O RIO KEVE

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O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:53 am


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RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE

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O rio Queve pertence às bacias costeiras do Centro-Oeste de Angola. A sua mais longa nascente situa-se próximo de Boas Águas/Vila Nova- onde passa a ferrovia de Benguela- a 45 km a Este da cidade de Huambo. O rio tem um estirão de 505 km a que corresponde uma bacia hidrográfica de 23 870 km2 . Desagua ao sul de Porto Amboim. Desenvolve-se segundo dois eixos o primeiro no sentido NW com 340 km e o segundo no sentido W com 165 km. A bacia ocupa cerca de 1,5% do território de Angola (1 246 700 km2 ). Imagem Bacia hidrográfica do rio Queve no total angolano. É uma bacia costeira, central. Ocupa cerca de 1,5% da área de Angola. Na relatividade continental é um rio pequeno; no contexto angolano é uma bacia média. Em termos de recursos naturais é uma bacia rica, onde os chamados produtos tropicais encontram boas condições climáticas e edáficas. Possui um formidável potencial hidroelectrico. O turismo poderá ser uma fonte de riqueza, a par com a agricultura,pecuária e floresta exótica.A abundância de energia potencial (hidroeletricidade) poderá atrair indústrias. O Amboim,no terço final, cujo centro de gravidade é a Gabela, é uma região lindíssima. Marcelo Caetano,primeiro ministro de Portugal em 1969, quando por ali passou em 1945, como Ministro das Colónias, escreveu:«O Amboim é o Buçaco decuplicado».
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:54 am

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O Queve ou Cuvo foi cartografado no séc 16 e foi sempre um rio de referência em relatórios muito antigos.
António de Oliveira Cadornega escreveu no séc 17 três alentados volumes, cuidadosamente anotados em 1940 por José Matias Delgado e Dr.Alves da Cunha: História Geral das Guerras Angolanas, cada volume contendo em torno de 600 páginas. A ultima edição em 3 volumes foi editada em 1972 pela antiga Agência Geral do Ultramar. Trata-se de uma obra literária valiosa que aborda a história de Angola em tempos recuados (séc 17). Pode dizer-se que, historicamente, é a maior obra de referência, pese embora alguns exageros e estar escrita sob a otica dos portugueses de então. Mas é,indiscutivelmente, uma obra de grande importância, até mesmo em termos do continente africano.


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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:55 am

Cadornega chegou a Angola em outubro de 1639, tendo enveredado pela carreira militar onde atingiu em 1649 o posto de capitão que lhe foi conferido pelo governador Salvador Correia de Sá. Viveu 28 anos em Massangano, tendo chegado a juiz ordinário em 1660. Morreu em Luanda em 1690. Pode dizer-se que Cadornega é o primeiro historiador da História Escrita de Angola. E é, também, um dos primeiros colonos que se estabeleceu definitivamente em Angola, terra onde “deixou os ossos”.
Na obra citada há muitas referências sobre os vários rios de Angola. Sobre o rio Queve escreveu Cadornega:«O que dizião os antigos conquistadores, que alguns negros antigos dos quilombos dos Jagas que vierão da terra dentro, dizião que de huma lagoa que estava no íntimo deste sertão sahião dela quatro rios caudalozos, que hum deles era este rio Coamza, que descrevemos, outro o rio Cuneni, que fazia sua demora atravessando no reino de Benguella as provincias dos Quimbundos e o Hila, desagoando com suas caudalozas agoas na costa daquele reino; mas não dizião em que parte se metia no mar; o outro era o rio Cubo tambem caudalozo, que pára com sua corrente em o mar, em terras do Mani-Quicombo passando pella província dos Sembis; e o quarto era o famozo e caudalozo rio Coango, que este apelido lhe dá a gentilidade pella terra dentro, e onde desagoa suas numerosas agoas no mar em o Porto do Pinda, vindo fazendo o curso de suas correntes com espaçoza largura pellas costas do Quilombo do Jaga Casangi, pelo quilombo da rainha Ginga e reino de Matamba».
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:55 am

Em outra referência Cadornega diz:«...onde pára com suas correntes o rio Cubo e suas numerozas lagoas, pagando com elas seu tributo ao mar...» «...e pasando o rio Cubo da banda dalem do sertão, está o nosso reino de Benguella com sua cidade São Phellipe beira mar, sita em a provincia chamada dos Quimbundos, com a qual confina a dos Sumbis, e pello sertão dentro com a provincia do Gemge, toda povoada de quilombos de jagas, outros lhe chamão os Quillengas».
E mais adiante:«...e por diante Benguella a Velha, que em hum e outro porto se faz negócio de peças e marfim: aqui entre dous senhorios pára a corrente das suas doces e abundozas agoas o rio Cubo, misturando a sua doçura com o salgado, sendo isto na provincia dos Sumbis, hindo correndo o do Libolo, até onde desagoa no mar o rio Longa, que nesta paragem tributa agoas ao mar desta costa, e pára com as suas arrebatadas correntes; e tambem se diz tem seu nascimento na lagoa ou brejo, de que diz algum do gentio sahe o Zairi, Coamza e Cuneni, e algumas pessoas que discursarão esta materia tem para si serem braços do Nilo;»
No governo do Marquês de Pombal governou a colónia Inocêncio de Sousa Coutinho de 1764 a 1772 . Ele procedeu a um reconhecimento cartográfico de Benguela até Cabo Negro hoje pertencendo à Namíbia. Naquele relatório o rio Queve é mencionado várias vezes:«O rio Cuvo, que faço dividir os dois governos,corre junto a Benguela-a-Velha, e logo vizinhas a este estão umas minas de cobre excelente,que os negros não deixam ver, mas que ao passo de se marchar na sobredita comunicação deve o oficial que comandar a marcha examinar cuidadosamente, e o fará sem algum risco...».
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:55 am

No séc 18 os maiores objectivos de Portugal em Angola eram o completo levantamento cartográfico da linha litoral, e posterior edificação de fortalezas na costa, em locais abrigados, e a procura exaustiva de metais preciosos. Corria a lenda de que em Cambambe havia prata em grande quantidade.Novo Redondo (actual Sumbe) despertava a curiosidade e a cobiça dos europeus. De facto foi explorado um cobre vermelho, no rio Quicombo, de valor próximo do ouro. Como era previsível esgotou-se em pouco tempo.
Fundamentalmente o que mais interessava era descobrir um bom local para salvaguarda da navegação marítima. Já vimos, em anteriores ensaios, que a costa de Angola é lisa, com pequenas baías nas restingas originadas pelos rios costeiros que se precipitam dos planaltos.
Logo nos primeiros reconhecimentos se verificou que o rio Queve não “dava entrada” mesmo para barcos de muito pequeno calado. Nem sequer para canôas. A 40 km da sua foz destacam-se, imponentes e vigorosas ameaçando qualquer embarcação, as Cachoeiras do Binga com mais de 15 m de altura e muito caudalosas. Morriam ali as esperanças da Corôa Portuguesa em querer demandar o interior onde constava que havia inúmeras minas de prata.
Como já enfatizámos era, em termos práticos, quase impossível “subir” para os planaltos.A evidente inadaptabilidade de animais de tiro ou carga (cavalos, burros e bois) tornava impossível a ocupação do interior de Angola. Tudo agravado com o maior inimigo dos portugueses: o clima mortífero carregado de doenças desconhecidas a maior parte.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:56 am

Se até 1885 prevaleciam aqueles objectivos- baías de bom abrigo e minas de metais- a partir daquele ano passou a ser prioritária a ocupação efectiva do interior. C umprir o estabelecido na Conferência de Berlim em 1885 era o objectivo principal: instituir-se rapidamente a autoridade portuguesa nos novos territórios delineados em Berlim.
Era com sofreguidão que se procuravam rios “calmos”onde se pudesse navegar com uma certa segurança. Em 1885 já o rei da Bélgica Leopoldo II se tinha apoderado do Congo Belga (actual República Democrática do Congo) porque neste país os rios, enormes e caudalosos, são “mansos” (com muito pouca inclinação) dando aso a uma navegação fluvial com relativa facilidade. Isto permitiu uma fácil ocupação militar através de pequenas canhoneiras adaptadas para os rios africanos. Estas canhoneiras possuiam, à frente e à ré, dois pequenos canhões que provocavam o pânico entre os aguerridos africanos quando estes faziam cargas tumultuadas sobre as pequenas e móveis fortalezas fluviais.
Desde Cadornega (1680) até fins do séc 19 pouco ou nada se alterou sobre o conhecimento do rio Queve. Em 1890, na sequência da Conferência de Berlim(1885), os reconhecimentos do interior de Angola passaram a ser primordiais para a Corôa Portuguesa com o objectivo de se efectuar uma “Ocupação Efectiva” como estabeleciam os artigos da Carta final da referida Conferência.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:56 am

Em 1898 Alfredo Filipe de Andrade regente agrícola (engenheiro-técnico agrário hoje) recebeu a incumbência de efectuar um reconhecimento exaustivo do rio, procurando localizar trechos que fossem navegáveis, mesmo sem inter-ligação. Este engenheiro residia em Belmonte (depois Silva Porto,actual Cuito) um povoado bisonho no centro de Angola a caminho de se tornar sede de distrito e depois cidade em 1935.
Alfredo de Andrade deixou um relatório acompanhado de um mapa desenhado por ele. Apesar dos fracos recursos de que dispunha, os dados por ele colhidos aproximam-se muito da realidade. Fez o percurso todo a pé recorrendo, algumas vezes quando se encontava doente, a um boi de montada. Cavalgar um boi de montada era de um incómodo atroz. Os europeus só o faziam em último recurso, quando já estavam muito debilitados pelos febrões do paludismo ou diarreias provocadas por alimentos deteriorados ou águas estagnadas. Quando não havia bois, porque morriam sistematicamente, o recurso era a muito criticada tipoia. A tipoia salvou muitos europeus e nem tudo se cercou de violências: muitos africanos carregavam os europeus doentes por solidariedade.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:58 am

RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE
Alfredo de Andrade assinalou o afluente Cuito (não confundir com o outro Cuito que deu o nome à antiga cidade de Silva Porto, nem com o Grande Cuito mais ao sul, afluente do rio Cubango) destacando o seu grande caudal. Trata-se de um rio, na margem esquerda do Queve, que recebe as águas da vertente oriental da serra do Moco (2620 m) a maior altitude de Angola e que passa ao lado da vila de Quipeio. Em um trecho deste rio destaca-se a célebre Ilha dos Amores, um ponto turístico para pic-nics.
Alfredo de Andrade destacou vários fazendeiros europeus que se dedicavam à fabricação de aguardente. Esta era a maior fonte de receitas para os europeus que se aventuravam para o interior. Seria de pouca duração esta fonte de lucros. Em 1919 em Saint Germain-en-Laye foi revisto o regime sobre bebidas alcoólicas em África e foi estabelecido um protocolo proibindo o seu fabrico, excepto para a África do Sul, Argélia (onde havia milhares de franceses vivendo da vinha) e a Líbia(onde havia colonos italianos). Era o fim das destilarias em Angola, único suporte económico dos europeus A comissão, reunida em Saint Germain-en-Laye, que proibiu o fabrico de aguardente em África, foi uma ancestral das comissões que se lhe seguiram em Bruxelas, a capital da União Europeia. Parece que ali, desde sempre, gostam de proibir... e de legislar até leis qua vão contra o bom senso. Exemplo actual: a célebre lei que estabelecia o tamanho da fruta, sabendo-se que a fruta “torta” e pequena nunca “apanhou” insecticidas nem pesticidas e que é uma fonte de receita dos pequenos agricultores.
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Mapa do levantamento topográfico efectuado por Alfredo de Andrade em 1899. Foi a primeira cartografia da bacia do rio Queve. Todo o percurso foi feito a pé, já frisámos em artigos anteriores que em Angola não havia cavalos ou burros devido a doenças mortais e fulminantes. Apesar dos pouquíssimos recursos disponíveis,em transportes e comida, e das doenças, com a sempre omnipresente malária, este mapa aproxima-se bastante da realidade. A carta aerofotogramétrica 1/100 000 (484 folhas), inteiramente executada por angolanos a partir de 1950, completou com rigor este exaustivo e primitivo trabalho topográfico.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:59 am

Gente humanitária a daquele tempo, preocupada com os estragos do alcoól nos africanos. Apenas um pormenor: a lei garantiu o consumo das zurrapas que se fabricavam um pouco por toda a Europa. E Angola passou a receber os vinhos e aguardentes da Metrópole, apelidados, jocosamente, de “vinhos para pretos”. Era o fim do desafogo financeiro de muitos e pequenos fazendeiros angolanos. A partir desta proibição não mais se enriqueceu em Angola. As grandes fazendas pertenciam a oligarquias metropolitanas. Estas, sim, enriqueciam graças aos monopólios dos quais se destacava, sempre, a mão de obra barata. Os salários foram , até 1961, escandalosamente baixos, denunciando um mercantilismo ultrapassado. Estes salários nunca propiciaram riqueza para os residentes em Angola
Sobre estes magros salários Marcelo Caetano opinou do alto da sua sabedoria: «A experiência demonstra que os salários muito altos dos produtos da lavra indígena podem ter consequências desastrosas para a população nativa».Teria muito gosto que alguém me explicasse quais são as consequências desastrosas de um salário “muito alto”. Coitados dos gestores actuais! Preparem-se para as “consequência desastrosas”!
O fabrico de aguardente era um suporte económico para a grande maioria dos europeus residentes em Angola, ou usando o economês, era a “holding” dos colonos. A maior parte das fortunas de Angola, daquela época, fundava-se no fabrico de aguardente. Um hectare de cana dava cerca de 450 litros de alcool. A aguardente e a pólvora eram as melhores moedas de troca com os géneros que os angolanos produziam (marfim, borracha e cera) ou já estavam começando a produzir: milho, feijão, e rícino principalmente. Os africanos não aceitavam moeda como troca, vigorava o sistema de permuta.
Alfredo de Andrade passou por onde seria implantado, em 1949 o colonato da Cela. Assinalou: «A Sella é uma grande região, muito rica, muito extensa e muito interessante». Confirma-se, assim, que o nome Cela não é de origem portuguesa, não havia necessidade de lhe mudar o nome para Waku-Kungo no tsunami iconoclasta que varreu Angola aquando da independência.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 7:59 am

Já um tanto desanimado, em virtude da forte inclinação do rio, às vezes espumando em quedas e cachoeiras, escreveu:«Se se destruir um obstác ulo na ilha Massango o rio Queve é navegável numa extensão de 100 km para barcos aos quais basta a altura média de água de 3 m mas de pouco comprimento por causa das curvas muito fechadas que por vezes o rio tem». Em resumo: muito pouco se aproveitava para navegação fluvial. Apenas 100 km saindo do zero para chegar ao nada. Portugal teria que ocupar o território de Angola a pé uma vez que, como já assinalámos em escritos anteriores, as doenças inviabilizavam a utilização de cavalos, burros ou até bois. Seis anos depois deste reconhecimento começou a construção da ferrovia de Benguela (1349 km) que atravessou Angola em sentido transversal. As ferrovias, de certo modo, atenuaram “a má vontade” dos rios angolanos. As cidades desenvolveram-se, primordialmente, ao longo das ferrovias e das estradas, mas estas só a partir de 1920 sem pavimentos duros até 1961.
Alfredo de Andrade assinalou: «De Sanga para oeste o rio Queve muda de nome para Cuvo e termina na catarata Paula Cid (a ultima)». Trata-se das Cachoeiras do Binga ultima ruptura de declive do rio Queve, a 40 km da foz. Sobre esta escreveu:«...porém, parece que a sua barra é, como as do Quanza, Cunene, Catumbela, e outros, obstruída pela areias arrastadas nas águas do rio e repelidas pela calemas, ali tão vulgares». Na verdade, a foz de todos os rios costeiros em Angola apresenta muita areia quartzosa proveniente dos granitos dos planaltos. Trata-se de uma riqueza que não pode ser desbaratada à tôa. Esta areia é uma preciosa matéria prima para a fabricação de vidros e material electrónico, além da sua evidente utilidade no fabrico de betão de alta resistência. Actualmente a areia já é um bem valioso, os milhões de edificíos e barragens promoveram-na a um melhor patamar. Há países que já têm falta de areias, importam-nas de outros países.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 8:00 am

Do estudo feito em 1898 por Alfredo de Andrade consta um mapa de reconhecimento, por ele elaborado, de bom teor técnico, se atendermos aos parcos recursos daquele tempo.
Em fins da década de 50 o governador geral de Angola capitão José Agapito da Silva Carvalho recebeu a incumbência de implantar um colonato, só de europeus, na bacia do rio Queve, mais propriamente na Sella. O colonato foi batizado, obviamente, de Cela.
O novo colonato, mais um a somar ao rosário de fracassos com que Angola se enfeitava, seria uma cópia fiel do teor de vida metropolitano, sendo proibido o recurso à mão de obra africana. Julgava-se, assim, que se calariam as vozes internacionais que acusavam Portugal de utilizar um regime de trabalho compelido entre os africanos-o célebre contrato- já aqui abordado, exaustivamente, em nossos anteriores escritos. Salazar viu o tremendo erro que cometeu ao obstaculizar o desenvolvimento de Angola (duas décadas de torpor de 1930 a 1950) e tentou disfarçar, através de uma ocupação de europeus tardia e diminuta, uma presença europeia que lhe facultasse direitos internacionais ou que disfarçasse o pequeno número de colonos .
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 8:00 am

O geógrafo Orlando Ribeiro escreveu (182): «O colonato da Cela, o primeiro que se empreendeu, começou em 1950 e deve-se a um governador ignaro e à credulidade de Salazar perante os que o adulavam. Um passeio de avião nesta convergência de rampas rodeadas de montes-ilhas, e por isso pantanosas no centro, e coberta de capim verdejante, levou o governador a considerar a área ubérrima (termo que várias vezes ouvi aplicado por administrativos a solos de aptidão agrícola duvidosa). O projecto inicial era de fundar quarenta aldeias com um total de dez mil habitantes, as expropriações foram poucas, pois a natureza pantanosa do fundo da bacia limitava as áreas de cultura e de povoamento indígena. O colonato ficou sempre muito àquem dos seus ambiciosos propósitos: na melhor das hipóteses ele fixaria apenas 1% da população que sobra no nosso campo».
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 8:03 am

RIO QUEVE, O PEQUENO GIGANTE
Tudo foi modificado a partir de 1961: em vez de casais agrícolas, com 5 ha de terras, passou a haver fazendas médias, de criação de gado, tractores em vez dos idílicos carros de bois, regadio, e mão de obra africana paga de acordo com as tabelas oficiais. Esta modificação foi feliz pois a adaptação de gado leiteiro foi um sucesso, de tal maneira que em 1973 Angola passou de importador a exportador de lacticínios. Diga-se, de passagem, que este sucesso se ficou devendo, também, a vários vectores: estradas asfaltadas, um grande mercado consumidor (Luanda), maior poder de compra das populações, um competente apoio pecuário através da recem criada faculdade de medicina veterinária em Nova Lisboa e da faculdade de agronomia. A concepção inicial da Cela, dirigida com mão de ferrro pelo governador geral Silva Carvalho, falhou estrondosamente, embora tenha recebido muitos avisos por parte dos colonos. A falta de estradas asfaltadas e o baixo poder de compra foram as principais lacunas que inviabilizaram a Cela tal como tinha sido idealizada pelos estrategas de Salazar. As produções apodreciam nos lamaçais em que se convertiam as pseudo-estradas no tempo das chuvas.
Na Cela, e na Matala mais ao sul, consumiram-se milhões de contos, mais de metade das verbas dos Planos de Fomento, na implantação de colonatos “que faziam lembrar os campos da Metrópole”. O retorno destes investimentos foi praticamente nulo. No Tempo Extra a Cela já era cidade, até já tinha liceu (12º ano de escolaridade). Mas com quanto dinheiro, com quanta protecção (escandalosa) oficial? E se este dinheiro tivesse sido gasto com os três EE´s (ensino,estradas asfaltadas e eletricidade?
A colonização da Cela tornou-se uma obsessão para o governador Silva Carvalho. O Bié, principal alfobre da mão de obra compelida, ficou completamente abandonado durante o seu governadorado. O Bié não tinha um metro de asfalto, não tinha telefones, só a sede do distrito é que tinha energia electrica, mas muito deficiente, não tinha raio X no hospital (que funcionava precariamente na Mansão dos Colonos), não tinha ensino secundário gratuito (e portanto fechado para os africanos), nenhuma obra oficial, nenhum estudo, nenhum projecto, nada.
Em meados da década de 50 uma firma americana fez um estudo sobre a Cela, em especial sobre uma regularização dos caudais do rio Queve e o enxugo da Baixa do Cussoi. Este rio, durante as cheias, transbordava para as áreas contíguas onde estavam instalados colonos. Aquela firma preconizou uma barragem de terra no sítio Massango, com acumulação de 600 milhões de m3 de água. Um outro inconveniente no colonato da Cela, este de ordem sanitária, foi a existência de bilharzíose (esquistossomose no Brasil) em alguns rios da região, com especial incidência no rio Cussoi.
Em 1963 um grupo de engenheiros angolanos que constituiam a Brigada de Engenharia da Junta Provincial de Povoamento, começou, finalmente, o estudo da bacia do rio Queve. Como prioridade a instalação de estações e postos hidrométricos com vistas a obterem-se os caudais ao longo do tempo. Fizeram uma obra notável. Foi possível, finalmente, conhecer o rio Queve e os seus potenciais apoiando-se na carta aerofotogramétrica 1/100 000 e naqueles dados de campo. É justo nomear o engenheiro Joaquim Forte de Faria., como representante de todos os técnicos e auxiliares que contribuiram para a excelência dos resultados obtidos em climatologia, hidrologia e medição de caudais.
Infelizmente o rio Queve nunca mereceu a atenção do governo colonial. A sua imensa potencialidade hidroeletrica, para não citar outras (agricultura de géneros tropicais e temperados, mas com métodos modernos e empresários preparados, floresta exótica e gado bovino, abundância de água e um grande potencial hidroeletrico) permaneceu sempre sob um manto de segredo. Ao norte, no rio Cuanza em 1957, uma empresa metropolitana (Sonefe), criada às pressas e eivada de um monopolismo exacerbado, não deixou que se apontassem as potencialidades do Queve, o rio de maior rendimento hídrico de Angola. Logo em 1957 começaram, rapidamente os estudos e execução da barragem de Cambambe no rio Cuanza (Ver Rio Cuanza: o elo entre o sul e o norte, entre o passado e o futuro em Psitacideo.)

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Bacia hidrográfica do rio Queve. Tem o feitio de uma “cabaça” um dos objectos familiares da cozinha angolana. Orograficamente a bacia tem três niveis: Planalto com 18 300 km2, Transição com 4 150 km2 e Litoral com 1 420 km2 . No Planalto chove abundantemente e não há secas, apenas anos menos bons em chuvas. A configuração da bacia, a grande e regular precipitação anual, a perda de altitude em escassos quilómetros originam um rendimento hídrico excepcional sob o aspecto de energia Assinala-se a importante situação de Alto-Hama (cruzamento de duas estradas principais), um bisonho povoado antes do asfalto(1961), que se estava transformando em uma grande cidade. É o maior nó rodoviário de Angola. Além disto o Alto-Hama ainda tem boas águas termais e um bom clima de “primavera eterna”. E paisagens lindíssimas, pontilhadas por inselbergs. Tinha condições para se tornar em uma hidrópole.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 8:04 am

A maior parte da bacia do Queve insere-se nos planaltos onde as temperaturas são amenas, raramente atingindo os 30 ºC e onde as chuvas são abundantes, regulares e bem distribuídas, física e temporalmente. A estação das chuvas estende-se de Setembro a Maio. É um verão chuvoso com a precipitação média anual atingindo 1400 mm no bojo superior da bacia; no bojo inferior a chuva média anual é de 1200 mm;no gargalo superior a chuva anual situa-se em torno de 1000 mm; no gargalo inferior a precipitação média anual é irregular em torno de 500 mm.
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Re: O RIO KEVE

Mensagempor em Terça Set 07, 2010 8:05 am

Imagem Isoietas anuais na bacia do rio Queve. Isoietas são linhas que unem pontos com igual precipitação, neste caso as médias anuais.Verifica-se que mais de quatro quintos da área beneficiam de chuvas excedendo os 1000 mm anuais. Isto confere-lhe um alto rendimento hídrico, tanto mais que a bacia tem uma apreciável percentagem de granitos “em osso”.Os lençois freáticos (águas subterrâneas) são abundantes, pouco profundos e com recargas anuais.
A temperatura média anual no planalto é de 20 ºC, sendo de 27º C a média máxima anual e de 13º C a mínima média anual. Raramente se atinge 30 º C no Planalto Central.
Na Transição a temperatura média anual é de 23º C, sendo de 29º C a máxima média anual e de 17ºC a mínima média anual.
Na zona litoral as temperaturas são respectivamente 25º, 29º e 21ºC.
A humidade relativa é de 65%, 75% e 80% respectivamente.Os dois primeiros valores são típicos de climas temperados primaveris.


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