SUBSÍDIOS PARA O DIÁLOGO LUSO-ANGOLANO

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GUERRAS: COLONIAL E CIVIL - INDEPENDÊNCIA - ETNIAS HISTÓRIA - O 25 DE ABRIL E A DESCOLONIZAÇÃO

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Mensagempor Tundavala em Quarta Out 07, 2009 7:55 pm

Daqui de Portugal, vou "vendo" na NET o que os angolanos nos dizem...
É uma forma "virtual" de ir passeando por lá!
Tendo encontrado um Blog que me interessou, não resisti a contactar o seu "proprietário".
O diálogo que assim nasceu, tocou-me de tal forma que resolvi partilhá-lo convosco.

E, eterno sonhador, imaginei todos os Portugueses a conversar com todos os Angolanos, sobre o nosso passado, sobre o nosso presente e sobre os nossos anseios para o futuro.

Caro MESU MA JIKUKA
“Nadando” pelos mares, nem sempre calmos da NET, subordinado ao tema “Angola”, dei com dois blogs que me tocaram:
O de Hélder Ponte:
E o seu:
Quanto ao do Hélder, sugiro que veja e analise. Acho que vale a pena!
Quanto ao seu, apreciei, principalmente, dois detalhes:
1. Que não se deixa “manietar” por ideias feitas ou “impostas”... e que faz da educação/formação uma bitola!
2. Que está muito preocupado com as culturas locais, no fundo, a verdadeira essência de qualquer povo!
Adorei ficar a saber um pouquinho mais sobre a Kibala!
Não resisto a deixar aqui gravado um dos provérbios que citou e que achei soberbo (sem desprimor para os outros...):
“ - O luiji ki luezuka lupixile. (se o rio estiver cheio deixe-o passar).
O ensinamento é que: se alguém estiver furioso deixe-o des******** toda a sua fúria e aborde-o depois para chamá-lo à razão. Pelo contrário não haverá entendimento. Ou ainda, se se deparar com um conflito deixe primeiro amainar os ânimos. Não seja apressado.”


É tocante como este provérbio se aplica a tanta coisa: do passado e do nosso dia-a-dia!!!
É também muito curioso como este provérbio se assemelha, pelo estilo, aos árabes ou aos atribuídos a Confúcio.
Não sou especialista da matéria... sou apenas um cidadão do mundo que não deixa nunca de o analisar...
____________________________________________________________

Para o situar, sinto dever deixar-lhe aqui uma breve apresentação:
Chamo-me Armando Graça e nasci em Lisboa, em 1945.
Como tantos, fui com os meus pais para Angola em 1952.
Como tantos, só queríamos viver em paz, não “atropelar” nem ser “atropelado”...
Como tantos, triste e amargurado, sentindo que Angola se ia transformar num mar de sangue, voltei a Portugal em 1975.
Note que disse “amargurado”... Não revoltado, nem zangado...
Como muitos, mantive-me calado todo este tempo.
Não fiz parte, nem farei nunca, do grupo dos chamados “saudosistas do antigamente”...
A terra que eu havia adoptado como minha, nem para os Angolanos foi: passou a ser “terra-de-ninguém”...
Agora, “amainados os ânimos”, como muito bem refere na interpretação do provérbio que justificou esta mensagem, olho para o processo de recuperação em curso e quero (desejo, anseio!) sentir que os Angolanos podem ainda ter esperança!

Estou a “torcer” por isso!

Quem estudou (fora dos círculos oficiais...) um pouco da história de Angola, sabe que muito do que se passou era inevitável.
As guerras tribais, a ocupação europeia (em grande parte por gente sem qualquer formação/educação), a escravatura, a exploração desenfreada, a autodeterminação “empurrada” pelos chamados “ventos-da-história” e toda a violência que gerou, a guerra-fria e a sua interferência no processo de independência, a permanente ingerência dos potentados económicos, são “caldeirões” em que os Angolanos se viram “metidos” sem saber a melhor forma de sair deles...
Muitos portugueses e muito mais angolanos, verdadeira e totalmente inocentes, foram arrastados por este explosivo conjunto de factores. Por isso, para quem assim se documenta e racionaliza o seu pensamento, não há lugar para raivas mesquinhas, nem para saudosismos senis...

Já não está nos meus horizontes “ver ao vivo” essa recuperação... Tenho pena...
Mas a NET compensa e reduz, também aí, uma boa parte da distância, do saber e do sentir!

Daí o pensamento esperançoso: Será que é agora?

Estou a “torcer” por isso!

Abraços
Armando
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Mensagempor Tundavala em Quarta Out 07, 2009 7:58 pm

Resposta à mensagem anterior:
Caro Armando Graça,
Sou apenas um menino de 33 anos. Grande parte dos quais vividos em guerra. Nasci no interior, no Libolo. Vivi os malefícios da guerra entre angolanos... Um mesmo povo. Muita coisa foi-nos imposta pela história, outras pela nossa propria ignorância, intolerância e ausência de visão. Subscrevo o que escreve na msg que dá corpo a esta resposta. Mais uma vez muito obrigado por me ter encontrado na net.
Gosto de partilhar ideias e sentimentos com cidadãos do mundo. Nasci numa família de pouca instrução, dada aos seus costumes, muitas vezes retrógrados... Mas vou me aculturando... Formando e informando e me libertando de taras... Já fui muito politizado e liberto-me aos poucos. Aumenta minha visão analítica dos fenómenos, graças à formação e à informação. Aprendo muito com meus amigos que não conheço (vocês da net) que me dão o que o país não me deu. Anseio tornar-me tb um world citizenship... Espero que lá chegue. Escolho nas minhas reflexões coisas que se encaixem num futuro de prosperiadde para todos. Angola é tão grande que cá caberíamos todos (angolanos, portugueses e, até restava espaço para alguns chineses). Infelizmente os mais velhos fizeram o que fizeram. Resta-nos afastar as cinzas e erguer um novo país com sabedoria e valorização do homem. Por isso recolho a etnografia dos povos que me estào à mão. Reflito sobre os assuntos do dia despido de casacos....
Vamos comunicar-nos mais vezes, peço.
Um abraço, remeto.
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Re: SUBSÍDIOS PARA O DIÁLOGO LUSO-ANGOLANO

Mensagempor Vitor Oliveira em Quarta Out 07, 2009 8:11 pm

Bom tema Tundavala.
Porque não convidar o amigo Luciano Canhanga para membro do forum e participar directamente?
Seria óptimo. Um abraço
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Mensagempor Tundavala em Quarta Out 07, 2009 11:15 pm

Caro Vitor

Acabei agora mesmo de o fazer!

E espero vivamente que ele aceite e participe!

Obrigado pelo apoio, já que, ao abrir o tema, estava com algumas dúvidas...

Armando
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Re: SUBSÍDIOS PARA O DIÁLOGO LUSO-ANGOLANO

Mensagempor Tundavala em Quarta Out 07, 2009 11:49 pm

Resposta ao Luciano:

Caro Luciano
Acredite que me comoveu. E a comoção tem várias origens. Vamos ver se consigo explicar, porque nem sempre o que nos vai na alma salta para o teclado.
Vou tentar responder a este seu maravilhoso mas tão sofrido texto.
É a primeira vez, depois de Dezembro de 1975, que converso com um Angolano. Ou seja, a última vez que isso aconteceu o Luciano ainda não tinha nascido...
Nessa altura estava no Lobito e trabalhava na Sorefame. Tinha grandes amigos angolanos e tínhamos grandes conversas (em privado, claro!) sobre a situação, o futuro. Eram pessoas calmas, ponderadas e pacifistas. Tal como o Luciano disse, eles também diziam que havia espaço para todos e ainda eram precisos mais. Um deles dizia, brincando com as palavras e com a Cuca gelada na mão, que nem os portugueses todos compensavam a quantidade de angolanos que tinham sido levados daquelas paragens... Isto a propósito de eu comentar que, do Lobito ao Novo Redondo (Sumbe), não se via vivalma...
Mas tudo isso foi antes do 25 de Abril de 1974. A partir dali as conversas leves acabaram e as feições fecharam-se. Acho que cada um se voltou para o seu umbigo, pensando o que fazer da vida...
Apesar dos meus 63, já quase 64, acho que continuo jovem de espírito. Daí o ter achado, numa primeira reacção, imensa piada à sua tirada de ser “apenas um menino de 33 anos”. Depois, pensando melhor, isso não tem graça nenhuma, porque penso que, tendo nascido em 1976, não teve foi oportunidade de ser “menino”. Ou será que estou enganado?
Não se culpe nem se amargure pela “ignorância, intolerância e ausência de visão”. Repare: De há muitos, mas mesmo muitos anos que Portugal, até ao falecimento de Salazar (1970) era adepto do “pobrezinho mas honrado”. E que estava por detrás dessa frase psudo-poética? Trabalha e cala-te ó estúpido! Aprender a ler e escrever? Para quê? Para apanhar azeitonas das oliveiras ou arrancar a cortiça aos sobreiros? É assim tão diferente da apanha do café ou do corte da cana do açúcar nas fazendas?...
E isso leva-nos às famílias de pouca instrução... O meu pai (que, como barbeiro foi um grande profissional!) só fez a 4ª Classe em Angola, para poder tirar a carta de condução!!!
A propósito da cana, na Cassequel (Catumbela) em 1972, tive oportunidade de ver uma carta de 1950 onde um director escrevia para o Posto de ? (algures no actual Huambo): “Solicito a remessa de 200 cabeças para a campanha das colheitas que deverá ocorrer dentro de 30 dias.” E eu, ignorante, nem percebia o que eram as “cabeças”... Um funcionário é que me explicou como o “gado” era arrebanhado! E há ainda quem não entenda as barbaridades de 1961 e seguintes.
...
Há muitos anos atrás, nem eu era vivo, aconteceu um ciclone em Lisboa que, pela raridade, ficou célebre (1941 – fui ver à “abençoada-net”...). A minha mãe era uma fenomenal contadora de histórias! Então - contava ela - do postigo da porta da casa onde morava, via as telhas da casa em frente a ser arrancadas uma a uma do telhado! E gesticulava para a vizinha da frente, apontando-lhe para cima, para a avisar. Acontece que a vizinha, igualmente ao postigo, também fazia gestos frenéticos para o lado de cá, apontando para cima! Ela também estava a ver as telhas da casa em frente a voarem como folhas de papel!!!
...
Os problemas da vida são como os cubos: é impossível ver todas as faces ao mesmo tempo!
...
Chega por hoje...
Abraços
Armando

Nota: Tinha-me esquecido de o informar que, no fórum Kamussel, adoptei o nome de “TUNDAVALA” e que a entrada é livre! Inscreva-se também! É muito bem-vindo!
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Mensagempor Tundavala em Quinta Out 08, 2009 11:23 am

Caro Luciano

A propósito de "abençoada NET", encontrei uma coisa que vai gostar (acho)
calulo-mussafo.jpg

Esse pessoal que vive (ou vivia?) ao lado do Mussafo não tem medo que as pedras lhes caiam na cabeça?
Armando
_____________________
Luciano:
Ai a foto do Mussafo!
Vivi ali ao lado. do lado de lá do rio Cambuco. Não à beira das pedras. Elas podiam até rolar, mas acabariam no riacho. Eu estaria salvo. Voltei a Calulo, no mês findo e já lá não estão as casas da família Kalungano. A pequena aldeia saiu dali. Não sei se a conselho das autoridades ou por outro motivo. Senti muita saudade ao ver a foto.
Você viveu ou passou por Calulo?
_____________________
Armando:
Fico satisfeito por ter sido útil mandar a foto!
Ainda bem que gostou, isto apesar daquele “doce-amargo” de que é feita a saudade...
Nunca estive no Calulo. Só que quando falou da terra, fui à NET, primeiro para localizar e anotar dados, depois procurei em imagens e encontrei essa que achei fabulosa.
É curioso como a perspectiva engana quem não conhece! Pela imagem parece que as pedras estão logo ali...
E encontrei outra coisa curiosa: Há ali referências a uma tal Vila Etelvina. Ora acontece que a minha mãe se chamava Etelvina... Ou seja, levei um abanão na alma! O engraçado é que nem ela nem eu suspeitámos nunca da existência de tal vila...
E a família Kalungano é a sua? E o apelido Canhanga vem de onde? Desculpe as perguntas de curioso/ignorante...
Você não tem permissão para ver os ficheiros anexados nesta mensagem.
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