocutados. Parou de chover mas não conseguidos desatolar o jeep por isso, não havia outra solução senão descer o morro a pé e ir pedir ajuda. Começámos a descer quando o Gunza me disse para eu ir à frente.

- Oh pá, és amigo da onça? Se eu for à frente e passar perto de uma surucuru (cobra venenosa) serei logo mordido. Não chefe, quem passa primeiro e não piza a cobra não morde e fica à espera do outro que passe. Só aí entendi o gesto nobre do meu fiel ajudante.Imagem
Junto da estação diesel plantámos bananeiras de todas as qualidades que eu conseguia no colonato e que davam bananas para todos. O Gunza e o Paulino pediram-me autorização para plantar milho na área da estação na base do morro. Por curiosidade, vi como as mulheres deles (cada um só tinha uma) raspavam a terra do chão inculto até fazer um pequeno montinho com cerca de 50cm de altura. Depois com a ponta do pé abriam uma pequena cavidade no topo, deitavam algumas sementes de milho e voltavam a tapar. Achei estranho mas não disse nada, elas lá sabiam o que estavam a fazer. Quando chovia torrencialmente, a água arrastava do morro o húmus e alagava o campo que semearam mas nunca chegava ao nível do topo dos montinhos. Só então compreendi que o método deles para semear o milho naquela zona tinha a sua razão de ser.

Depois da chuva vinha um Sol brilhante e quente e dentro de dias o milho estava nascendo. Em pouco tempo, as plantas atingiam mais de 2 metros de altura carregadas de espigas.

As espigas estavam amadurecendo. Era boa altura para ***á-las na brasa dentro da sua casca verde. Com manteiga eram saborosas. Aí os macacos não resistiam à tentação e vinham do morro em bandos para roubar o milho. Cada macaco não se contentava com uma só espiga. Levava uma numa mão e outra debaixo do braço. Incrível só vendo!

O Gunza e o Paulino não se conformavam e vieram ter comigo pedindo-me para dar cabo dos macacos que lhes roubavam o milho esforço de tanto trabalho das suas mulheres. No dia seguinte quando o bando apareceu peguei na espingarda e apontei-a a um dos macacos. Instantaneamente sumiram todos sem sequer me darem tempo para atirar. Achei estranho o comportamento dos macacos, pois eles não conheciam uma espingarda para fugirem daquela maneira.

No dia seguinte, logo pela manhã, repetiu-se a mesma coisa e, então, em vez de pegar na espingarda peguei numa vassoura e apontei com o cabo de madeira. Ninguém se mexeu. Como era possível os macacos distinguirem o *** de um cabo de vassoura de uma espingarda? Só havia uma explicação, para mim, na altura um entusiasta pelo estudo da Parapsicologia. Eu transmitia mentalmente aos macacos a minha intenção de agressividade quando empunhava a espingarda. Mas, como o milho deu muita canseira para semear, não podia estar à mercê da macacada por isso, cada vez que eles se aproximavam disparava um tiro para o ar para os dispersar. Não voltaram a aparecer.

Dias depois, numa visita de rotina à estação de rádio no morro o Gunza sempre atento ao que se passava, chamou-me a atenção:

- Chefe, "olha os filhos da **** dos macaco ladrão estão ali e o chefe deles está no cimo da árvore a ver".

Olhei para onde ele me indicou e realmente lá estava o bando da macacada e, o maior de todos, talvez o chefe, estava no topo da árvore a observar.

- Como é que tu sabes que eles são os mesmos que roubaram o vosso milho?

- "Oh chefe se não és ele mesmo és irmão dele". Percebi o que ele queria insinuar, que matasse o chefe do grupo. Parei o jeep deixando o motor a trabalhar em ponto morto para não chamar a tenção do bicho, abri a porta e, pelo intervalo, apontei a arma com mira telescópica à cabeça do macaco chefe e disparei. O bicho caiu imediatamente do cimo da árvore. Imagem
O Gunza desatou a correr não fosse o macaco escapar-se. Acompanhei-o. Lá estava o macaco caído no chão mas ainda emita uns sons roucos. Tive pena e dei-lhe um pontapé na cabeça para lhe acabar de vez com o sofrimento. Resultado, como usava botas leves de cabedal fabricadas na África do Sul, fiquei com o pé machucado por causa da dureza da cabeça do macaco. Era um bicho razoável com mais de um metro de altura. O Gunza carregou o macaco no jeep e quando chegou à estação diesel mostrou-o triunfalmente aos amigos dizendo-lhes:

- "Olha aqui o ************* do chefe dos macaco que comeu o nosso milho"!

Esfolou o macaco deixando-lhe a cabeça inteira agarrada à pele e colocou tudo a secar ao Sol. Todo o pessoal nesse dia comeu carne de macaco assada. Perguntei-lhe o que ele iria fazer com a pele do bicho. Então, respondeu-me:

- "Esse gajo era o chefe dos macaco que comeu o nosso milho então vou por a pele dele ao pé da minha cama e todos os dia quando me deitar e levantar vou pisar nela"!

No dia seguinte, na nossa visita à estação de rádio vimos outro bando de macacos. O Gunza apontou logo para o bando dizendo:

- "Olha chefe esses gajo são os outro e aquele que está na frente é o chefe, atira nele".

O bando estava a maior distância do anterior mas, mesmo assim, apontei a arma à cabeça do macaco. Dada a distância devo ter-lhe acertado no peito e não morreu logo. Por incrível que pareça os outros macacos ********am com o chefe ferido e sumiram na mata com ele. Fiquei muito impressionado e nunca mais, nem mesmo com insistência do Gunza, atirei em nenhum macaco.

Pelo menos uma vez por mês tinha de deslocar-me a todos os repetidores para fazer a rotina (verificar o seu estado operacional) pois tratava-se das telecomunicações do Estado (CTT) usadas pelo público em geral para contactarem desde Luanda até Huambo e Huila. Era uma grande responsabilidade a minha, por isso, mais tarde causou-me problemas de stess. Gostava do repetidor do Calulo que estava instalado numa pequena elevação no meio de um cafezal. Quando o café estava em flor desprendia um cheiro muito intenso que me deixava meio "atordoado".
ImagemJovem nua no morro da Cela (foto do autor)
Desde sempre fui muito interessado em conhecer os usos e costumes dos nativos angolanos e eles (os nossos ajudantes e os amigos) como tinham plena confiança em mim, contavam-me tudo o que sabiam. Como disse anteriormente, naquela altura em Angola era proibido o fabrico e destilação de bebidas alcoólicas mas os nativos faziam-no sempre às escondidas. Perguntei ao Gunza se ele sabia fazer o quimbombo e o que era preciso.

- "Chefe eu só precisa de farinha de milho, açúcar escuro, um tambor de 20 litros e um tubo de cobre para a destilação".

O milho conseguia ele comprar facilmente mas o aúcar e o cobre não lho vendiam porque desconfiam o fim a que se destinava. Então fui comprar 5 quilos de açúcar escuro (em bruto sem refinar) e o tubo de cobre. Fizemos um alambique com um tambor de 20 litros (usado para o óleo das viaturas) e com o tubo de cobre fiz uma serpentina. Em dois tambores separados colocou a farinha de milho com o açúcar para fermentar. Quando a fermentação atingiu o ponto adequado disse-me que era altura de fazer a destilação. Colocámos duas pedras no chão para suportar o tambor (alambique) e fazer o fogo. Enchemos o alambique com o material fermentado. Colocámos a tampa com a serpentina e acendemos o fogo começando a destilação. O primeiro líquido a sair na destilação era muito forte talvez a 60º enfraquecendo, como é óbvio, à medida que ia destilando e que ele comprovava pelo gosto ou se deitado no fogo ainda ardia. Repetiu-se o processo com o restante material fermentado. Ao todo destilou talvez um litro e meio de quimbombo ou mais.

O sabor era muito áspero comparado com a aguardente ou o brandy importados do Puto (Continente). O Gunza encheu umas garrafitas com o quimbombo que vendeu aos vizinhos e ele e o Paulino beberam o restante. Apanharam todos uma chibadela (bebedeira) danada.

No dia seguinte disse-me:

- Chefe, podemos fazer mais?

- Não, sabes que isso é proibido por lei e não podemos infringi-la porque a responsabilidade aqui é minha. Fizemos isso apenas para eu ver, agora vamos desmontar tudo. O Gunza não se conformou e disse-me:

- Chefe "esses gajo do Governo pensa que sabe muito mas nós podemos fazer quimbombo numa cabaça grande e uma cana de bambu".
ImagemTumbas no "morro" da Cela por cima de uma grande pedra de granito.
Vêem-se as pedras grandes que fecham a entrada das tumba.
(foto do autor 1964)
ImagemO morro que sobrevoava que no cimo tinha as tumbas (foto Net)
- Está bem, faz isso onde quiseres mas aqui na estação não.

Sempre tive muito respeito pelas tradições do povo angolano. Quando a picada de acesso à estação de rádio no morro da Cela teve de ser reparada depois de uma grande chuvada, verifiquei que haviam algumas paredes que tinham sido reforçadas com pedras lascadas de pequeno tamanho o que me pareceu muito estranho. Perguntei ao encarregado onde tinham ido buscar aquelas pedras. Foi ali no morro, nuns montes de pedras que estão por lá. Fui verificar os tais montes de pedras juntamente com o Gunza.

- Chefe, "esses gajo está a tirar as pedra das tumbas (?) (não me recorda do nome que ele lhe deu) dos sobas e dos outros que estão lá enterrados".

- Então explica-me lá isso para eu saber e evitar que por ignorância eles voltem a fazer o mesmo.

Quando morria um soba ou alguém importante no kimbo e como não tinham aqui pedras pequenas soltas no morro, fizeram uma fogueira por cima de uma grande pedra (granito) e depois deitaram água por cima. A pedra lascava-se e era com essas pedras que eles faziam a sepultura (tumba). Põem milongo (composto de ervas medicinais) no defunto para não apodrecer (mumificar), e sentam-no numa cadeira pequena amarrado com landobe (casca de árvore). Colocam junto dele algumas das as suas bicuatas (pertences de valor pessoal) e depois fecham tudo. Os tais montes de pedras são tumbas de sobas ou de pessoas importantes do kimbo. Por respeito, não pedi ao Gunza para abrir a entrada de um para verificar in loco o que estava dentro. Talvez nada ou só as bicuatas podres, porque tanto quanto sei, os africanos não tinham conhecimentos para mumificar como tinham os habitantes da América do Sul.

Mais tarde, quando andava a tirar o brevet, sobrevoei muitas vezes um enorme morro de granito (não me recordo do nome) que ficava perto da pista de Santa Comba, que daria milhões de toneladas de bom granito se fosse explorado. Verifiquei que no cimo havia uma espécie de piscina com água todo o ano e também muitas dessas tumbas.

Dei instruções ao pessoal para que nunca mais tocassem nos tais montes de pedra porque eram sepulturas (tumbas) de pessoas.

As estradas naquela altura ainda não estavam asfaltadas e não era fácil transitar na estação das chuvas mas já se verificavam obras nesse sentido. Acompanhei tudo a par e passo na minha zona de trabalho uma vez que andava frequentemente na estrada. Ainda estava em Santa Comba quando as estradas foram completamente asfaltadas desde Luanda até a Santa Comba prosseguindo até Huambo e depois Huila, interligando todas as principais cidades de Angola. O nosso trabalho ficou muito facilitado em termos de redução de tempo para reparar as avarias principalmente as provocadas por raios na Quibala.
pissarro.home.sapo.pt/memorias10.htm
Avatar do utilizador
Bala Negra
Colaboradores
 
Mensagens: 154
Registado: Quarta Ago 05, 2009 8:52 am

Re: HISTÓRIAS DO WACO KUNGO

Mensagempor Bala Negra em Sábado Out 17, 2009 6:43 am

Continuação...
Como disse anteriormente, a minha esposa estava colocada numa escola em Luanda e, no fim do período escolar 62/63 conseguiu, por intermédio do director dos CTT, transferência para Santa Comba. Como naquela altura não era possível conseguir uma habitação na vila e, como estava hospedado na Pousada do Monte fomos a viver para um dos bungalows da Pousada.
ImagemPousada do Monte em Santa Comba(foto Memórias de Angola, João Loureiro)
Nessa altura já tinhamos dois filhos. A minha esposa foi colocada como directora da escola primária Maria do Resgate Salazar. Naquela altura, Santa Comba era um vila pequena com poucas casas comerciais onde os colonos do chamado Colonato da Cela com cerca de uma dúzia de aldeamentos iam fazer as suas compras. No colonato havia uma fábrica de queijo tipo flamengo que, em abono da verdade, não sei porque razão, não tinha grande qualidade. O técnico responsável pelo bom funcionamento da fábrica era um cidadão holandês meu conhecido. O queijo era conhecido em Angola como "Queijo da Cela".ImagemEscola Maria do Resgate Salazar em Santa Comba (foto do autor).
Normalmente quando não havia problemas com o sistema de telecomunicações permanecíamos no edifício na base do morro onde estavam instalados os geradores que alimentavam o sistema.

Do nosso grupo que fazia caça submarina em Luanda, fazia parte o Carlos Betencourt Faria muito conhecido em Luanda por ter instalado na Mulemba o Observatório da Mulemba que era muito visitado por ter muitas coisas interessantes sobre ciência e outras coisas mais. Numa das visitas que frequentemente fazia ao meu amigo na Mulemba, contou-me que conseguia com uns receptores para onda curta que a marinha lhe tinha oferecido, escutar os satélites russos na banda de HF e, se a memória não me falha depois de tantos anos, parece que um dia escutou a voz de um astronauta russo cuja nave se estava desintegrando. Disse-me ainda que os americanos tinham instalado nos seus satélites emissores na banda de VHF 136 -138Mhz mas que naquela altura ele não tinha possibilidades de conseguir um conversor para essa frequência.

Fiquei entusiasmado com a ideia e, como eu era especializado em VHF, ser-me-ia muito fácil montar um conversor para essa frequência. Mandei vir o material dos EUA e montei o um conversor para a recepção das frequências entre 136 -138MHz. Dado o lugar onde me encontrava praticamente sem interferências, uma antena do tipo Yagi de 3 ou 4 elementos seria mais que suficiente. A recepção era feita no meu velho receptor Halicrafters que modifiquei para lhe aumentar a sensibilidade. Depois do equipamento instalado, quando tinha tempo, passava horas à escuta varrendo a frequência para ver se ouvia algum sinal. Os EUA estavam praticamente no início da exploração espacial. ImagemEstação terminal VHF (diesel) vendo-se a antena Yagi vertical de 4 elementos,
o campo de milho e as bananeiras. Ao fundo os aldeamentos do colonato (foto autor). Um dia comecei a ouvir um sinal talvez com 400-500Hz e que depois foi desaparecendo lentamente. Não havia dívidas que era o beacon de um satélite americano. Telefonei ao meu amigo Carlos relatando-lhe o acontecido. Ficou muito entusiasmado por eu ter conseguido. No dia seguinte ouvi novamente o mesmo sinal do satélite, gravei-o e enviei a fita magnética para a NASA afim de o identificarem e também oferecendo os meus préstimos para receber os sinais dos satélites em Angola se eles me fornecessem o equipamento adequado
ImagemEscutando os satélites americanos na estação VHF (foto autor).
Tive como resposta a carta que podereis ler. Passaram a enviar-me frequentemente por via aérea as órbitas de todos os satélites que tinham no espaço. Havia um, o ECHO II, que era um balão com um diâmetro de 30 metros revestido com uma fina camada metálica para reflectir a luz solar e que se podia ver à noite a olho nu. Pelo cálculo da sua órbita verifiquei a hora que passaria à noite sobre Angola. Fui à estação propositadamente à noite para poder ouvir e provavelmente ver o ECHO II. À hora calculada comecei a ouvir o sinal no início com baixa intensidade aumentando à medida que se aproximava da vertical podendo até ouvi-lo no altifalante do receptor. Saí para o exterior da estação observando o céu. Então vi uma pequenina luzinha semelhante a uma pequena estrela movimentando-se na imensidão do espaço nocturno. Foi uma sensação inesquecível ! Era, naquele momento, o primeiro português em Angola ou mesmo no Continente que tinha escutado pela primeira vez não só o sinal do satélite americano ECHO II como também o tinha visto. Com o cálculo das órbitas era muito fácil escutá-lo nas horas certas.

No dia seguinte, comuniquei ao meu amigo Bettencourt o que aconteceu. Mais tarde, ele montou também no Observatório da Mulemba um sistema de recepção como o meu mas com uma antena mais potente e com equipamento que lhe permitia receber imagens dos satélites de metereológicos.ImagemCarlos Bettencourt Faria
Infelizmente, em 1975, já em Luanda, durante a guerra civil entre os partidos, perdi contacto com ele e mais tarde soube que tinha sido barbara e traiçoeiramente assassinado à catanada no Centro da Mulemba. O Carlos era um investigador e o trabalho que fez no Observatório Mulemba seria apreciado em qualquer país civilizado mas não num país de assassinos e selvagens. Não faço ideia o que terá sido feito do material que existia no Observatório, provavelmente os camaradas cubanos certamente lhe deram algum destino.

Por fim conseguimos alugar uma casa na Vila que nos permitia um pouco mais de comodidade. Entretanto nasceu a minha filha no Hospital da Cela. ImagemEu com os meus dois filhos na casa que alugámos (foto do autor).
Quando alugámos a casa já podíamos cozinhar. Como na picada do morro no tempo das chuvas havia muitos colelhos e perdizes resolvi caçar alguns. Por incrível que pareça e muitas pessoas que me lerem pensarão que estou a inventar histórias da carochinha, era muito fácil caçar coelhos à noite na picada no cimo do morro. Ia lá à noite no jeep com o meu fiel ajudante Gunza. O capim, na picada estava alto e só se viam os trilhos deixados pelos rodados do jeep. Como tinha chovido, os coelhos apareciam na picada e corriam pelos trilhos não se escondendo no capim porque estava todo molhado. Diminuia a velocidade do jeep até parar mas deixando sempre o motor a trabalhar. Os bichos ficavam encandeados pelas luz dos faróis e paravam também. Então o Gunza saía do jeep empunhado um *** dirigindo-se para o coelho pelo lado escuro sem luz e, aproximando-se lentamente por detrás, desferia-lhe uma valentíssima *****da do pescoço e era uma vez um coelho. Caçávamos apenas o necessário. Esses bichos selvagens estavam cheios de carraças que era necessário tirar.

Com as perdizes o modo era diferente. Íamos ao morro em pleno dia e quando apareciam aos bandos também não gostavam de entrar no capim molhado. Corriam pelos trilhos. Abrandava a velocidade e depois parava o jeep deixando o motor a trabalhar. Como no caso dos macacos, abria lentamente a porta, sacava da arma e era um vez uma pediz. Estas aves selvagens estavam cheias de filária por baixo da pele mas depois de esfoladas davam um bom prato. É claro que o Gunza aproveitava sempre e insistia comigo para irmos ao morro todos os dias pois era certo e sabido que nesse dia havia caça para todos!

Não me recordo exactamente de quem partiu a ideia de se formar um Aero Clube na Cela. Juntámos alguns sócios e o capital para comprar uma avioneta usada ao Arero Clube de Moçamedes (Namibe), ao tempo suponho que por 150.000$00. Mandámos fazer-lhe uma grande revisão em Luanda e, por isso, ficou em condições de voar em segurança. A avioneta era um Piper Super Cruisier. O primeiro instrutor que tivemos era funcionário da Junta na Cela.
ImagemAvioneta do Aero Clube da Cela (foto do autor).
A primeira vez que voei na avioneta com o instrutor foi uma decepção. A avioneta tinha dois lugares: um à frente e outro atrás. O instruendo ia no lugar da frente. Sobrevoavamos um campo de arroz quando o instrutor puxando o manche para trás disse: assim sobe. Senti uma impressão desagradável e afundei-me no assento deixando praticamente de ver. Seguidamente, levando o manche todo à frente disse: e assim desce. Se não fosse preso com o cinto à cadeira bateria com a cabeça no teto. A sensação foi ainda mais desagradável que a anterior. Quando aterramos disse ao instrutor:

- Desculpe mas eu não dou para isto porque se fosse eu a pilotar a avioneta certamente me despenharia no solo porque eu até deixei de ver.

O instrutor esboçou um sorriso e explicou-me que se fosse eu a fazer aquilo não o sentiria assim. Mais tarde comprovei que ele tinha razão. Já tinha cerca de 10 horas de instrução quando numa manhã o instrutor me mandou voar para a pista da DTA na Cela. Nós tínhamos uma pista particular junto da vila de Santa Comba que tinha sido construída pela Junta. Disse-me para aterrar na pista mas fazendo uma aterragem curta. Seguidamente saiu da avioneta, fechou a porta e disse:

- Siga, de que está à espera? Fiquei surpreendido porque não esperava ser largado tão cedo e apenas lhe perguntei:

- Há quanto tempo você não toca no manche quando voamos? Respondeu-me que já alguns dias que ele nem sequer mexia nele. Perante essa resposta meti motor a fundo e descolei dando uma volta à pista e aterrando novamente, parando onde ele me estava esperando. Entrou e mandou-me voar para a pista junto da vila. Tinha à minha espera a malta toda e quando saí da avioneta despejaram-me um balde de água fria por cima. Era a tradição! Afinal todos sabiam que eu ia ser largado naquele dia. Fui o primeiro do grupo a ser largado.
ImagemEu em Santa Comba com 32 anos de idade quando tirei o "brevet" (foto autor).
Quando o tempo estava em condições, voava muitas vezes até à Quibala e, por vezes, fazia voos rasantes por cima dos camiões que transitavam na estrada. Uma dia um deles perguntou num restaurante da vila quem era o maluco que andava numa avioneta a voar por cima deles.

Estava pronto para fazer o exame final mas tinha de concluir pelos menos 30 horas de voo. Gastava as horas a voar por cima do arrozal treinando manobras mais complicadas entrando propositadamente em perda com a devida segurança, vir alto para a pista e perder altura rapidamente glissando para aterrar exactamente na cabeceira (início) da pista.

Antes do exame fizemos uma viagem até Novo Redondo (Sumbe) mas o instrutor disse-me logo. Eu vou consigo mas não toco em nada, você é que se tem de se desenrascar. E desenrasquei–me mesmo.

Chegou o dia do exame final mas apenas só para alguns os que estavam aptos. No dia marcado apareceu o examinador. Fiquei surpreendido, pois era o meu velho amigo Pinheiro antigo colega radiotelegrafista dos CTT que entretanto tinha ido para a DTA. Era uma pessoa avantajada e, por isso, lhe chamávamos imbondeiro. Quando entrou para a avioneta eu disse-lhe:

-É pá será que esta ***** descola com os dois?

- Não te preocupes e toca lá isso para a frente. Meti motor a fundo e descolou mesmo. Demos uma volta à pista, mandou-me fazer as manobras clássicas a que já estava habituado e aterrámos. A partir daquele momento eu já era um piloto de teco-teco como dizem os nosso irmãos brasileiros. Passados dias recebi o brevet da Direcção dos Serviços de Aeronáutica Civil. Infelizmente esse meu amigo já não pertence ao número dos vivos. Morreu aqui em Portugal.ImagemAs minhas "asas" de piloto que guardo como recordação (foto autor).
Como já tinha feito 4 anos de permanência na estação de Santa Comba pedi a transferência para Luanda visto que o técnico que estava lá colocado era um novato. Como a esposa dele também era professora foi tudo muito simples. Trocaram de escola e eles foram viver para a nossa casa em Santa Comba e nós para a deles em Luanda na rua Paiva Couceiro em frente à Missão de S. Paulo.

As nossas bicuatas foram transportadas numa das camionetas dos serviços de abastecimento e nós fizemos a viagem num Fiat 800 que tinha comprado novo havia pouco tempo no Guedes & Almeida em Luanda. Como estava habituado a conduzir um Land Rover não me sentia em segurança num Fiat 800, por isso vendi-o e comprei um Peugeot 204.


Fonte da pesquisa:
Avatar do utilizador
Bala Negra
Colaboradores
 
Mensagens: 154
Registado: Quarta Ago 05, 2009 8:52 am

Natal na Cela - 1973

Mensagempor Tundavala em Segunda Out 19, 2009 4:43 pm

Amigo Bala Negra

O seu relato é verdadeiramente impressionante! Tanto mais que toca em assuntos que ainda mexem comigo.

O caso Carlos Bettencourt Faria é um deles. Conheci-o pessoalmente ainda jovem. A simpatia, a paciência, a vontade de ensinar, o amor que punha naquilo que fazia deixaram-me vivamente impressionado e, não tenho dúvidas, foi uma das pessoas que contribuiu influenciou a minha maneira de ser e estar neste mundo. A sua morte é só mais uma a juntar ao rol de vis atrocidades cometidas contra pessoas que nada tinham a ver com a política.
No caso especial dele, porém, por se tratar de um cientista, por se tratar de uma pessoa afável que acolhia com um sorriso aberto todo e qualquer um que por ali aparecesse, a quem mostrava tudo com amor e entusiasmo, o assassínio dele é, sem sombra de dúvidas, das maiores selvajarias cometidas em Angola. O governo de Angola e o actual por maioria de razão, atendendo ao clima de concórdia que diz prosseguir, mesmo que argumente ser alheio aos factos, bem andaria se apresentasse publicamente um pedido formal de desculpas pelo sucedido. Não remediaria o erro e a atrocidade, mas ganharia certamente bastante em credibilidade...

Gostaria agora de apelar às suas memórias para me ajudar em detalhes que me faltam num episódio que se passa na Cela no Natal de 1973.

Um cunhado meu, Fernando Gouveia foi professor de Educação Física, grande amante dos desportos, trabalhou numa escola na Cela que, suponho, também era internato ou algo parecido e era dirigido por padres. Falta-me muita informação sobre isto. O que sei é que havia lá muita criança orfã...
Ora ele, impossibilitado de ir a Luanda juntar-se à família, devido às muitas crianças que ficaram sob a sua responsabilidade, sugeriu que nós lá fôssemos passar o Natal.
Todos nós achámos a ideia espectacular mas os pais dele, meus sogros, ficaram um tanto apreensivos... Convém explicar aqui que o Fernando tinha, só, mais seis irmãos!!! Eu ponho os nomes para dar uma melhor ideia e exercitar a minha memória que já se vai escapando pelos intervalos das teclas...
Temos: A Adelaide, a Gabriela (então minha patroa), o Norberto, a Paula e o Paulo (gémeos) e a piolha Cristina!
Agora junte ao “rebanho” outra piolha (a minha filha Ana Raquel com dois anos), mais outra Gabriela, avó daqueles todos, matriarca, ex-professora primária durante décadas no Sever do Vouga...
Há que fazer bem as contas! Os meus sogros (2), eu, a minha piolha e a “matriarca” (3), os irmãos do Professor (6), dá, exactamente, uma equipa de futebol!!!
Transportar, instalar e alimentar esta malta toda? Isso vai ser um problema!
Resposta do Fernando Gouveia, com a maior das calmas: Oh Pai! Não se preocupe com isso! Tem cá espaço para todos e até podiam vir mais! Quando cá chegarem logo vêem!
Bom. E lá fomos! E foi uma festa de arromba!
Havia onde dormir para todos, a cozinha era enorme, o refeitório maior ainda! E o mais engraçado era a quantidades de “putos” que andavam por ali e que começaram logo a brincar com os que nós tínhamos levado. As crianças dão lições de convivência que os adultos - distraídos e com as cabeças atulhadas de ideias que não são deles - deviam prestar mais atenção... Adiante!
Dia 24 de Dezembro de 1973.
Durante a tarde andámos a arrumar toda a tralha de brinquedos que o Fernando tinha encomendado para levarmos para a garotada de lá. Já não me lembro bem, mas era um montão de coisas!
Perante o dilema de como distribuir tudo aquilo eu, que já era maluco nessa altura (agora estou pior...) tive uma ideia da breca: Fui às arrecadações buscar um carrinho das obras, forrámo-lo todo com papéis de Natal e fomos escondê-lo na dispensa...
Consoada! Uma mesa cheia, de gente e de comida! Uma jantarada daquelas! Lembro-me da iluminação não ser das melhores, por isso, lá para os fundos da sala, via umas luzinhas a brilhar que eram os olhinhos da garotada toda a refastelar-se com rebuçados, chocolates, passas, nozes figos, amêndoas, enfim, aquilo com que se decora uma mesa de Natal...
Jantar no fim, vamos até à dispensa - só dois ou três dos mais crescidos – para me ajudar a vestir de Pai-Natal! Quando fiquei só, avanço para a sala empurrando o carrinho cuja carga quase me tapava, tal era a altura de embrulhos!!!
Acho que não sou capaz de descrever o que vi e o que senti. As expressões, os espantos, as alegrias em todas aquelas carinhas!!! Eram olhos esbugalhados, brilhando como faróis, eram bocas abertas que se abriam até esconder as orelhas, havia uns que se chegavam para trás, outros que se debruçavam para a frente... Havia quem se encolhesse e quem se fosse levantando, assim, em câmara lenta... ou como se uma mola empurrasse uns para cima e outros para baixo!
E notem: Isto inclui os meus cunhados mais pequeninos, para quem a surpresa também foi total. E acho que havia adultos com uma lágrima atrevida a querer saltar cá para fora...

Já andava para contar este episódio há muito tempo, mas evitava por me faltarem dados que acho importantes. Só que, há dias, a minha filha, Ana Raquel, agora com 37 e que, claro não se lembra disto, contou-me que a Tia Paula, na altura com uns oito ou nove, lhe falou deste caso, com o seguinte comentário que me comoveu e me fez ganhar coragem para contar tudo isto:

Raquel! Aquele foi o Natal mais bonito da minha vida! Nunca mais tive outro igual!
Avatar do utilizador
Tundavala
Moderador de sala
 
Mensagens: 149
Registado: Sábado Set 19, 2009 5:36 pm
Localização: Loures, mas à sombra de um Imbondeiro!
---------


Voltar para SALA DO WACO KUNGO - KUANZA SUL

Quem está ligado

Utilizadores a navegar neste fórum: Nenhum utilizador registado e 0 visitantes

cron