UMA NOITE NA GABELA...

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UMA NOITE NA GABELA...

Mensagempor Tundavala em Terça Set 22, 2009 11:12 pm

Nos anos 80, tive um colega, de quem perdi o rasto com pena, que morava na Amadora e ia de férias para Benavente. Era um grande contabilista, bom comunicador, minucioso em tudo e devo-lhe o que sei de contabilidade. Antes das férias fazia uma revisão geral ao carro. Sempre aquele rigor me causou uma estranha impressão. Até que descobri a razão...

Vésperas de Páscoa de um qualquer ano anterior a 1974. Morava então no Lobito e pergunta-me a patroa, que tinha os pais em Luanda: Armando, não vamos lá passar a Páscoa este ano? E eu, sem pensar muito na questão, embrulhado entre programas informáticos: Claro que vamos! Saímos amanhã (6ª) depois do almoço e voltamos Domingo, também depois do almoço.

Se calhar será boa ideia lembrar aqui que da Amadora a Benavente são pouco mais de 60 Km e que, do Lobito a Luanda serão aí uns 600... já não me lembro bem...

Para lá nada de assinalar.
Lá, um cabrito para devorar e convém explicar que a família era grande (tinha 6 cunhados!!!), não vá pensarem que comemos à fartazana... Não! Tudo dentro do normal, razoável e civilizado.
Aliás, do que eu gostava mesmo era da sobremesa: mangas e pitangas apanhadas e comidas na hora... Nada destas pobres mangas apanhadas verdes, transportadas em frigoríficos e que a gente come a imaginar o sabor das outras... Quanto às pitangas, essas, só mesmo em sonhos de uma noite de "nunca-mais-verão"...
Adiante!

E toca a andar que se faz tarde... Chegámos à Gabela quando o sol se já se ia pondo para lá das montanhas. Andava toda a gente na rua a desmoer a almoçarada, uns a pé, outros de carro... Resultado: Um pára-e-anda de Olá! D. Miquelina, como está? Passou bem? Boas festas! Olha aquela montra tão bonita! Olha! Pára aí um bocadinho que vou buscar uns gelados para os pequenos...

Julgam que alguêm buzinava, estrebuchava e dizia palavrões? Nada disso! Era assim e ponto final. Íamos vendo quem passava e esperando que a fila andásse...

Num dos arranques, oiço um estalo, o carro abana e vai-se abaixo. Mau, mau Maria! Que terá sido? Mal saí do carro, logo três ou quatro pessoas se acercam e dizem: Oh amigo, partiu prái qualquer coisa! E outro: Venha daí que eu conheço um mecânico que mora aqui perto e sei que está em casa. A patroa ficou a dar o biberon à bébé, já devidamente instalada numa esplanada e aparicada por várias outras mamãs pressurosas, encantadas por ajudar e por terem arranjado um passatempo fora da rotina de uma pequena cidade.

A casa do mecânico era tradicional, oficina por baixo, moradia por cima, subimos a escadaria e, como a porta estava aberta, fomos entrando enquanto o meu cicerone ia dizendo: Ora boas tardes! Está tudo bem? Olha o Miguel! E para mim: Boa tarde amigo, mas sentem-se, sentem-se! Oh Maria, trás aí mais 3 Cucas geladinhas qua a minha ja está morna!
E o Miguel: Ó Santos, este amigo está com o carro empanado ali no centro...
Cala-te lá!!! Primeiro matamos e sede, essa história fica para depois! Bolas! Páscoa é Páscoa! Primeiro está a Fé e a sede! Depois os demónios dos carros! Sim, porque lá nas minhas Beiras somos todos muito católicos...

E eu aflito...

O desgraçado do Beirão só depois de ter gelado o estômago dele e o nosso com mais 3 Cucas é que se dignou perguntar: Afinal, amigo, que se passa com o carro? E, perante as nossas explicações, fez uma careta e diagnosticou: Vamos lá ver, mas acho que já não sai daqui hoje...

E eu aflito...

Fomos, ou melhor foi ele ver, por que eu já nem via nada, só de pensar em passar a noite na Gabela, com um dia de trabalho pela frente a poucas horas daí... Ponha lá o carro a trabalhar. Treck, treck, pum! ALTO! Não mexa mais! Tem um piston partido! Então e agora? pergunto eu já completamente de rastos...

Agora? Fácil, Dorme em minha casa com a patroa e a bébe e às 5 da manhã vão no Camion-cisterna que vai para o Lobito buscar gasóleo, compra um jogo de reparação e manda-mo pelo mesmo carro. Tome lá o meu telefone que eu fico com o seu e quando o carro estiver pronto, logo lhe digo! Lá para o fim da próxima semana, se tudo correr bem. E contas? perguntro eu... sem um xavo no bolso! Oh! homem! Não se preocupe! Quando lhe telefonar logo lhe digo quanto é. Mande-me é as peças e não se esqueça de levar o livrete para não haver enganos no modelo!

E assim foi... Chegámos ao Lobito pelas 9 horas a tresandar a gasóleo. Largámos a família em casa e fomos comprar as peças do Cortina 1600E à Ford (que só paguei no fim do mês...) e, na 6ª feira seguinte lá vou eu de camion-cisterna outra vez buscar o meu rico carrinho...

Confirmação da avaria: um parafuso de fixação do filtro do ar tinha saltado e, passando pelo carburador, furou um dos pistons... Lindo!

Paguei uma bagatela pela reparação, fiquei com o motor novo e, cada vez que passava na Gabela, lá ía visitar o Santos mais a sua Maria que levava logo a Raquel ao colo para a mostrar ao pessoal todo e, claro, não saímos de lá sem um almoço de estalo! Se não eram umas costoletas de veado, era um cabrito na sertã, ou bacalhau com batatas, tudo regado com bom azeite e vinho do puto, mais café e aguardente velhinha... e lá seguíamos para Luanda ou para o Lobito na maior... Se nesse tempo houvesse brigadas e balão estava feito!!!

E, como se vê, a vida era assim: Dos azares nasciam sortes, dos acasos faziam-se amigos do peito.

Ainda hoje uma coisa me espanta: Como foi que, numa viagem de tal distância, grande parte dela através de nenhures, o carro foi estoirar no centro de uma cidade plantada no alto de uma montanha e cercada de roças de café?

Azares, disse antes? Aquilo foi uma sorte macaca!!!

Portanto, partindo do princípio que o meu anjo da guarda não terá ficado por lá, continuo a não fazer revisões, nem para ir à Serra da Estrela!!!

Mas, o que é mesmo importante e gostaria que retivessem, como agora se diz, para memória futura, é aquele fenomenal espírito de entreajuda, a disponibilidade para apoiar e orientar. Porque será que ali, éramos TODOS, Bombeiros Voluntários sem fardas, sem quartéis, nem comandantes?
AH! Até me esquecia de dizer que o Miguel, que tanto me ajudou, era africano... nascido e criado na Gabela!!!
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Re: UMA NOITE NA GABELA...

Mensagempor António Kalunga em Quarta Out 21, 2009 8:45 pm

Tundavala. Esta simples exemplificação que dá nesta postagem resume o que era a forma como todos nos viamos uns ao outros, aliás essa devia ser a forma adotada para servir de exemplo para a vivência universal. Um abraço
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UMA NOITE NA GABELA...

Mensagempor Tundavala em Sexta Out 23, 2009 9:05 pm

Caro António Kalunga

Muito obrigado!

E é isso mesmo que diz:

Se todos tivéssemos e usássemos o espírito de entreajuda, não precisávamos de esperar por um qualquer paraíso após a morte... ele já estava aqui!!!
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