Histórias passadas no Lobito...

APESAR DAS NOSSAS HISTÓRIAS TEREM MUITO EM COMUM, ESTOU CERTO DE QUE SERÃO TODAS DIFERENTES. REGISTA AQUI O QUE ACHARES RELEVANTE SOBRE A TUA PASSAGEM OU PERMANÊNCIA EM ANGOLA

Histórias passadas no Lobito...

Mensagempor Tundavala em Terça Set 22, 2009 11:38 pm

1. MURO BAIXO, VIZINHO CHATO, NATUREZA FORTE!!!

De 1972 até ao fim de 1974 morei no Lobito, logo na primeira daquelas casinhas simpáticas junto à entrada de quem vem da Catumbela/Benguela. Nas traseiras, junto à cozinha, um muro demasiado baixo dava para o quintal dos vizinhos:
Era uma família barulhenta, com uma carrada de putos que se penduravam no muro a observar o que eu fazia. Gosto muito de crianças mas também prezo muito a privacidade...
Já não me lembro bem onde, descobri uma trepadeira que dava umas flores bonitas e apanhei um montão de sementes. Estendi e cruzei uns arames da parede da casa à arrecadação (com os putos do lado muito intrigados e curiosos...) e coloquei todas as sementes no alegrete junto ao tal muro, na esperança que algumas vingasssem e viesse, deste modo, a "compensar" a baixeza do muro.

Três ou quatro meses mais tarde, já não sei precisar, mas sei que foi rapidíssimo, todas as sementes vingaram e desataram a trepar pelos arames tapando por completo as vistas de uma casa para a outra.
Ah! Fenomenal vitalidade daquele clima! Como tudo ali crescia depressa e com força!!!

A vizinha ainda esboçou umas reclamações com a quantidade de hastes que se viravam para o quintal dela...

Minha Senhora, é fácil: É só ir cortando o que estiver do seu lado!
E também pode ir apanhando as flores, que por sinal deitam um perfume que é uma maravilha!!!
última vez editado por Tundavala s Quarta Set 23, 2009 1:53 am, editado 1 vez no total
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Mensagempor Tundavala em Terça Set 22, 2009 11:46 pm

2. FAQUINHAS E CATANAS: ANGOLA FIM!

Na mesma casa que referi antes, numa data que não sei, nem quero saber, mas que é fácil de definir... disseram-nos os vizinhos: Amanhã, domingo, vai ter aqui uma manifestação. Vão festejar a entrada da delegação do MPLA no Lobito.

Ao jantar, pensando no assunto, disse para a patroa: O melhor para amanhã é irmos até à praia, compramos uns petiscos e só voltamos lá para o fim do dia.

Assim fizémos. Quando saímos de casa já estava montado um arraial daqueles!

Tirei o carro do quintal e parei à porta, notando que era atentamente observado por uns "comissários" e umas "comissárias" com olhar feroz, mais estas que aqueles. E lá vem a Gabriela com a nossa "piolha Raquel" ao colo, na altura com 3 anitos, ainda meio a dormir.

Só que, ao entrar no carro, a patroa se lembra que lhe falta um abre-cápsulas para as Coca-Colas e uma faca para cortar o frango. Volta a casa, saca das ditas ferramentas e volta a saír.

Imaginem a cena: Sai uma branca com uma faca na mão para o meio dos tais "comissários" e "comissárias". Grita logo uma toda histérica: "Camaradas! Ela vem armada!"

Foi o fim da picada!!! Tive de me armar da maior calma possível para explicar a um fulano, que por sinal tinha um ar calmo e mais inteligente que os restantes que aquilo não era uma arma. Era uma faca da cozinha e, por sinal, das mais pequenas...

Vendo que a coisa acalmava, não resisti e disse-lhes: Se vocês estão com medo de uma faquinha dessas, não estou a ver como é que vão tomar conta do país das catanas...

Saimos dali, comprámos o frango, as batatas e as Cocas e fomos para a praia.

Sentado na areia, à sombra de uma palmeira, mais chateado que um perú em véspera de Natal, tomei uma decisão. Vamos embora daqui! Estes gajos vão lixar esta ***** toda e isto vai ser um banho de sangue.

Não me acho bruxo nem mais esperto que os outros... Só vivi em Angola desde 1952... E passei pelo 1961 e seguintes. Só já não passei o 1975.

Vendi o carro mais os tarecos, comprei as passagens e cheguei a Lisboa a 3 de Janeiro de 1975.

Angola fim!
última vez editado por Tundavala s Quarta Set 23, 2009 1:55 am, editado 1 vez no total
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Mensagempor Tundavala em Quarta Set 23, 2009 12:12 am

3. SOMOS UM POVO DE POETAS...

Como disse já noutro local, trabalhei na Sorefame, no Lobito.

Convém explicar que a Sorefame de cá fazia metalúrgia pesada mas, principalmente, Carruagens de comboios.

A de lá, também fazia metalúrgia pesada (as tubagens das barragens de Angola eram quase todas lá feitas), mas a actividade mais permanente era a reparação e constração naval semi-ligeira (Rebocadores, Arrastões, Bacalhoeiros, coisas desse tipo...)

Isto para perceberem que, ao longo do estaleiro, havia chapas de aço enormes, em tamanho e em espessura, que eram arrumadas de pé. Sim, porque se as deitas, nunca mais as levantas...

As chapas eram marcadas para os cortes com um giz grosso...

Como também devem saber, aquela zona era tida como sendo "território" da Unita... e esta era, ou constava-se, apoiada pela China.

Não sei bem as datas, mas entre o 25 de Abril e o Natal (quando me vim embora), apareceu a giz numa das chapas logo à entrada (para que fosse visto por todos), a seguinte quadra:

Não te apresses angolano,
A correr com o português...
Pois verás o teu engano,
Quando cá tiveres o chinês!


Nunca soube quem era o poeta, nem o "político"... Como dizia aquele cábula num teste:
É um poema anónimo de autor desconhecido!!!

Aqui lhe deixo um tardio mas sincero abraço de parabéns:
Pela rima, pela sabedoria e pela acutilância!!!
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Mensagempor Tundavala em Quarta Set 23, 2009 12:46 pm

4. POETAS (2)

E já que estamos rimando,
podemos ir actualizando...
perco em rima, qualidade,
mas ganho na realidade!


Não te apresses angolano,
Despachand' o lusitano...
Pois verás o teu engano
ao "mamar" com o cubano!
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Re: Histórias passadas no Lobito...

Mensagempor maria João Carinhas em Quinta Dez 09, 2010 9:31 pm

Observando o tópico...Histórias passadas no Lobito...

Numa daquelas tardes em que já se chega a casa cansada, sem vontade de fazer chega o que for,
tive de tratar das crianças, marido e do jantar.
Depois de tudo feito, pedi ao meu marido que me levasse o saco lo lixo ao contentor que ficava mesmo
perto de casa. Só fiz uma recomendação...o saco está muito cheio, se rebentar por favor pousa, não suges as escadas.
Já tinha tomado banho quando o meu marido grita da escada... GennnnnnnnnnnnnnnnnnnnYYYYY o saco rebentou!!!
Parei de respirar, lá tenho eu de ir limpar as escadas.
De baldee vassoura na mão desci já meio irritada...quando cheguei ao lugar do acidente, escorreguei num macarrão, e...........
fui escada abaixo. Podem imaginar a cena? Meu marido ria que nem podia se conter, eu cheia de macarrões dolorida do tombo...espumava de raiva.e ainda tive de limpar as escadas todas,porque ele quando o saco rebentou não parou, continuou a derramar o lixo pelo trajecto percorrido.
São estas lembranças que nos falam do quanto éramos felizes no Lobito, mesmo tendo de limpar as escada.
bj
maria João Carinhas
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